Marcílio Freire
Os motivos para se escrever uma crônica sempre fizeram parte de nossas vidas, assim como os espetáculos do amanhecer, do entardecer e até da noite, que muitas vezes também ignoramos. Para se ler o cotidiano, universo da crônica, é preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Um tema da atualidade que está aí a nos motivar, é a Inclusão Social. Parece que a humanidade ficou mais sensível às necessidades dos excluídos. Pouco a pouco, esses quase párias galgam acesso à inserção, na maioria das vezes por força de lei, quer sejam os portadores de deficiências físicas ou neuropsicológicas, os de faixa etária dita da terceira idade, os de pele não clara, com quotas reservadas nas universidades, quer o seguimento feminino, para diminuir o peso do patriarcalismo e, até dos menos favorecidos economicamente, sem posses para adquirir um computador, agora assistidos com a inclusão digital.
Se até gay e lésbicas já se organizaram, a ponto de criarem uma nova tipificação penal, a homofobia, porque não também os demais excluídos?!
Essas correções ou justiça social, se fazem por movimentos de classes, organizados e com programas definidos, pautas de reivindicações e políticas próprias. Raramente surgem de forma espontânea e sem maiores pretensões. Mas já há alguns casos. Pinta no horizonte de forma natural, sem pressões ou exigências legais o MIL, movimento de inclusão literária, dos cronista, grupo nascido nas oficinas de crônica da Estação das Letras, sob a orientação do gatão de meia idade Felipe Pena.
A turma é deliciosa e a didática pra lá de motivadora, lúdica!
Confesso que não gostei da idéia de escrever anonimamente, se bem que considerei altamente positivo submeter meus trabalhos à crítica dos colegas. O resultado foi surpreendente.
Criou-se uma expectativa, um clima paralelo de suspense. Todos querendo saber quem era quem. Uma permanente animação, entusiasmo e curiosidade. E toma-lhe palpite! Jogar verde para colher maduro, simulações, dissimulações e trair-se pelas reações ou defesa diante de idéias expostas no anonimato.
A estrela ficou por conta, talvez, do Severino Mandacaru, que eu jurava que era o sério José Enfezado, com seu ar nordestino que, por pouco não compareceu de chapéu de couro e gibão. Mas José não era Severino.
Sabe quem era o Mandacaru? Aquele gringo, de olhos claros, mistura de italiano com alemão e de nome Luigi, uma criança de oitenta anos, duas vezes a idade do professor. Não descobri não! Contaram-me, depois ele confessou e não acreditei! Mas era! Daí por diante, desisti de tentar adivinhar.
Agora, a patota, João, Márcia e o famoso Luigi Mandacaru, arrasaram! Mas, quem é o Miranda? Quem é o Noronha? E a Roberta Bom Tempo? E Vila Nova, será ele ou ela? E a Cláudia Vieira? Cláudia, queria saber se eu enviara minha crônica para o blog, para, por eliminação descobrir meu pseudônimo. Caraca! Essas mulheres! E os outros, cujos nomes não guardei?
Ficamos todos parecendo ginasianos brincando de pique esconde. Rejuvenescemos.
Afirmam, alguns, com segurança, que o professor também entrou na brincadeira, apresentando trabalho sob pseudônimo. Tivemos até críticas às críticas. Foi realmente muito divertido.
Em princípio quem apareceu foram os homens, mas de fato quem dominou, de forma sutil, foram as mulheres.
O João, locutor oficial, que nunca lia os textos antes, só na hora, alí em sala, de primeira, foi um show à parte. Certa vez, envolveu-se tão fortemente com o texto que chorou de emoção, sendo de imediato confortado pelo psicanalista de plantão, que abraçou Joãozinho em nome de toda a turma.
João, é tão bom em mimetismo, fazendo-se passar por outros, que ora ele é da Amazônia, ora do Nordeste, do Sul, do centro Oeste, e até um Mineiro uai! Disfarça tão bem, que as vezes duvida que ele seja ele mesmo.
Os estilos não passaram despercebidos a ninguém e foram estudados pelo mestre que identificou os autores, sem revelar suas identidades.
Um dos momentos mais esperados do curso, era o da publicação pelo JB, das Crônicas do Felipe Pena. Os alunos eram os primeiros a chegarem pela manhã às bancas de jornal, adquiriam seu exemplar como quem conquista um troféu.
Alguns aprendizes de cronistas, queriam a receita de como se fazer crônica, com todos os ingredientes, inclusive os temperos, modo de misturar, tempo de cocção, como se fossem fazer um bolo, e até procuraram livros de receitas literárias. Outros, ficavam caladinhos,quietos, com raras manifestações, prestando uma atenção, como na piada da coruja, entre eles Delano e a Graciela.
As aulas começaram com a abordagem da Ilíada, mas o norte, a estrela guia na arte de navegar as águas literárias da crônica, mostrada pelo Mestre, foram os paradigmas aristotélicos.
Lemos em sala vinte e uma crônicas de uma coletânea de escritores célebres, fora as produzidas em aula; tivemos citações de cronistas modelares nacionais e estrangeiros; abordamos a técnica do estranhamento; descobrimos o olhar através da câmera subjetiva; fomos levados a fazer crítica social sem a idéia de convencer, enfim, trabalhamos a crônica, sob a orientação do Felipe, como fruição do prazer.
Pronto! Ninguém mais se perdeu. Internalizaram os conceitos. Traduziram o cotidiano. Acrescentou-se muito ao já sabido. Nada mais se lhes escapa. O aproveitamento foi total.
Mas, e eu? Quem sou eu? Ou melhor, quem fui eu nessa história, se faço parte da turma!?
Meus personagens só mudam o nome. Todos são eu mesmo, em minhas multiplicidades. POCEMTAG, com a Crônica Crítica, um trabalho sobre o texto O Casamento de Dilma e Michel, de um jovem de trinta e poucos anos; FOBUS, com os Bichos, que fala da opção por tartarugas, por terem vida longa, não incomodarem a mim nem a vizinhança; e o APRENDIZ, com Nova Moral, que falou até da hospitalização do velho professor. Afinal, somos e seremos sempre aprendizes.
Todos já sonham com Oficina de Crônica II, ou Avançada, pois já se consideram seguros e aptos para a inclusão no seleto grupo dos cronistas. Fazem parte de um blog , onde publicam seus textos. Já estão fazendo sucesso, tanto que um jornalista do O Globo ligou parabenizando a turma do Felipão pelo alto nível das crônicas.
O gostoso, marcante e extraordinário de todo o aprendizado, foi que usando o trampolim, bebendo nas fontes aristotélicas, sem medo, num vôo juvenil, saímos todos remoçados. Nosso cérebro agradeceu. Brincamos de clichês, de memória, de personagem famoso, com fatos históricos e até abusamos de outros idiomas, usando HEDLINE, e FAIT DIVERS.
Em tudo, em especial nas Crônicas, predominou o humor, marcando com a alegria o espírito de todo o grupo.
Esta Crônica poderia ser intitulada A INCLUSÃO, ou a OFICINA DE CRÔNICA ou OS CRONISTAS ou ainda OS ANÔNIMOS. Deixa como está, porque todo dia é dia de crônica.