Oficina da Crônica

dezembro 9, 2009

TODO DIA É DIA DE CRÔNICA

Filed under: 2009.02 — literarea @ 12:47 pm

Marcílio Freire

Os motivos para se escrever uma crônica sempre fizeram parte de nossas vidas, assim como os espetáculos do amanhecer, do entardecer e até da noite, que muitas vezes também ignoramos. Para se ler o cotidiano, universo da crônica, é preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Um tema da atualidade que está aí a nos motivar, é a Inclusão Social. Parece que a humanidade ficou mais sensível às necessidades dos excluídos. Pouco a pouco, esses quase párias galgam acesso à inserção, na maioria das vezes por força de lei, quer sejam os portadores de deficiências físicas ou neuropsicológicas, os de faixa etária dita da terceira idade, os de pele não clara, com quotas reservadas nas universidades, quer o seguimento feminino, para diminuir o peso do patriarcalismo e, até dos menos favorecidos economicamente, sem posses para adquirir um computador, agora assistidos com a inclusão digital.
Se até gay e lésbicas já se organizaram, a ponto de criarem uma nova tipificação penal, a homofobia, porque não também os demais excluídos?!
Essas correções ou justiça social, se fazem por movimentos de classes, organizados e com programas definidos, pautas de reivindicações e políticas próprias. Raramente surgem de forma espontânea e sem maiores pretensões. Mas já há alguns casos. Pinta no horizonte de forma natural, sem pressões ou exigências legais o MIL, movimento de inclusão literária, dos cronista, grupo nascido nas oficinas de crônica da Estação das Letras, sob a orientação do gatão de meia idade Felipe Pena.
A turma é deliciosa e a didática pra lá de motivadora, lúdica!
Confesso que não gostei da idéia de escrever anonimamente, se bem que considerei altamente positivo submeter meus trabalhos à crítica dos colegas. O resultado foi surpreendente.
Criou-se uma expectativa, um clima paralelo de suspense. Todos querendo saber quem era quem. Uma permanente animação, entusiasmo e curiosidade. E toma-lhe palpite! Jogar verde para colher maduro, simulações, dissimulações e trair-se pelas reações ou defesa diante de idéias expostas no anonimato.
A estrela ficou por conta, talvez, do Severino Mandacaru, que eu jurava que era o sério José Enfezado, com seu ar nordestino que, por pouco não compareceu de chapéu de couro e gibão. Mas José não era Severino.
Sabe quem era o Mandacaru? Aquele gringo, de olhos claros, mistura de italiano com alemão e de nome Luigi, uma criança de oitenta anos, duas vezes a idade do professor. Não descobri não! Contaram-me, depois ele confessou e não acreditei! Mas era! Daí por diante, desisti de tentar adivinhar.
Agora, a patota, João, Márcia e o famoso Luigi Mandacaru, arrasaram! Mas, quem é o Miranda? Quem é o Noronha? E a Roberta Bom Tempo? E Vila Nova, será ele ou ela? E a Cláudia Vieira? Cláudia, queria saber se eu enviara minha crônica para o blog, para, por eliminação descobrir meu pseudônimo. Caraca! Essas mulheres! E os outros, cujos nomes não guardei?
Ficamos todos parecendo ginasianos brincando de pique esconde. Rejuvenescemos.
Afirmam, alguns, com segurança, que o professor também entrou na brincadeira, apresentando trabalho sob pseudônimo. Tivemos até críticas às críticas. Foi realmente muito divertido.
Em princípio quem apareceu foram os homens, mas de fato quem dominou, de forma sutil, foram as mulheres.
O João, locutor oficial, que nunca lia os textos antes, só na hora, alí em sala, de primeira, foi um show à parte. Certa vez, envolveu-se tão fortemente com o texto que chorou de emoção, sendo de imediato confortado pelo psicanalista de plantão, que abraçou Joãozinho em nome de toda a turma.
João, é tão bom em mimetismo, fazendo-se passar por outros, que ora ele é da Amazônia, ora do Nordeste, do Sul, do centro Oeste, e até um Mineiro uai! Disfarça tão bem, que as vezes duvida que ele seja ele mesmo.
Os estilos não passaram despercebidos a ninguém e foram estudados pelo mestre que identificou os autores, sem revelar suas identidades.
Um dos momentos mais esperados do curso, era o da publicação pelo JB, das Crônicas do Felipe Pena. Os alunos eram os primeiros a chegarem pela manhã às bancas de jornal, adquiriam seu exemplar como quem conquista um troféu.
Alguns aprendizes de cronistas, queriam a receita de como se fazer crônica, com todos os ingredientes, inclusive os temperos, modo de misturar, tempo de cocção, como se fossem fazer um bolo, e até procuraram livros de receitas literárias. Outros, ficavam caladinhos,quietos, com raras manifestações, prestando uma atenção, como na piada da coruja, entre eles Delano e a Graciela.
As aulas começaram com a abordagem da Ilíada, mas o norte, a estrela guia na arte de navegar as águas literárias da crônica, mostrada pelo Mestre, foram os paradigmas aristotélicos.
Lemos em sala vinte e uma crônicas de uma coletânea de escritores célebres, fora as produzidas em aula; tivemos citações de cronistas modelares nacionais e estrangeiros; abordamos a técnica do estranhamento; descobrimos o olhar através da câmera subjetiva; fomos levados a fazer crítica social sem a idéia de convencer, enfim, trabalhamos a crônica, sob a orientação do Felipe, como fruição do prazer.
Pronto! Ninguém mais se perdeu. Internalizaram os conceitos. Traduziram o cotidiano. Acrescentou-se muito ao já sabido. Nada mais se lhes escapa. O aproveitamento foi total.
Mas, e eu? Quem sou eu? Ou melhor, quem fui eu nessa história, se faço parte da turma!?
Meus personagens só mudam o nome. Todos são eu mesmo, em minhas multiplicidades. POCEMTAG, com a Crônica Crítica, um trabalho sobre o texto O Casamento de Dilma e Michel, de um jovem de trinta e poucos anos; FOBUS, com os Bichos, que fala da opção por tartarugas, por terem vida longa, não incomodarem a mim nem a vizinhança; e o APRENDIZ, com Nova Moral, que falou até da hospitalização do velho professor. Afinal, somos e seremos sempre aprendizes.
Todos já sonham com Oficina de Crônica II, ou Avançada, pois já se consideram seguros e aptos para a inclusão no seleto grupo dos cronistas. Fazem parte de um blog , onde publicam seus textos. Já estão fazendo sucesso, tanto que um jornalista do O Globo ligou parabenizando a turma do Felipão pelo alto nível das crônicas.
O gostoso, marcante e extraordinário de todo o aprendizado, foi que usando o trampolim, bebendo nas fontes aristotélicas, sem medo, num vôo juvenil, saímos todos remoçados. Nosso cérebro agradeceu. Brincamos de clichês, de memória, de personagem famoso, com fatos históricos e até abusamos de outros idiomas, usando HEDLINE, e FAIT DIVERS.
Em tudo, em especial nas Crônicas, predominou o humor, marcando com a alegria o espírito de todo o grupo.
Esta Crônica poderia ser intitulada A INCLUSÃO, ou a OFICINA DE CRÔNICA ou OS CRONISTAS ou ainda OS ANÔNIMOS. Deixa como está, porque todo dia é dia de crônica.

dezembro 7, 2009

Filed under: 2009.02 — literarea @ 4:35 pm

Caros,

A seguir, as técnicas. Em alguns tópicos encontram-se, entre parênteses, o nome das crônicas para exemplificar a técnica.
Divirtam-se!

01. Método de Aristóteles/ Construção do Personagem – roupas/feições/gestos;
02. Ação – Ex.: Trajeto para academia (Aquela);
03. Revisão de erros de texto;
04. Referência Célebre – Ex.: Lúcio Flavio, o bandido (A Mulher Preferida);
05. Diálogo Intimista – Ex.: ‘Dona…’ (A Mulher Preferida);
06. A surpresa;
07. Repetição de termos -Ex.: Leão por 3x (Harley);
08. Citação a uma animal – identificação (Harley);
09. Antecipação – Correlação com parágrafo seguinte – suspense ao leitor (Harley);
10. Doença / Comoção – Ex.: a jaula (Harley);
11. Referência histórica – Ex.: Angola (O Grillo);
12. Nomear – efetuar duplo sentido – Ex.: Grillo (O Grillo);
13. Cuidados com clichês e na tentativa de explicar pra quem já sabe – Ex.: Camisola = camisa (O Grillo);
14. Uso do travessão – começo com travessão (Dia de Chuva);
15. Ação – Ex.: Chuva – Luta – sapato de camurça (Dia de Chuva);
16. Estratégia da Cidade – Ex.: Uruguaiana (Dia de Chuva);
17. Algo como personagem – Ex.: pé como personagem (Dia de Chuva);
18. Diálogos internos => classificações – Ex.: “carrinho de …” (O afilhado do Tio Tonico);
19. Estranhamento no prosaico – Ex.: Limonada Pronta (O afilhado do Tio Tonico);
20. Diálogo entre o animal e o homem – Ex.: cão e o bêbado (De Gente e de Bichos);
21. Substantivo que parece verbo – Começo => Impacto – Ex.: “-Colapso” (Invasão das Almas);
22. Adjetivação – Ex.: “Essas Putas” (por Lobo Antunes);
23. Referência Intelectual – Ex.: Stuart Mill (Invasão das Almas);
24. Conflito Pai X Filho (Invasão das Almas);
25. Atualidades – Ex.: Analogia Blackberry (Invasão das Almas);
26. Crítica Social – Ex:”os tempos modernos são escravizantes” (Invasão das Almas);
27. O título da crÔnica – Diferenças entre o atual X mito (Maldito José Mayer!);
28. Apelido – Ex.: Norivaldo – Nonô (Maldito José Mayer!);
29. Referência cultural – Ex.: Filme ‘E o vento levou’ (Maldito José Mayer!);
30. Ironia: Ex.: Acidente de carro => Luta contra o fumo (Maldito José Mayer!);

A OFICINA DA CRÔNICA, VINTE ANOS DEPOIS

Filed under: 2009.02 — literarea @ 4:26 pm

Mandacaru
Quando fulora na seca
É o siná que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjoa
Da boneca
É siná que o amor
Já chegou no coração…

… Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer

Só pensa em namorar…”

Despido, de pé no banheiro em frente ao espelho, Severino repete a última estrofe baixinho, …ela só quer só pensa em namorar.

Manhã quente de novembro, olhar cansado. Um lutador, um lutador nordestino. Antonio Conselheiro, seu herói… Batem na porta, mal consegue ouvir. Católico fervoroso, jamais perdera sequer uma missa na vida. Paciente, resignado, surdo do ouvido esquerdo, a natureza cobrou seu dízimo. Nasceu assim. Tudo tem sua razão de ser, proclamava a todos que se irritavam quando não os ouvia.

Lembra daquele dia, quando deslumbrado, contemplava o sol nascer por entre as flores alvas daquelas bagas espinhosas do majestoso pé de mandacaru da sua escola em Cratéus. Um carrapato, sem tomar conhecimento das suas divagações, invade, penetra, viola aquele que era o seu mais precioso e único bem, seu ouvido direito. Com a audição reduzida nesse ouvido à metade, terminou por ceder aos pedidos da Roberta e passou a usar um Vienatone.

Severino, olha novamente para o espelho, baixa os olhos, contempla aquele guerreiro, bravo companheiro de tantas batalhas, murcho, caído, flácido, derrotado. Madonna, ah Madonna mia!

Mais um toque na porta, abre! Roberta, a Roberta dos Bons Tempos. Vinte anos, haviam se passado desde que conhecera aquela incrível moça.

Insistente, persistente, não sossegou enquanto não trocaram juras de amor eterno. Juntaram-se, tiveram dois filhos. Ela, eterna romântica os chamou de Manda e Carú. Manda, um garboso Cocker spaniel preto, filho de Bonnie, paixão do Lo Bianco, era o xodó do papai Severino. Não conseguia disfarçar a preferência. O outro, ou melhor a outra, Carú, uma Fox paulistinha, foi presente da incrível Miranda.

Alguns amigos, daqueles tempestuosos tempos de embate da Oficina da Crônica, permaneceram: o Lo Bianco e o Ícaro, seu irmão. Roberta morria de ciúmes, nenhum motivo, nenhum fundamento, apenas dois bons e velhos amigos. Escritores outrora famosos, aposentados, aguardavam apenas o tempo seguir seu tempo.

E o nosso indefectível, o artífice, o mestre Felipe Pena, como estaria vivendo? Sessentão (sessenta e seis, sua idade atual), abandonou em definitivo a vida de escritor, apesar dos protestos de escritores de renome como Severino Mandacaru, Miranda, Noronha. O fato provocou até uma grande mobilização popular, na realidade, uma comoção nacional.

Recebera uma herança de seu avô, também Felipe, italiano, multimilionário, fez fortuna logo após a segunda guerra mundial. Transformava armas de guerra em aço e as vendia às indústrias carentes desse metal. Homem de visão, sem ele a Fiat italiana não teria se reerguido, não seria o que é hoje. Sua fortuna, avaliada em bilhões de dólares se devia a um sem número de investimentos em imóveis, hotéis e siderurgias na Alemanha e na Itália. A sua grande sacada foi antecipar-se, em muitos anos, na percepção da futura necessidade de fabricação de preservativos anticoncepcionais.

Voltando ao nosso herói Felipe, o neto, pasmem, casou com a Dilma, aquela moça manchete da famosa crônica, “Dilma e Michel”. Sentindo-se homenageada, fez de tudo para conhecer aquele escritor tão talentoso. Na verdade, confessou-lhe mais tarde já nos seus braços, aquilo veio a lhe criar um grande constrangimento, estava em campanha política.

Mas já superou, estava amando, estava nas nuvens. Tinham se conhecido de uma maneira que só o destino consegue criar. Palestrante famoso,havia sido convidado a participar de um ciclo de palestras no nordeste, mais precisamente em Natal, RN. Versava sobre a influencia do aquecimento global no ciclo menstrual das mulheres anãs.

Dilma, havia acabado de sair de um comício. Um amigo comum, de grande penetração na política da região, os apresentou. Solteira, admiradora de homens cultos, encantada pelos inúmeros cursos, mestrado e doutorado de Felipe, confessava-se uma escritora frustrada.Amor a primeira vista (depois dizem que isso não existe!). Após um breve romance, casaram-se. Foram felizes por muitos anos. Para ser mais exato, pelos últimos vinte anos.

Adoravam viajar, correr mundo afora, de um lado para o outro, sem lenço nem documento. Milionário, Felipe aprendeu a esquiar, virou figurinha fácil em estações de esqui como Sölden, Zell am See, Val Thorens.

Mesa cativa, era conhecido por seu primeiro nome pelos maitres dos melhores restaurantes da Europa: o espetacular El Bulli de Barcelona, o inglês The Fat Duck, os parisienses Pierre Gagnaire e o L’Astrance, o Les Amabassadeurs e outros menos estrelados como o Le Meurice, o Le Pré Catelan e o Ledoyen.

Vinhos preferidos? O divino Château Lafite Rothschild 1787 (156.450 dólares a garrafa) consumia como água. “Mandava pra dentro” três garrafas por refeição. Como digestivo, abusava do doce, o apreciadíssimo Château d’Yquem 1811 (100.000 dólares a garrafa). Considerava imprescindível para que pudesse repousar suas papilas gustativas, após tal esbórnia.

Vinhos de menor qualidade, vez por outra, freqüentavam sua mesa: O Penfolds Grange Hermitage 1951 (a 38.420 dólares a garrafa), o Château Mouton-Rothschild 1945 (28.750 dólares a garrafa) e raramente o pobre, mas já famoso por estas bandas, o Romanée Conti 2003 (4.650 dólares a garrafa). Usava este vinho, pasmem, como bochecho após as refeições, hábito herdado de seu avô italiano.

Enfim, a Europa tornou-se seu lar, mas não seu berço. Alquebrado, (a diarréia provocada por aquele nefasto e fecundo presunto marcou-o de maneira indelével, nunca deixou de visitá-lo diariamente desde então). Saudoso dos velhos tempos, voltou a lecionar. Sem forças para dirigir, o transito caótico forçou-o a contratar um motorista, o antigo garoto Delano, que Felipe, carinhosamente chamava de Cristóvão, homenagem ao santo de mesmo nome.

E o nosso caro e bravo Lo Bianco? Num certo momento teve um grande futuro, que agora felizmente já faz parte do passado. Casou com a rica viúva de um usineiro nordestino.

Conhecido como Lôzinho, ajudava todos os irmãos. Ícaro, o irmão do meio, escritor de razoável talento, alcançou fama, em grande parte, pelas injeções de dinheiro freqüentes feitas por seu irmão mais velho, apenas um pro-labore, como ele mesmo dizia.

Asclépio, irmão caçula, carregou sempre o estigma de criança adotada. Bebê, foi encontrado num cesto, boiando no rio Guandú. Mais velho, adotou o pseudônimo de Achado, Achado de Assis. Publicou poucas crônicas, desconhecidas do grande público.

Com o dinheiro recebido com a venda dos livros, comprou um sitio em Friburgo e lá foi viver cercado pelo seu bambual.

Lôzinho também não esqueceu dos primos. O Alberto (O Alcoviteiro) vivia a apregoar os defeitos e mazelas de cada um. Alardeava possuir uma pequena empresa de processamento de artigos de alumínio e de estanho, na realidade descobriu-se mais tarde, um depósito de latas de cerveja e de guaraná usadas que comprava a preço de banana dos catadores da região. Revendia-as, à quilo, amassadas, pelo dobro do preço.

Seu maior amigo, Noronha, ah, grande Noronha! Esse era o cara! Rebelde, um tremendo manguaça, adorava a noite. Transgredir mulheres sem compromisso era sua missão. Pagou seu preço. Foi visto freqüentando o AA, Não perdia uma reunião sequer, sabia que voltaria a beber.

Por último, o menos expressivo de todos, o Sísifo, por sua semelhança de vida com o personagem que empurrava uma pedra morro acima e depois deixava que ela rolasse morro abaixo.Vida inglória, a desse distante primo distante. Morava no Ceará, denominava-se pomposamente, “O Rei dos Clichês”, procurava clichês até em bula de remédio.

Roberta Bomtempo, a esta altura famosa, nunca o perdoou, apesar de chamá-lo de meu rei. Considerava suas precisas análises, uma chatice, uma ofensa. Achava que ele deveria procurar alguma coisa para fazer. Parar de incomodar os outros, escrever uma crônica, quem sabe?

Lôsinho e sua pseudo família

Lo Bianco – Ícaro – Achado de Assis – Mr.X – O Alcoviteiro – Freddo, aquele que veio do Frio – O Rei dos Clichês – Busca por Coerência – Com você somos dois – Sandy

dezembro 2, 2009

DOR EMOCIONAL

Filed under: 2009.02 — literarea @ 5:44 pm

Sabemos que a dor física é muitas vezes devastadora, mas quase sempre tem dia mês e ano para acabar, isso é certo.

Já a dor emocional, essa machuca, aniquila, corrói, faz sofrer, não tem prazo para encerrar. Dói no peito, no estomago, no intestino, no rico, no pobre, no homem e na mulher. Não desaparece nem mesmo com a administração de nenhum remédio, no máximo disfarça. Mesmo quando estamos amando e sendo amados, esta é a dor que se materializa quando estamos a sós, sem nenhuma abstração que distraia a mente.

No amor, quando abandonados, é que ela se manifesta com toda a sua pujança. Ela é como o Titanic, onde passageiros, alegres, despreocupados, cantam, inocentes à aproximação sombria do iceberg que o colocará a pique. Solitário, sombrio, aquela montanha branca oculta pela solidão fria e escura da noite, sem pressa, aguarda apenas o momento adequado para dar o bote, na presa indefesa escolhida sabe-se lá por qual critério determinado pelo destino.

Ela funciona como os nossos sonhos, nossos pesadelos. Insidiosa, brota de dentro de nós, não pede licença, não dá explicações. Brutal, imperiosa, cobra-nos ações impensadas, infantis, irresponsáveis, inconseqüentes, raivosas. Permitimos abusos, rimos, aplaudimos, esperneamos.

Somos apenas crianças adultas indefesas, manipuladas por nossa mente insegura e carente, que quer ser feliz, só não sabe ainda como, não aprendeu, não foi ensinada.

Ela nos joga em relacionamentos que já se iniciam falidos e que a prudência nos aconselha a bater-em-retirada. Surdos a seus apelos, deixamos que mulheres fortes, poderosas, nos inebriem, obliterem nossa capacidade de perceber, de avaliar, de julgar – a maia que nos ilude, diz Hesse em Sidarta e que me faz sentir inteiro, completo, único, feliz, poderoso. Amar e ser amado, essa é a condição, essa é a moeda de troca, a troca da solidão, do abandono, pelo aparente aconchego, pelo calor da aceitação de uma relação doente, insustentável.

Somos tomados pela euforia infantil da imagem idealizada de alguém que só habita os nossos sonhos, nossas lembranças, mas que nos abandonará, nos fará sofrer, é só uma questão de tempo, onde a dimensão desse tempo não é quantificada pelo número de dias, de meses nem de anos, mas sim pelo tamanho do sofrimento que nos submetemos para obtermos nosso alimento, a adrenalina, nossa droga, nossa dose diária de sofrimento, a anestesia para a nossa dor.

A verdade é que ninguém nos obriga, ninguém nos submete, nós é que queremos, nós é que deixamos. Somos responsáveis, não adianta dizer o contrário. Damos aos outros a capacidade de decidir por nossas vidas e depois tentamos jogar nesses mesmos ombros a responsabilidade por essa atitude.

Sabemos, mas fingimos que não sabemos, que existe um momento na vida em que deveríamos ficar sós. Sabemos também que essa condição não durará para sempre, mas pelo tempo que o tempo assim exigir, quando aprendermos a ficar sós e perder o medo de estar sós.

Este será o momento onde teremos a oportunidade de proporcionar a nós mesmos o que sempre fizemos pelos outros, não a troco de nada, sabemos no fundo de nossos pensamentos. Será o momento que irá ajudar-nos a crescer em todos os aspectos das nossas vidas, em todas as situações. O casamento é importante, mas temos que aprender a casarmos conosco em primeiro lugar, única união realmente duradoura e que nunca irá nos abandonar.

Este é o amor incondicional, sem exigências, nenhuma troca será feita sob condições, nenhum contrato com a dor será assumido. Somente assim teremos a certeza de que encontraremos a chave que irá destrancar a fechadura do verdadeiro amor, chave que sempre estivemos à procura, de uma maneira ou de outra, até agora inalcançável, escondida dentro de um pântano neurótico emocional que vem nos jogando nos braços de mulheres que nos encontravam sem que as estivéssemos procurando.

Rio, 2 de dezembro de 2009

João Carlos e pseudo família

Ícaro – Achado de Assis – Mr.X – O Alcoviteiro -
Freddo, aquele que veio do Frio – O Rei dos Clichês -
Busca por Coerência – Com você somos dois – Sandy

Aos Super-Heróis

Filed under: 2009.02 — literarea @ 5:01 pm

Assisti ao filme Kill Bill – Volume 2 neste último final de semana na TV a cabo. Gostei do filme. Apesar de não me ser de todo o agrado a sanguinolência, sempre presente nas obras de Tarantino, a combinação mulheres lindas e mortais me fascina. Todavia, o que me chama atenção nesta película é uma cena em que o personagem Bill, interpretado pelo saudoso David Carradine, relata sua apreciação à mitologia dos super-heróis enquanto espera o soro da verdade fazer efeito na personagem de Uma Thurman.

Bill conta que é fã destas histórias, não só pelas aventuras mirabolantes, mas principalmente pela figura do alter ego e, que sua mitologia favorita é a do Super-Homem. Diferentemente de outros heróis, o Super-Homem já nasceu Super-Homem. Ele não é como o Batman, que na verdade é Bruce Wayne. Clark Kent é o seu disfarce e sua forma de interação com a sociedade. Segundo Bill, Clark Kent é a crítica que o Super-Homem faz a humanidade, assumindo a identidade de uma pessoa covarde e insegura.

Pois bem. Era 01 de Outubro de 2009, por volta das 19h20. Encontro-me na estação do Flamengo para pegar o metrô, ao mesmo tempo em que luto mentalmente com umas das tarefas mais difíceis que já possui: a de ter outra identidade, a fim de realizar um grande feito. Não existe identidade sem um nome – Qual seria o meu?

Pensei e, para minha surpresa, não demorei muito a definir – já havia decidido enquanto avistava aos anéis do Maracanã. Deveria ser um nome e um sobrenome. Identifico-me com Emanuel. Além de ser o nome simpático aos ouvidos, li que se refere ao fato que Jesus é Deus e homem numa só pessoa – Nele, Deus simboliza sua ‘versão’ humana. Para o sobrenome, julguei que este deveria representar magnitude, não só pela vertente do espaço, mas também, pela temporal. O conteúdo de meus textos não poderia se restringir ao meu breve tempo de vida – Villanova! As inúmeras histórias simbolizadas no charme da arquitetura e, porque não, nas ruínas presentes no clássico e no charme das vilas do Rio de Janeiro. Tudo isto aliado ao novo. Aliado ao presente, ao pensamento contemporâneo e atitudes desta atual juventude, afetada pela esfera de sua convivência.

Chego e saio dos encontros da oficina com um enorme prazer. Embora acredite que as linhas de minhas crônicas não tenham respeitado integralmente a intenção do pseudônimo, sinto que, naquelas duas horas, mesmo estando escondido sob o contorno de uma máscara, me sinto bem, pois convivo com belas pessoas e, principalmente, posso ser EU MESMO. E é aí que entra a mitologia dos super-heróis.

Emanuel Villanova é algo maior. A mim, representa esperança! A mesma esperança que o super-herói me proporciona, fazendo-me acreditar que ainda existem resquícios de integridade e que, por essa razão, vale a pena lutar por uma vida melhor. De mão dadas com a vontade, a coragem e a liberdade, mesmo estas escondidas sob um alter ego, sob outra identidade, sob um pseudônimo.

Delano Aguiar (Emanuel Villanova)

Nota: Delano Aguiar é fã das histórias de heróis e, caso haja alguma publicação de sua recente e pequena história no universo das crônicas, não é contra a exposição de sua verdadeira identidade – mesmo esta sendo repetitivamente associada a uma marca de utensílios domésticos do qual, infelizmente, ele não é proprietário.

dezembro 1, 2009

Carta de Merrick aos seus colegas

Filed under: 2009.02 — literarea @ 5:43 pm

Queridos colegas de curso,

Merrick não é homem. Merrick é mulher.
Em uma brincadeira do curso Oficina da Crônica precisamos escolher um pseudônimo. Não tive dúvidas na hora, queria alguém saído dos livros de Anne Rice.
Minha paixão pela leitura aumentou quando era adolescente e um livro da Anne, O Vampiro Lestat, me caiu nas mãos. Foi um presente de meu pai, que sempre me incentivou a ler.
O universo que Anne cria envolve o leitor e desde então me apaixonei pelos seus livros. Merrick é uma homenagem a ela através de uma personagem forte, saída de um livro de mesmo nome que eu li pouco antes de entrar na Oficina.
Merrick, nome de origem francesa, é enigmática, misteriosa, e seu nome também. Apesar de Merrick não ser meu livro preferido, para a brincadeira vi que seria perfeito. Agora a curiosidade fica para saber se alguém acertou quem eu era. Pelo que andei vendo, errei todo mundo. Como sou péssima adivinhadora!
Mas voltando ao que interessa caros amigos, a paixão pela leitura acabou resultando em uma paixão ainda maior pela escrita. Comecei com poesias e depois passei para a ficção, ao escrever alguns romances, até decidir me aventurar nesta Oficina de Crônicas.
Para mim, escrever as crônicas pedidas sempre foi um enorme sacrifício. Não consigo desenvolver a criatividade quando tenho que escrever algo com tema pré-determinado. Toda segunda era um sofrimento para colocar no papel o meu “dever de casa”. Teve semanas que acabei escrevendo apenas na terça, quando a idéia já estava mais digerida. Semana passada, devido ao sumiço do jornal, enviei na quarta, mas entrou apenas na quinta de tarde e fiquei triste pelos cronistas deste curso não terem tido a chance de ler com antecedência.
Devo confessar que é com grande alívio que vou escrevendo esta última crônica (ops, acho que semana que vem tem outra!), e também preciso confessar outra coisa: esta foi a mais difícil de todas. Falar de tudo é mais fácil do que eu pensei, falar de mim é bem difícil!
Mas sinto que melhorei desde minha primeira crônica e isto é um grande progresso para mim. Nunca havia escrito uma crônica na vida, não sou de textos curtos. Sei que as minhas nunca eram as melhores, muito pelo contrário – e neste momento não estou sendo humilde, mas sim realista. Isto não me importa. O que importa é a convivência e o aprendizado que conquistei ao longo do curso.
E quero aproveitar esta chance para agradecer por essas semanas de convivência e diversão. Aprendi muito e melhorei bastante ao ler as crônicas dos grandes escritores presentes neste curso. Sim, grandes escritores. Que continuem neste caminho.
Só preciso avisar que irei abandoná-los em outra Oficina que possa acontecer. A crônica definitivamente não é minha praia. Sou uma pessoa de textos longos, de romances, e espero encontrá-los quem sabe um dia em uma noite de autógrafos do meu tão sonhado livro publicado. E também na dos meus queridos colegas, que devem continuar neste caminho maravilhoso da escrita. Um dia entrarei em uma grande livraria e mostrarei um livro a uma pessoa e falarei: “Eu conheço este/a escritor/a. Fiz uma Oficina com ele/ela”.

Um grande abraço e até quinta-feira
Graciela/Merrick

Lá em casa éramos quatro

Filed under: 2009.02 — literarea @ 2:28 pm

Somos feitos do mesmo que nossos sonhos
“We are such stuff as dreams are made on”
(A Tempestade Shakespeare)

Em casa éramos quatro filhos. Ou melhor, somos: duas meninas e dois meninos, com idades muito próximas. Uma verdadeira escadinha como se diz. Brincamos juntos a maior parte do tempo. Mas nem eu, nem minha irmã gostávamos de futebol. Os meninos faziam questão de contar cada lance dos jogos que assistiam ou das peladas que participavam. Parecia até implicância. Nós duas detestávamos!

-Rodrigo, você achou que eu estava impedido no lance do gol?

-De onde estava não deu para ter certeza, acho que não, mas o juiz tinha outro ângulo de visão.

-E aquele carrinho que o Nelsinho deu no Bira, foi até covardia você não achou? O moleque teve que ser substituído.

-Bonito mesmo foi o gol de placa do Pepe, ele é mesmo um craque!

Cansadas de ouvir resenha esportiva sem nem precisar ligar o rádio, eu e minha irmã resolvemos pregar uma peça nos meninos. Assistimos a um amistoso (acho que era Brasil e Bolívia) e anotamos cada lance do jogo. Os noventa minutos ficaram bem explicados, com comentários e observações dignas de um bom entendedor. Quando os meninos chegaram, eu e minha irmã comentamos o jogo do mesmo jeitinho que eles insistiam em fazer há tempos. Assim “as meninas” lá de casa passaram a entender um pouco mais de futebol E, compreender é também gostar. Não era muito difícil gostar de futebol naquela época. O Brasil era tricampeão, e, apesar da Seleção não contar mais com Pelé, e com outros nomes de ouro da campanha do tri, o time era de craques.

Gosto de palavras, gosto de nomes. Quando acho o nome de alguém sonoro, já simpatizo com a pessoa logo de cara! Os nomes do time da seleção brasileira na copa de 74 eram muito interessantes: Piazza, Rivelino, Marinho Chagas, Carpeggiani. Mas tinha um nome que eu adorava repetir, achava de uma ternura… Mirandinha. Apelido de Sebastião Miranda da Silva Filho. Conhecido por fazer muitos gols e perder outros tantos.

Não escolhi meu pseudônimo por causa do Mirandinha, lembrei-me dele agora que quero revelar o motivo do meu pseudônimo de cronista.

Enquanto escrevia lembrei de outro Miranda. Uma lembrança não! Uma vaga ideia.

Quando adolescente li um romance chamado “O cortiço” de Aluísio de Azevedo. Li todinho, mas não lembrava de nada, apenas que tinha alguém que se chamava Miranda. Procurei um resumo do livro para me certificar e lá estava o Miranda, um vizinho. Gosto de vizinhos. Quando ouço a palavra, imagino uma xícara de açúcar, um pedaço de bolo quentinho, um cheirinho de café passado na hora Será que foi por gostar de vizinhos que não me esqueci do Miranda?

Não consigo entender porque conseguimos recordar algumas coisas e outras não, coisas vividas na mesma hora e no mesmo local. De um romance inteiro, só lembrar de um nome!

Selective memory (memória seletiva) dizia um chefe americano que tive. Se bem que ele se referia a uma funcionária que só se lembrava o que a interessava. Não é assim com todos nós? Confesso que fiquei tentada a reler o livro e ver, o que minha memória será capaz de selecionar agora, passados 30 anos daquela primeira leitura.

Finalmente: escolhi Miranda por causa de uma mulher. Na verdade, quem a batizou foi um homem: Willian Shakespeare.

A primeira peça dele, que eu vi encenada, antes mesmo de Romeu e Julieta foi “A Tempestade” O ano era 1982, e o cenário não poderia ter sido mais bonito. A casa que Henrique Lage mandou construir no final do século 19 para sua amada, a cantora lírica, italiana, Gabriela Bezanzoni. E, que atualmente abriga a EAV (Escola de Artes Visuais do parque Lage). Situada aos pés do morro do Corcovado, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Em torno da piscina, no mesmo local onde a famosa Mezzo-Soprano dava as suas festas, a produção teve o bom gosto de realizar a peça. Sentávamos em banquinhos em torno da piscina. No início, em silêncio total, abria-se um toldo deixando a mostra o céu estrelado. Os atores surgiam de modo inesperado, Fernando descia do telhado agarrado a uma corda com apenas uma das mãos. Caliban, o escravo, pulava do telhado dentro da piscina. Fernando e Miranda faziam a cena de amor dentro da piscina.

Eu, que nesta época sonhava ser atriz, fiquei encantada com a peça, os atores, o cenário e com o nome Miranda.

Achei que cabia muito bem o sobrenome de industrial português, numa mulher:
Dr. Miranda está ao telefone. – A sra vai atender? Soa um tanto formal.
Já: – Miranda, ruborizada, ajeitou a saia. Soa bem mais simpático, e rima com abranda, ciranda, varanda e lavanda!
Não sonho mais ser atriz, mas ainda sonho bastante. E aprender a escrever crônicas é a realização de um de meus sonhos.

Miranda.
(amiga de: Severino Mandacaru, Roberta Bontempo, Noronha, Emanuel Vilanova,
Merrick, Lo Bianco, Aprendiz, Ícaro, os “mutantes” e aluna do Mestre Pena.

Memórias de uma ilha

Filed under: 2009.02 — literarea @ 2:23 pm

OK, João, você acertou, o meu nome é Fernando. Fernando de Noronha. Nasci de uma idéia de paraíso, há alguns anos, quando coordenava o Programa de AIDS em um município do Rio. Havia uma enorme interferência política em nosso trabalho, aliada a arraigadas práticas coronelistas, de modo que quando precisei criar uma senha de acesso ao sistema de monitoramento do programa não tive dúvidas: se aquilo era o inferno na terra, minha senha seria o contraponto. Fernando de Noronha, o meu paraíso. Quatro anos e muita decepção com a saúde pública depois, resolvi experimentar coisas novas. Mais do que um hobby, busco agora formas alternativas de expressão, numa deliciosa crise existencial de meia idade. Sempre tive paixão pela escrita, escrever era o caminho mais óbvio, mas faltava coragem para recomeçar. Na adolescência sanava minhas crises escrevendo, escrevendo, meus textos sempre receberam elogios, mas a literatura acabou se tornando um sonho distante. Estudei medicina, o tempo passou, escrevi dissertação, tese, artigos, depois uma monografia e zero de literatura. A única coisa que não mudou foi minha paixão pelos livros.
Cheguei à Estação das Letras, por indicação de uma amiga. Oficina de crônicas me pareceu um recomeço bem legal, gosto de textos curtos, rápidos, gosto do ritmo da crônica bem escrita, de sua parceria com o cotidiano. Primeira aula: turma o mais eclética possível, sei lá como vou me apresentar, o que esperam de mim, o que eu espero é que gostem dos meus textos. Segunda aula: leitura de nossa crônica número um para o grande público. Posso confessar uma coisa? Não prestei a menor atenção na leitura dos textos de vocês, a ansiedade não deixou. Quase tive um troço quando o João leu a minha!
Depois veio Harley, o texto mais difícil. Miranda, você acertou em cheio, claro que é um texto pessoal. Não sou leão, nem no signo, não moro em jaula, mas liberdade representa para mim o bem mais caro – retomei ao tema na crônica anterior, ao convocá-los para serem livres comigo. Quando acabei de escrever Harley precisei sair de casa, fui à Praça São Salvador para ouvir o chorinho de domingo ainda com o texto impregnado no meu corpo. Já os cupins, esses foram deliciosos. E verdadeiros. Vocês acreditam que o que relatei é somente parte do desmoronamento da minha casa? Pois é. Pifou também o computador, o telefone ficou sem linha e o meu celular se espatifou no chão. No final de semana que queimou a lâmpada da sala meu aquecedor também resolveu não ligar mais. Sorte que com esse calor infernal banho frio é uma boa pedida. Quando fiz a primeira cirurgia na boca estava totalmente incomunicável, sem internet, sem telefone e sem poder sair de casa. Uma espécie de Robson Crusoé em Laranjeiras. Aos poucos vou reconstruindo a casa, mas os pozinhos ainda estão por lá.
Entre o Harley e os cupins teve a crítica à crônica do teacher. Me diverti super escrevendo-a. Custei a “pegar” o texto, mas quando “baixou”, “baixou”de uma vez só. (Falando assim parece até espírito, mas é assim mesmo que escrevo. A demanda fica me rondando até que vem a primeira frase, que dá o tom de todo o resto. Aí me sento em frente ao computador e deixo a idéia fluir, sem me preocupar com a organização do texto. Depois reescrevo, reescrevo, até chegar ao ponto que quero).
Agora a turma: incrível o nosso convívio. Viramos mesmo personagens de nós mesmos, capitaneados pelo Felipão. Severino, eu sei que você anda meio apaixonado pela Roberta, mas acho que ela é casada, Severino, e parece ser bem certinha, não vai te dar mole não! E também não acho que tenha chances com a Miranda porque, apesar de ser mulher, também é casada e não tem cara de alcoviteira. Tudo bem que às vezes as aparências enganam, mas realmente não creio que esse seja o caso. E você Delano, é mesmo o Aprendiz? E a Graziella, é o(a) Merrick? De onde saiu este nome? E o Emanuel, se chama mesmo José? Quem foi você, Marcílio? E vocês, que ficaram pulando de pseudônimo em pseudônimo? Deram um trabalhão danado para os detetives de plantão! Não faço apologia à fidelidade, mas não dá para ficar mudando de personalidade como se muda de roupa, gente! Um pouco mais de constância! O João eu sei quem é, quando não cumpre o papel de orador trabalha como transformista. E é um grandissíssimo mentiroso, como teve a cara-de-pau de dizer que não lia as crônicas antes? Aquela fluência toda era o quê? Iluminação divina?
Fica aqui o meu desejo sincero que nosso grupo prossiga junto de alguma forma. O Marcílio não disse que tem um grupo de poesia há dois anos? Então, por que não o nosso grupo de crônicas? Por outro lado, têm outras alternativas, andei fuxicando na internet e descobri blogs de escritores em ascensão (eu ia dizer amadores, mas ascendentes fica mais promissor). Podemos também manter encontros ao vivo, o que para mim é muito mais legal, já deu para perceber que não sou fã de tecnologias, certo? Prefiro sempre o cara a cara. E de preferência com a companhia de umas tulipas de chope, o que eu espero que a gente faça nos próximos minutos.
Super beijo para todos e até breve!
Do seu,
Noronha

Como Cair do Cavalo ao Ter que Assinar Nome e Sobrenome

Filed under: 2009.02 — literarea @ 2:17 pm

Nem sempre a vida está de bom humor com a gente. Há períodos em que precisamos coçar-lhe o sovaco, as costelas ou a sola do pé mendigando-lhe uma risada. Outros a inventar-lhe piadas ou causos, a fim de amolecer-lhe o coração endurecido, para que nos oferte pelo menos um sorriso.
Pedras no caminho até podemos pular, mas se além disso viramos alvos delas fica difícil prosseguir, ainda assim nos desviamos trôpegos aos tombos e quedas. Teimamos e mais uma vez estamos de pé, com a energia que nos sobra e prontos para sacudir a poeira e dar a volta por cima. E então, a Vida, senhora pachorrenta, vingativa vem por trás e nos passa uma rasteira. Pronto, caímos estatelados no chão.

Game over!Pausa para recesso! Corta !Corta! Para que eu quero descer!

Descobrir-se enclausurada num quarto em que toda a sua comunicação com o mundo se reduzia ao laptop, mil e uma utilidades, onde você assiste de William Bonner e Fátima Bernades até quase toda a filmografia do livro Clube do Filme de David Gilmour, que seu filho pacientemente se encarregava de procurar para você em várias vídeo locadoras diferentes, acompanhada de maços e maços de cigarros e de uma cachorra que não arredava o pé do seu lado, exigiu medidas urgentes, sobretudo profiláticas.

Dizem por aí que o Homem deve viver em sociedade.

Por isso após alguns dias de tentativas de arredar a carcaça dali, o primeiro passo foi abrir a janela do quarto para o mundo, o ar estava precisando ser reciclado. Calma, antes que torçam o nariz ou façam cara de nojo, devo dizer que eu tomava banho todos os dias. Viu, Severino ?

O segundo passo foi religar o celular que saiu bipando ensandecido a procura de mim. Uma grata e inusitada descoberta da falta que eu fazia aos amigos, já que os parentes próximos estavam cientes da minha demarcação voluntária e respeitaram os limites do meu minifúndio.

Sair do apartamento deveria ser o terceiro passo, mas só de imaginar que não encontraria parceiros que estiveram ao meu lado nas últimas semanas, hesitei mais alguns dias. Marlon Brando, James Dean, Rock Hudson, Gene Kelly, James Stuart, Gracy Kelly e tantos outros já estavam mortos. Os franceses, de quem escutei diálogos existencialistas e deprimidos, que me davam o aval que precisava para continuar na minha clausura, alguns mortos e outros, obviamente, na França. Wiliam e Fátima sentados, como sempre, na bancada do Jornal Nacional.
Desistir e voltar aos DVDs e ao laptop era uma idéia tentadora e segura, mas tinha a cachorra !
Ah, a cachorra ! Tão companheira e solidária a aguardar o dia em que iríamos novamente nos jogar, mundanas que somos, ao convívio com os mortais . E assim, foi ela quem me tirou, aos trancos e barrancos, do meu labirinto interior que durou algumas semanas, e me devolveu ao sol.

Quando desci do elevador, passei pelo porteiro, abri o portão e encarei a rua foi que me dei conta, talvez ainda imbuída pelo espírito expectador de assistir tudo através de uma tela, que participava de um enredo bizarro, do qual eu era a protagonista.

Uma alma penada, um tanto quanto abatida que aos poucos ia se transformando numa mulher que sorria e cumprimentava o sapateiro da esquina, o vendedor da loja de sucos, o mecânico de bicicletas que faz ponto no beco sem saída, caminhando ao lado de uma cachorra alegre e saltitante numa agradável manhã de outono, e foi nesse pequeno trajeto que burlei mais uma vez dona Vida e ultrapassei meus obstáculos.

E a esse dia seguiram-se outros que marcaram o término do exílio a que me impus, o fim do pic-esconde solitário, a volta ao trabalho, o reencontro com os amigos. Um recomeço para mim, uma conquista para Roberta, a cachorra, que nunca desistiu de mim.

Agora que inventei isso tudo, faço uma confissão aos leitores, já tive vários pseudônimos. Muito antes da invenção do mestre já assinava textos como Eliza Paris, Laura Roma, Paula De Holanda e todos tinham um porquê de ali estarem como alcunha de mim, mas em outra ocasião revelo-lhes a inspiração. Por ora, já está bom saberem que Roberta Bontempo me pareceu interessante para a oficina, juntei o nome daquela que nunca desiste com a perspectiva de que meus dias estão indo bem. Que tosco! Banal demais !

Então, não conto mais, pra que me alongar com besteiras ? Deixo que pensem o que quiserem dessas minhas mentiras que podem ser verdades, ou dessas verdades que podem ser mentiras. Que importa ? Quando crio uma história estou tentando, de alguma forma, reescrever sobre a vida .

Claudia Vieira

Severino Mandacaru

Filed under: 2009.02 — literarea @ 2:13 pm

Eu canto eu faço verso
Eu canto até mi sguelá
Eu rimo no desafio
Acompanho no ganzá
Eu canto glosa e repente
E galope à beira mar…

Severino Mandacaru é uma contrafação de si mesmo. É uma vida em conflito. É um retirante às avessas.
Remando contra a corrente, Severino abandona São Paulo em busca de Toritama onde irá conhecer os frutos da caatinga: caveiras de gado calcinadas pelo sol, protegidas pelos espinhos do mandacaru.
Aos doze anos de idade, em São Paulo, Severino enfrenta, todas as manhãs, a garoa fria que lhe congela a alma. Desce do alto da Vila Maria e percorre, a pé, os três quilômetros que o separam do ponto final do bonde 34. Vila Maria!
Viaja sempre no estribo. O bonde dispara, corta a várzea com seus campos de futebol, atravessa a pequena ponte de madeira, sobe a Rua Catumbi, dobra na Celso Garcia, atravessa o Belenzinho e monta sobre a Avenida Rangel Pestana. Está na Praça da Sé. Severino se encaminha para o seu trabalho. Reduz os passos. Detêm-se, pensativo, observando os artesãos portugueses esculpindo nas pedras o que um dia será a catedral de São Paulo. Na vastidão da praça vazia, parece-lhe contemplar uma cena do Paraíso. Colunas, capitéis, volutas, troncos de anjo, formas mágicas, harmoniosas, construídas apenas com um martelo e uma talhadeira. Assombra-se. São todos Michelangelos, são enviados de Deus! Alguns são seus vizinhos no Alto da Vila Maria. Ajuda-os a construir suas casas pisando o barro que rejuntará os tijolos. Severino aprendeu a falar o português do Além Tejo, de Trás os Montes, da Cabidela. Divide com eles o caldo verde.
Encaminha-se para o escritório onde trabalha. Imprime no mimeógrafo as cartas que deverá entregar. Coloca-as, cuidadosamente, nos envelopes e parte para a jornada que o deixará com os pés em brasa. Nunca voltou uma carta sequer.

Já viajei por muitas terra
Já chupei muito cajá
Namorei loura e mulata
Branca preta e sarará
Mulhé nenhuma eu enjeito
Basta sabê me agradá

O pau de arara que transportou Severino na sua invertida retirada era um navio da Costeira. Parte de um comboio de oito navios cargueiros, quatro corvetas de guerra e sobrevoado por um dirigível, levou dezoito dias entre Santos e Recife. No porto, Severino não entende a língua que falam, mas tem sua atenção atraída pela balaustrada do cais: enormes blocos de mármore português, de um vermelho intenso entrecortado por veios lilases. Nota os sinais da erosão produzida pela brisa marinha através dos séculos.

Escola e trabalho foram moldando aquele sertanejo improvisado que não tinha, evidentemente, nem a energia nem a perseverança dos nativos, qualidades que viria a desenvolver com o tempo, à custa de muito esforço. Trabalho penoso nas fábricas, conflitos de cultura, o calor insano a causticar-lhe a pele, o pôr-do-sol no cais de Santa Rita, a lua cheia no Cais do Apolo, a poesia de Ascenço Ferreira, os frevos de Capiba, as peças de Ariano Suassuna, as palavras incentivadoras de Francisco Brennand, o chope no bar Savoy em companhia de Carlos Pena Filho foram consolidando um Severino empenhado em viver a vida como a vida lhe era oferecida.
Em Fazenda Nova, não distante de Caruaru, Severino conhece os escultores que moldam a cidade de Nova Jerusalém. Novo encantamento. Como os Michelangelos da Praça da Sé, matutos analfabetos, sem ajuda de qualquer instrumento que não seja o martelo e a talhadeira, extraem da rocha esferas com precisão milimétrica, estátuas de santos e de pecadores, madonas e bambinos, onças , macacos, araras, – e a imagem do Padre Cícero.

Severino viaja. Em Codó, no interior do Maranhão, apaixona-se pela trapezista de um circo mambembe que ancora na praça da Igreja. Contemplando seu corpo escultural, pensa: Trapezista? Deve ser aquela moça que desfila de maiô no começo e no fim do espetáculo. Rufar de tambores: ela aparece, toma o trapézio, é elevada a uma altura de quinze metros e dá um salto triplo – sem rede de proteção. Severino contrai os esfíncteres e desmaia.
Um jovem atirador de facas dispara seus dardos contornando a silhueta de uma bela mulher encostada a um biombo, com os braços abertos em forma de cruz. É sua mãe. Um palhaço acaba de levar uma martelada no dedo quando se prepara para entrar em cena. O pranto que simula na comédia que representa é autêntico.
O convívio com o circo ensinou a Severino como a vida pode ser bela. E cruel. Os deslocamentos por estradas lamacentas do interior, caminhões atolados, o sanfoneiro que tomou um porre e não apareceu, os cuidados do pai com a segurança da filha. Um mundo complexo que não encontrava nos manuais escolares.

Moço distinto se achegue
Meu canto é pra si iscutá
Mostre que tem coração
Ajude um pobre a cantá
Tire do bolso um trocado
E bote no meu borná

Em Teresina – PI Severino entra na fábrica rigorosamente às 5:30 da manhã. Sai às 8:00 da noite. Seu jantar é um litro de sorvete de bacuri. Dorme na rede molhada para suportar o calor no quarto do hotel que o abriga construído antes da invenção do ar condicionado. Nas manhãs de domingo frequenta a praia formada pela coroa de areia na margem do preguiçoso Rio Parnaíba. A praia denomina-se “ Praia da Croa”. Seguindo a tradição local, Severino funda o “Croa Crawl Crube”, no qual espera treinar as nadadoras de canelas finas com seus lamentavelmente pouco decotados maiôs.
O escasso lazer do domingo não esconde a amargura que o aflige. A penúria das condições de trabalho na indústria e na lavoura levam-no a reflexões insensatas. Um dia tudo há de mudar.

Fortaleza é um mundo diferente. Severino pratica halterofilismo nas areias da praia de Iracema, já comprometida pelo avanço do mar. Almoça lagosta no restaurante do François, não porque fosse fanático por esse prato mas porque não havia outra coisa. Nas noites de boemia, como o bom frade que leva o evangelho para as suas paroquianas, Severino recita poesias para as mariposas no meretrício da Rua Major Facundo. Em surdina, boleros de roedeira completam o quadro romântico.
O contaco com a miséria no bairro do Pirambu abala ainda mais as suas combalidas convicções políticas. Sente-se um covarde, um cúmplice, um acobertador. Não pode enclausurar-se. É preciso buscar.

Pernambuco, década de 60. As Ligas Camponesas incendeiam canaviais. Greves nas fábricas tumultuam o setor produtivo. Emboscadas matam gentes.
O golpe militar interrompe os estudos já tardios de Severino. O uivo das sirenes dos carros militares na caça às bruxas torna-se insuportável.
Severino emigra. Leva consigo pouca coisa: um pôr de sol do Rio São Francisco, o cheiro dos oitis nas manhãs úmidas da Boa Vista, o apito de uma fábrica, uma tapioca da dona Joana, o choro sufocado do menino Ambrósio, um disco de Volta Seca e uma garrafinha de licor de genipapo.
Deixa muitas saudades.

Si o que eu to vendo é verdade
Si num mi falha os olhá
Tanto dinheiro na cuia
Nunca mais hei de juntá
Moço distinto obrigado
Deus lhe há de arrecompensá

Faltando poucos meses para completar oitenta anos de idade, Severino está renascendo. E deve o seu retorno à vida aos colegas da Oficina e ao menino Felipe Pena, seu professor, competente e magnânimo.
À Roberta Bomtempo e ao Miranda, Severino deve tudo isso e muito mais. Porque, com seu carinho e seu apreço, despertaram nele emoções há muito esquecidas e o impregnaram de uma energia mágica: a energia que move o sol e todas as estrelas: a sensação de estar vivo.

Luigi Spreafico

Notas:
1- As expressões “retirante às avessas” e “remando contra a corrente” são versos de João Cabral de Melo Neto em “ Morte e Vida Severina”.
2- Os versos do cantador foram escritos há alguns anos e fazem parte de um conto chamado “A Centenária”
3- Toritama é a cidade do interior de Pernambuco para onde se dirige Severino de Maria quando encontra o corpo de Severino Lavrador, que morreu de morte matada. De “Morte e Vida Severina”
4- A frase “energia que move o sol e todas as estrelas” é uma adaptação dos versos de Dante, na Divina Comedia: “L’amor che tutto muove. L’amor che muove Il sole e le altre stelle”

Tema: Rubric. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.