Oficina da Crônica

fevereiro 8, 2010

Manifesto Sylvester

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 5:23 pm

Gostei dessa idéia de manifesto! Tudo a ver! Tá super “in”. Discordar é legal, é autêntico, é romântico, é tão jovem! Eu quero o mundo do meu jeito também! “Blerga” para esse mundo requintado! Eu vou, eu vou… Ai! Sei lá! Vou fazer a revolução! Amor livre! Paz mundial! Adoro a minha patota e odeio a dos outros, é isso! Tribos, é a divisão, me faz lembrar o terceiro ano do primário. Muito ruim, os fortes, os fracos, as meninas ali os meninos aqui… Que isso! Vamos juntar as mãos! Unificar sob uma mesma bandeira! Uhul! Sabe de uma coisa? Acho que todos deveriam ganhar prêmios! Eu adoro prêmios, aplausos, atenção! Olhos lambendo minha literatura! Me da tontura só de pensar! Ui! O problema é o capitalismo! Não… pêra aí. O problema é… o ser humano! Sim, sim! O ser humano… Nunca está satisfeito! Uma fase literária sempre se opõe a outra! Sim! Oposição! Eu sou contra! Paz pela guerra! Repúdio pela palavra! Ou não? Ih!
Sabe, eu queria que todos se amassem. E que o mundo fosse levado por um boto cor de rosa ou que tudo fosse destruído e começasse do zero. Mas, putz, não dá. E tipo, se existem as panelinhas, e velhotes que amam “self-bajulation”, let it be. Deixe eles trocarem presentes e tapinhas nas costas. Depois que o Sarney entrou na ABL eu chorei um pouco por Machado e entendi que aquela instituição faliu. Antes ser mortal do que ter um título de interesses. Enfim, Dane-se tudo. Eu quero ler e ser lido. Que quem me leia, goste e que eu goste de ler que estou lendo.
No final das contas tem muito escritor para pouco foco. É a mídia de massas fodendo com todos. A idéia do artista regional está morrendo. Se o artista conseguisse viver de seu meio, não teria a necessidade de ter provas contra seu anonimato como um prêmio ou um título.
No filme “John Rambo” escrito e dirigido por Sylvester Stallone, o quarto da série, aprendi um lição que sinto na obrigação de transmitir neste momento de manifestos e vontades de revoluções. “Você está levando armas? Não? Então você não vai mudar nada”
Preparar. Apontar. Fogo!

Joyce de Almeida Cunha

SIMPLES, MAS ENCARDIDO!

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 5:22 pm

Ele saía de casa sempre às cinco e meia em ponto. Descia a ladeira não muito íngreme que ia dar na rua principal e daí até a estação em Ricardo de Albuquerque. Evitava passar pela outra rua, pelo lado direito da subida da ladeira que era mais iluminada e tinha menos buracos, mas que o fazia andar mais e também porque passava em frente à delegacia de polícia, mal afamada naqueles anos por receber e hospedar em seus porões úmidos e mal iluminados alguns prisioneiros políticos. Tempos negros aqueles! O AI 5 tinha recém saído da forma naquele final de 68 e o ano de 69 estava indo para o mesmo caminho! E o povão “tomando” de novo, como sempre! Tinha de andar rápido para não perder o trem que vinha de Nova Iguaçu, cidade dormitório, assim como seu bairro e que ficava no final da linha.

Não tinha nem a grana da passagem! Entrava escondido por um buraco na cerca da estação e caía sobre os trilhos. Cuidado com o vigia, senão ele te põe pra fora e você perde o dia de trabalho, pensava ele toda vez que se deixava escorregar por aquele bendito buraco! Tinha o ouvido atento ao apito do trem! Se bobeasse virava presunto! Dez pras seis da manhã e o trem já vinha lotado! Saltava na estação de São Francisco Xavier uma hora depois. Essa hora de viagem se transformava na mais longa das horas! Vagões lotados, com gente pendurada nas portas e a rapaziada que não tinha medo, surfavam sobre eles. Jorge Bem, hoje Benjor, cantou essa façanha em o “… surfista de trem…”! E ali dentro do carro o coro comia! Adentrar ao recinto já era tarefa quase impossível de realizar! A posição em que se conseguisse parar e apoiasse os pés no chão era a mesma até o fim da viagem! Pareciam essas estátuas humanas que hoje enfeitam algumas praças e ruas movimentadas atrás de uns trocados a mais. Não dava pra mudar!

Segurar naquelas argolas ou “chupetas” como eram chamadas, para se equilibrar era esforço inútil, praticamente impossível, tamanha a quantidade de mãos ali penduradas! Os sentados aproveitam o balanço do trem pra tirar uma soneca até a estação Central. Tem gente que chega a roncar e de vez em quando sai bate boca quando o passageiro ao lado tomba o pescoço no ombro do vizinho! Quase sai porrada! Tem também aqueles bonzinhos que não dormem e vão segurando as bolsas da maioria que estão de pé. Bolsas quentinhas! Marmitas quentinhas! A moça fala alto com o homem que está atrás tentando se esfregar! A amiga ao lado lhe passa a “espanta peão”! Ah, essa agulha faz milagres nessas horas! É só uma espetadela e esse babaca dá o fora! Pilantra! Não tem mulher em casa não, ô estropício, grita a mulher já cansada de tanto balanço e pouco salário! E o que se ouve é o silêncio. Ninguém se manifesta!

Era proibido viajar com as portas abertas, mas com tanta gente ali dentro, tornava-se impossível tal façanha. Diz a física que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Tá; tá legal! Mas vá você lá e veja se pode ou não pode? Aquilo ali parecia mais a filial do inferno! Dante mudaria de opinião se tivesse tido a oportunidade de passear naqueles vagões indo trabalhar ou voltando dele.

Um sábado, aí pelas duas da tarde, fazia um calor de ferver os miolos e ele esperava o trem encostado ao poste do auto-falante da estação de Madureira. O ar estava pesado, o céu de um chumbo agourento carregava ainda mais a atmosfera da cidade que um dia fora maravilhosa.

A PE – Polícia do Exército fazia o policiamento nas plataformas. O trem de Campo Grande chegou bastante cheio e, quando foi saindo, um soldado viu lá no último carro, o bico de um sapato segurando a porta. De longe só se via a ponta do sapato do coitado! O soldado teve a pachorra de se ajoelhar e esperar com o cassetete armado e quando o sujeito passou ele deu uma porrada no dedão do coitado que chegou a lhe dar um frio na barriga! E o que se viu foi só a porta se fechando lentamente e o que se ouviu foram só risadas dos soldados! Ele também riu, riu muito, mas sem chamar atenção, senão a próxima poderia ser a dele para aprender a não rir da desgraça dos outros! – Tempos bicudos aqueles!

A volta pra casa era igual à ida para o trabalho! Nada mudou, nada muda nessa vida, reclamava com seus botões! Era sempre tudo igual: casa/trabalho, trabalho/casa, acordar de madrugada, trem lotado. Sentia-se um velho, apesar de sua pouca idade! No trem ele nunca tinha nada pra dar pra segurar. Só carregava seu fichário da escola! Ali dentro, à noitinha a conversa e o carteado rolam soltos, quando há espaço! Sueca é o jogo! Olha o amendoim quentinho! Um é dois, três é cinco! Quem vai? É o menino com sua lata cheia de brasa vendendo amendoim pra ajudar no sustento da casa. Logo depois passa o garoto quase rapaz vendendo seu infindável estoque de quebra queixo, jujuba, bala Juquinha, drops de anis, Mentex. – Quem vai querer, grita ao cruzar com outro ambulante que vem oferecendo pente “framengo” ao distinto público! Coisa de primeira! Quem vai?

E chega a estação, a sua estação. São oito e pouco da noite, o Jornal Nacional toca sua musiquinha sem graça em todas as casas do bairro, transformando em verdade aquilo que seus editores quisessem que fosse verdade. E ainda falta um bom trecho para andar a pé… Quando entra em casa o Jornal já está terminando! Toma um banho, janta alguma coisa e vai dormir, porque outro dia lhe espera!

Pedro Paulo Pereira

Não me manifesto

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:43 pm

Ansiosa, demorei um tempo enorme me arrumando. Troquei várias vezes de roupa, fiquei indecisa quanto ao tom do batom. Pus brinco de pérola, optei pelo estilo clássico. Tinha marcado a entrevista para as 10:00 hs. Abandonei a idéia de ir de carro, contei o dinheiro, daria para o táxi, não queria perder tempo estacionando.

Estabanada, tropecei logo na entrada da salinha tão conhecida minha. A placa era a mesma: Departamento de Comunicação. Deixei meu bloco de anotações cair no chão e, quando me abaixei para apanhá-lo dei de cara com aqueles pés. Eram dela. Não havia a menor dúvida!
Anita tem nos pés todas as marcas da vida. Veias aparentes, dedos longos, com unha pintada de vermelho-coral, saindo pela ponta da sandália, como se estivessem escorregando. O dedo mínimo com um calo trepa por cima do vizinho, tanto à direita quanto à esquerda. Tudo nela é bem marcado. É estilo. Personalidade ímpar e atemporal. A voz grave e firme se alterna entre o enérgico e o doce.

- O que fazes abaixada aí com esta barriga enorme? Então é você quem veio para entrevistar-me? Dê-me cá um beijo e um abraço. Logo minha ansiedade se dissolveu em uma sensação de bem estar, de sentir-me acolhida, de aconchego.

Era a primeira vez que eu ia entrevistar alguém conhecido e, sobretudo alguém com tanta cultura e bagagem.
- Sim sou eu! Fui escolhida quando o chefão soube que você havia sido minha professora.
- Que ótimo! Fiquei muito orgulhosa quando soube que era você. Imagine, repórter de um Caderno de Literatura tão importante, uma ex-aluna minha. Disse isso me conduzindo para a sala de reuniões.
- O que seus leitores querem de mim?
- O que me traz aqui é o Manifesto Silvestre. Você leu?
- Li.
- Então… Vim saber sua opinião!
– Na verdade ainda não tenho uma opinião. Não entendi direito.
- Se você não entendeu então…Seja mais clara. O que não você não entendeu? Ou, se bem conheço seu espírito crítico, não quis entender ou aceitar?
- Não entendi, não aceito. Pos-se à vontade, cruzou as pernas esticou a saia até o joelho e com o olhar longe começou a divagar…
- Já não entendi a primeira proposta. Entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. Quem acha isto, o escritor ou o leitor? O que vem a ser sedução pela palavra?
E continua…
“Uma história bem contada é o objetivo que perseguimos”.
- Quem persegue uma história bem contada? O escritor ou o leitor.Que leitor? Que escritor? O leitor é um só? E o escritor?
De repente, ela parou de olhar para o ar, me encarou com aqueles olhos verdes repletos de kajal e disse:
- Concordo quando dizem que: “escrever fácil é difícil”. Seguramente. Esta frase me fez lembrar a “Pomba da Paz” do mestre Picasso.
- Não entendo.
- Picasso ao desenhar a Pomba da Paz, queria que o desenho se aproximasse o máximo possível do traço ingênuo de uma criança. Na forma ele até que conseguiu, mas o traço vem carregado de toda vivência, traumas, dissabores, amores, dores. É o traço de um homem maduro.
E, ainda me encarando.
- O escritor dificilmente consegue se despir de todo seu conhecimento e de suas vivências quando escreve. O texto mesmo que sem intenção traz uma série de referências e marcas que ao leitor pode parecer erudição. Pode deixar o leitor sem o entendimento total do texto. Mas não acho que isto seja problema. Acho mesmo que o leitor pode ser seduzido pelo que não entende. E também acho que não é preciso entender tudo o que está escrito. Eu não entendi prateleiras inteiras da minha biblioteca e isto não mudou em nada o meu amor pela Literatura.
- Mais uma vez quando leio: “gostamos de enredos ágeis e cativantes”, me pergunto: Quem decide se o enredo é ágil? Quem escreve ou quem lê. Todos concordam? Há unanimidade neste ou naquele enredo?
Ela mesma conduzia a entrevista. Não interrompi, deixei que divagasse. Precisava de diferentes opiniões sobre o Manifesto para compor minha matéria. A primeira que teria meu nome assinado:
Charllote M.

Charllote M.

MANIFESTO DA ESPERANÇA

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:40 pm

Mudanças à vista. Nem tudo está perdido. Pode ser que demore um pouco, mas que está pintando está.
O desmoronamento moral do Congresso Nacional, onde sobraram poucos pilares da honra, pois que, minado, sabotado há gerações, idem, na Câmara Distrital de Brasília e em todas as casas legislativas da federação, não sei se sobra alguma coisa, nem mesmo nos outros poderes; as enchentes diluvianas no estado de São Paulo; o terremoto no Haiti e os desastres na literatura brasileira, em que a moda é também corromper e destruir, tem-se a impressão que o mundo está acabando.
Li no blog do professor Felipe Pena o Manifesto assinado pelo Grupo Silvestre. É uma verdadeira convocação para embarcar na Arca de Noé da literatura. Não se trata, como esclarece o texto, de purismos ou de enquadrar-se em ditames conservadores, estanques, rígidos, inflexíveis, nos moldes dos velhos conceitos literários. Não é a busca de uma escrita castiça. É nadar contra corrente, é fugir do redemoinho que leva tudo para o ralo da deterioração.
Na imprensa escrita os editoriais, as reportagens e os jornalistas ditam normas de escrever ao usarem letras minúscula onde antes eram maiúsculas. Distorcem os termos usados na medicina, no direito, ou outra área qualquer, fazendo-o por ignorância e preguiça de procurarem o sentido correto das palavras. Os jornalões editam Manuais de Redação eivados de erros e todos os seguem. Daí constata-se que atualmente não é mais o povo que, em última instância, faz a língua, na conhecida dinâmica das transformações, mas sim a imprensa e os escritores modernosos, que, para não contrariarem a corrupção da escrita passam a cometer textos sem parágrafos, sem pontuação entre as orações, sem sentido, só para estarem em evidência, contaminados pela linguagem da informática, em que o cedilha e os acentos foram defenestrados e contrações ou abreviações como vc e tb dão o conceito de modernismo.
Se você não gosta ou não concorda com esse novo pseudoestilo literário, então você é alienado, jurássico, está por fora. Se você tem que ler várias vezes o mesmo parágrafo ou capítulo, para entender o que foi escrito para não ser entendido, então você não entende de literatura. E aí está o grande passo para novas gerações, bem como a atual, não desejarem ler nem adquirirem o gosto pela leitura e preferirem os BBB da cultura dos nossos dias.
O foco literário não é mais o que se escreve, mas quem escreve. Importante não é o que foi escrito, mas quem escreveu. Todos os louros, incensos e purpurinas para o autor. É dele que se fala, se escreve, em especial nas colunas sociais. Não sobre a produção literária. Manda o ego.
O Manifesto enumera as suas razões e objetivos conclamando a escapar do dilúvio, os que assim o desejarem, talvez na tentativa de salvar a verdadeiramente última flor de Lácio. Respeitando os que pensam de forma diferente, na esperança de que um dia despertem, o Manifesto procura resgatar a narrativa como base da literatura, e a literatura como sedução da palavra, para que num futuro bem próximo, ainda tenhamos prazer em ler.
O resgate proposto pelo Manifesto não se identifica com saudosismo, pois que aberto está às evoluções do pensamento e estilos. Afronta sim, a mera vaidade, o desfile de egos inflados, que põem em segundo plano a arte literária. Mas que o fecho, o encerramento do Manifesto, por sua solenidade, por seu formalismo ainda que com ânimo de descontrair, me fez reportar aos tempos de antanho, isto fez!
Quando li “ Aos dois dias do mês de fevereiro, do ano de dois mil e dez”, quase entendi assim: Aos dois dias do mês de fevereiro, do ano de dois mil e dez, do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, perante mim Tabeliã de Ofício, Marcela Ávila, presentes as testemunhas signatárias, na Livraria da Travessa do Leblom, nesta Mui Leal, Heróica e Digna Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, blá, blá, blá…
Ah, foi só brincadeira a forma de encerramento do Manifesto! Mas a proposta é pra valer. É um grito de alerta.
Salvem a Literatura Brasileira, se querem salvar o país!

Esperança

Dever de Casa

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:38 pm

Tenho um dever de casa, com prazo: segunda-feira, 19h. Tudo bem, hoje ainda é domingo, meio-dia. Se eu não tivesse saído ontem, farra, Lapa, dormi tarde e sozinho. Hoje é um dia de sol, e eu tendo que escrever um texto, máximo de 4500 caracteres com espaços, disse o Mestre, sobre um tal manifesto que está na internet.

Faço um café, leio o manifesto, de um Grupo Silvestre (bem que podia ser Grupo Praiano, rio comigo mesmo e queimo a língua com o café quente) e é “em defesa da narrativa, do entretenimento e da popularização da literatura”. O caderno de esportes fala do jogo de hoje, um clássico, e eu aqui, sem mulher, com dever de casa e a praia que deve estar cheia de gatinhas.

Ideia brilhante, levo o netbook para a praia, o governo fala em wireless na orla toda, leio o manifesto, faço o texto e ainda tiro uma onda de bill gates com as gatas.

Um lugar na sombra do quiosque. O manifesto logo no item 1 diz que “entretenimento é sedução pela palavra“. Sedução é esta morena que parou do meu lado, fazendo alongamento. Leio o manifesto, sedução, sorrio, leio, ela finalmente olha para mim, sorri e começa a correr… se não fosse o netbook e a farra de ontem eu ia correndo atrás dela, ao lado dela, até o final do Leblon, até…

Volto ao manifesto. “Acessível a uma parcela maior da população“. “Experimentalismos vazios não nos interessam“. “Formação de leitores assíduos“.

“Oi, tudo bem, você vem sempre aqui neste quiosque?”, aproveito a ideia que o manifesto me deu e começo a conversa com uma menina que sentou do meu lado. Ela sorri e responde: “Venho sim, meu noivo joga volei naquela rede”, aponta para o noivo que parece um pit-bull, malhado daquele jeito deve ser gay ou débil-mental, eu penso mas digo apenas “legal, boa praia para você e seu noivo“, volto ao manifesto.

“Uma elite que dita regras, cria rótulos e se autoenaltece em resenhas mútuas, eventos e panelas”. Um chopp. Uma ideia para o texto, esta questão da elite, luta de classes, sempre pega bem citar Marx (“proletários do mundo das letras, uni-vos”), vou batucando no teclado e tomando o chopp que é ótimo para o calor e para as idéias, cito até o Deleuze, que o Mestre tem cara de quem gosta do Deleuze…

Delícia sim é esta gringa que para no quiosque como perdida. Ofereço um chopp e descubro que é uma argentina meio hippie que está procurando lugar para ficar, barato ou de graça, na Zona Sul em pleno verão. Desconverso, já me dei mal com hóspedes, indico o Chez Lagarto, logo ali, por via das dúvidas deixo meu telefone para ela me ligar mais tarde, conhecer a Lapa comigo. E volto, bem animado, ao texto.

“O autor pode e deve se esforçar pela disseminação de sua obra”. “Enredos ágeis e cativantes”. Outro chopp, bem rápido, e lá vou eu, ágil e cativante no teclado, devo estar com uns 1500 caracteres, não tem mínimo de caracteres mas se o máximo é 4500 é bom chegar a pelo menos uns 4000. São os tais processos de produção que o manifesto diz que pelos quais devo me interessar, além do marketing e distribuição. O título da obra deve chamar a atenção do leitor e despertar a vontade de chegar até o livro. Posso chamar o texto de “Manifesto sob o sol”, será que chamará a atenção do Mestre? Outro chopp.

Volta a morena corredora, cansada, suada, ofereço um chopp e ela me olha com nojo, eu deveria ter oferecido um gatorade, agora já era, a gata foi e eu continuo no manifesto e no texto.

“O desejo soberano de ser lido”. Isso é bonito, parece música do Cartola, posso citar o samba como o exemplo do conflito entre criação e diluição, entre arte e indústria, me empolgo e mais uns 800 caracteres, acho que esta parte do texto ficou meio sem pé nem cabeça, nada que uma revisão não resolva, o importante é que estou concluindo meu dever de casa e ainda por cima me divertindo neste domingo de praia, só tenho que pensar em um Plano B caso a argentina não ligue para irmos à Lapa.

“Maniqueísmo que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.” Respiro fundo, peço outro chopp, ao longe ouço fogos, deve ser o jogo começando, mas o chopp não vem, o rapaz do quiosque sumiu, olho para a praia e todos estão correndo em minha direção, demoro a perceber no barulho da multidão a palavra “arrastão!”.

Agarro o netbook e corro também, cadê o netbook? procuro, já era, pegaram na confusão, e eu nem terminei de pagar nem tirei back-up e o pior é o texto que estava tão bom e se foi.

Bom, pelo menos bebi chopp de graça a tarde inteira. E pode ser que a hippie ligue.

Holden

A VOZ DOS EXCLUÍDOS

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:37 pm

Falta-me “formação acadêmica” para comentar o Manifesto Silvestre.
Mas é justamente o Manifesto que me incentiva a fazê-lo.
“ Os academicismos, jogos de linguagem e experimentalismos vazios não nos interessam” diz o Manifesto no seu Item 4.
Nos três primeiros Itens o documento coloca nos seus devidos lugares a literatura, a linguagem e a ficção mostrando, num primor de síntese, que é através da sedução pela palavra, de uma história bem contada e da escrita fácil que se levará ao leitor a verdadeira literatura. Nada mais objetivo. Em poucas palavras, um mundo de conceitos.
No Item 6 : “A literatura não pode se limitar a uma elite que dita regras, cria rótulos e se auto enaltece em resenhas mútuas, eventos e panelas”, o Manifesto escancara o comportamento de uma elite, magistralmente registrado por Millor Fernandes num comunicado – que ele chamou de Documento – expedido na ocasião em que ele foi agraciado com o título de “Melhor do Ano” pela sua peça Um Elefante no Caos. Vale a pena transcrevê-lo:
“Esta peça foi premiada como a “Melhor do Ano (1960)” pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais, prêmio e Associação esses que, como tantos semelhantes, não significam coisa alguma. O autor foi também considerado o Melhor do Ano (1960) pela Comissão Municipal de Teatro e recebeu, por esse feito extraordinário, o prêmio de Cr$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros) das mãos do Governador do Estado da Guanabara, numa cerimônia inesquecível, por anacrônica e humilhante. Cinquenta mil cruzeiros, esclarecemos, era mais ou menos o equivalente ao aluguel de um mês de um bom apartamento, naquela época. Fica o fato registrado para que o leitor do futuro possa aquilatar o valor que as mais altas autoridades do País atribuíam, em 1960, aos seus Sófocles, Aristófanes, e Ésquilos”.

Não sei como funciona a cadeia de distribuição física de um livro. O Manifesto recomenda que “o autor pode e deve se esforçar pela disseminação de sua obra…”. Diante dessa necessidade sou levado a crer que o que acontece no mundo literário é o mesmo que acontece entre os pequenos produtores agrícolas: são obrigados a escoar sua produção através de intermediários, a preço vil, por não disporem de meios para chegar ao consumidor final.
No que se refere à crítica, o Manifesto é contundente quando destaca que uma parcela da crítica acadêmica dividiu a diversidade da prosa nacional em pólos antagônicos. E aqui sou obrigado, mais uma vez, a lançar mão da citação para buscar apoio às minhas considerações.Vejamos o que diz Machado de Assis em seu artigo “O Ideal dos Críticos”.
“O crítico deve ser independente – independente em tudo e de tudo – independente da vaidade dos autores e da vaidade própria” … … “Para que a crítica seja mestra, é preciso que seja imparcial – armada contra a insuficiência dos seus amigos, solícita pelo mérito dos seus adversários”

O Manifesto Silvestre será um grande incentivo para os jovens escritores. Mas, cuidado, jovens escritores. Leiam com atenção o Item 3: “ A ficção brasileira precisa ser accessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas.

Valverde Canabrava

Dona Noca

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:34 pm

A sogra da minha tia quer se casar. Até aí nenhum problema, nenhum mesmo, nem pelo fato de ser quase centenária. Amor não tem idade. A não ser o noivo. Desde que enviuvou, e lá se vão muitos anos, Nico tem sido o companheiro fiel de Dona Noca, mais até que o falecido, que Deus o tenha. Nico é perfeito, em todos os sentidos. Sabe criatura sem defeitos? Pois assim é o Nico, seu gatinho malhado. A sogra da minha tia quer se casar com Nico, seu gato de estimação.
Nico dorme sempre ao lado de Dona Noca, a qualquer hora do dia e da noite, nunca reclama das refeições e se contenta com a mesma ração diária. Nico não mija fora do lugar, não bebe nada além de água, não exige roupas bem passadas, não gosta de carnaval nem de futebol. Quem poderia desejar um marido melhor? Vá lá que de vez em quando caça uns passarinhos, e até já obrigou Dona Noca a brigar com o vizinho do lado, gente implicante, porque derrubou a gaiola do canário. Mas foi acidente, claro está que ele não fez por mal. Então, companheiro perfeito, é com ele que Dona Noca quer se casar. Por que complicar a vida? Mas tem gente que complica.
Para início de conversa, vieram explicar a Dona Noca que pessoas não se casam com gatos porque, digamos assim, seria impossível terem relações satisfatórias. Como se a idade houvesse deixado Dona Noca maluca, que nunca lhe passou pela cabeça fazer sexo com o Nico, valha-me Deus! E, pelo modo como trataram o assunto, devem ter se esquecido que ela teve sete filhos em casa, só faltou explicarem que cegonhas não trazem bebes meio humanos, meio bichanos. Então Dona Noca foi obrigada a dizer que sexo não lhe passa pela cabeça há muito tempo, mas caso acontecesse não havia nenhum perigo porque a menopausa lhe chegara há mais de quarenta anos.
Dona Noca já dava a situação por encerrada quando veio a tropa de choque. Como os argumentos sexuais não funcionassem, em um belo domingo invadiram sua casa filhos, filhas, netos e netas, todos com o firme propósito de mostrar-lhe o absurdo da situação. E o argumento era um só, via-se logo que tinham tudo planejado: no Brasil a lei não permite que senhoras se casem com gatos. Não conhece a lei, Dona Noca? Não, Dona Noca não conhece. Conhece tudo de doces, doceira de mão cheia que é, fazendo doces criou os filhos, mas a tal lei ela não conhece, e se algum dia soube de regras absurdas felizmente as esqueceu. A vida é simples, muito simples, as pessoas é que complicam: ela ama o seu gato, Nico, que é louco por ela, e pronto. Será preciso chegar-se aos cem anos para aprender isso?
Sem saber mais como demover Dona Noca do propósito de casamento, a família resolveu contratar alguém da área para explicar-lhe um pouco sobre as leis. E pode-se imaginar como foi o empreendimento, Dona Noca tendo aulas particulares com um jovem aluno de Direito- naturalmente restritas a breves explicações, mas nem por isto menos herméticas e chatas. Após semanas de heróicos esforços, de todos os lados, jogaram a toalha Dona Noca, a família e o professor.
Matriarca da família, no auge da impaciência, Dona Noca achou por bem tomar as rédeas da situação e acabar de vez com a conversa fiada. E foi ao cartório, falar pessoalmente com o senhor juiz. É lógico que ela sabia que seria impossível Nico assinar qualquer coisa, ou falar se concordava ou não com o casamento, mas bastava que perguntasse a quem quer que fosse para ter certeza do amor do Nico por Dona Noca. O senhor juiz, se quisesse, estava convidado a tomar um cafezinho em casa e ver com os próprios olhos. Muito respeitosamente, o senhor juiz explicou a Dona Noca que o matrimonio seria impossível.
Triste toda vida, Dona Noca voltou à casa e sentou-se na varanda, pensativa. Vieram os filhos, netos, bisnetos, todos para animar Dona Noca que, sem apetite, recusava-se a comer. E aí Pedrinho, o caçula da família, aninhou-se no colo da bisa e lhe perguntou por que queria tanto se casar com o Nico. E Dona Noca lhe explicou que tinha muito medo de morrer e deixar o Nico na rua, seu gatinho de estimação, que ela tanto amava. Quer dizer que se eu prometer levar o Nico para a minha casa a senhora desiste de se casar com ele? Desisto, você leva?

Salomé

O craque

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:32 pm

- Mãe? – perguntou a filha ao fechar o livro.
- Que foi?
- Você leu esse livro, não leu? – indagou ao mostrar a capa para a mãe que estava concentrada diante do computador.
- Claro! Esse autor é um craque! – respondeu, sem dar muita atenção.
- Ah é? Então você gostou do livro?
- Esse livro é um clássico, minha filha! Ganhou prêmio e tudo!
- Sei… Mas é chato, né? – indagou a menina, um pouco mais baixo.
- Chato?! – Levantou o olhar, chocada. – Quê isso menina? Não percebeu a beleza da construção das frases? Da riqueza de linguagem? Isso daí é o melhor português da atualidade! Quer ver só? – desafiou ao pegar o livro da mão da garota. – Aqui, olha a poesia desse parágrafo!
A garota leu o trecho indicado pela mãe, murchou e comentou encabulada:
- É… É bonito. Mas eu não entendi.
- Não entendeu o quê?
- Não entendi o que quer dizer, ué.
- Mas não tem que entender, filha. Esse cara é um gênio. Não dá pra compreender tudo que ele escreve. Acho que nem o pessoal que deu o prêmio a ele entendeu direito.
- Então você também não entendeu o livro quando leu?
- Ah… Eu entendi, mas eu fiz Letras e estou acostumada a ler esse tipo de literatura.
- Então me explica? – suplicou a menina, mais aliviada.
- O que você quer que eu explique?
-Bom, esse cara aqui é o personagem principal, certo?
- A personagem…
- Esse cara é uma mulher?! Então não entendi nada mesmo!
- Não, bobinha. O substantivo “personagem” é que é feminino.
- Ah… Enfim, esse cara é o principal e o pai dele morre. Até aí tudo bem. Só que isso acontece no primeiro capítulo e depois não acontece mais nada? Achei que fosse ter uma reviravolta, uma surpresa, um final maneiro… Alguma coisa. Mas acabou o livro e não aconteceu nada.
- Mas isso é proposital, querida. Não é pra acontecer nada mesmo. Não tem que ter história.
- Como não?! Pra quê que eu vou ler um livro sem história?
- Para refletir sobre o tema proposto. Nesse caso aí, é sobre a morte e a solidão.
- Ah mãe, se eu quisesse ficar pensando sobre a morte, ia ler um livro de filosofia ou teologia, sei lá! Mas um romance tem que ter história, não? Não faz parte da definição do que é um romance?
- Não é “ficar pensando sobre a morte”. É uma forma mais elegante, refinada e poética de pensar sobre um tema universal. Uma forma de explorar os limites da linguagem e da percepção e de transpor as regras que regem a nossa língua e, por conseqüência, a nossa mente. E esse autor faz isso maravilhosamente bem! – respondeu, já perceptivelmente irritada.
- Esse autor é um mala! E eu nunca mais quero ler nada dele! E eu posso até ser burra e não entender de literatura moderna, mas eu só queria algo que fizesse sentido! Era uma vez! Viveram felizes para sempre! É pedir muito? – gritou a menina, já aos prantos.
- Não seja tão limitada, garota! Vai ficar lendo história de criança o resto da vida? Seja mais exigente. Virar a página só pra saber o que vai acontecer depois não tem a menor graça.
- Tá. Mas pelo menos eu tenho que querer virar a página, não? Senão, do que adianta? Nem compro o livro. Ou então compro e deixo ele lá na estante, só pra falar que tenho e impressionar meus amigos.
- O que você está querendo dizer, mocinha?
- Estou dizendo que é impossível você ter gostado de um livro que não entendeu. E ainda por cima fica posando de sabichona…
- Olha aqui, você me respeita, viu? E saiba que eu tive que estudar muito para chegar aos pés desse cara que você tá chamando de mala.
- Ai mãe, nada a ver! Os teus contos são muito melhores que esse treco aqui. Nos teus contos, tem personagens, trama, sentimento. E você também escreve frases lindas, quer ver só? – respondeu a menina, se aproximando do computador. – Aqui, olha a poesia desse parágrafo.
- É. Até que esse aí ficou legal mesmo. – constatou sorrindo.
- E sabe qual é a melhor parte? – perguntou abraçando a mãe.
- Qual?
- Eu entendi.

João Cândido

EM BUSCA DA HISTÓRIA PERDIDA

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:30 pm

Perdi a memória. Desde que saí do coma, ouço minha mãe (a mulher que estava sempre lá e que me apresentaram como tal) discutindo com os médicos, que dão explicações complicadíssimas, ininteligíveis, sobre as probabilidades de eu vir a recobrar a dita cuja. Em casa, a Mãe tentou me fazer lembrar coisas. Registrei algumas informações (nome, idade, profissão, situação financeira, estado civil) mas pedi-lhe encarecidamente que não me dissesse mais, que esperasse eu lembrar. Afinal, perdi a memória mas não o bom senso: não vou adotar assim de graça a sua versão da minha vida, prefiro ir montando a coisa aos poucos.
Meu único outro pedido foi que não contasse a ninguém do meu estado: não quero que me atribuam atitudes ou palavras que não tenho como checar se são verdadeiras . Também levei um tempo sem participar de eventos sociais: receio encontrar pessoas que detectem meu vazio total. Ontem, no entanto, resolvi ir ao aniversário do que a Mãe diz ser meu Melhor Amigo; em parte porque já rechaçara duas vezes suas tentativas de folhear comigo um álbum de fotos da infância e adolescência, e ela já estava com um ar de “depois-de-tudo-que-fiz-é-assim-que-você-me-trata?”; em parte porque as pessoas podiam desconfiar de tanto sumiço.
Entrei no clube. Passei pelo salão às escuras onde as pessoas se balançavam convulsivamente sob a batuta de um dj enlouquecido e me dirigi às mesas do terraço. Numa delas vários braços me acenaram; eram os meus Melhores Amigos, ou pelo menos os que eu podia reconhecer porque me visitaram no hospital.
Garçons passavam com salgadinhos, bebidas. Me ofereceram uma cerveja. Declinei, pedi um copo d’água, lembrei das recomendações dos médicos, expliquei: “Ainda não estou podendo…”
Os Melhores Amigos riram muito: “Demais, cara! Ainda não está podendo! Até parece que algum dia bebeu! É aquela sua idéia de resgatar o gerúndio para acentuar a transitoriedade, né?” Não entendi nada. Um perguntou: “Como é mesmo que você dizia, transitoriedade ou impermanência?” Olhei para a rua. Ainda muito movimento de carros. Disse, distraidamente: “Trânsito!” Acharam maravilhoso. “Genial, cara, trânsito, nem transitoriedade nem impermanência!” O papo ia assim escorrendo sem eira nem beira nem peneira, mas pelo menos ninguém parecia notar nada da minha amnésia. Perguntaram: “E o livro novo, já resolveu o título?” Olhei de novo lá fora, vi um gato, balbuciei: “Gato na Calçada”. Julgaram o título fantástico, muito apropriado e sugestivo. (A Mãe já me mostrara o tal livro, mas era muito parecido com essa conversa; não entendi nada, parei na terceira página, um tédio!) No geral, não posso dizer que não tenha sido uma reunião agradável, apenas não sei sobre o que falamos a noite toda. Todos achavam tudo o que cada um dizia maravilhoso, fantástico, genial.
Ao final da festa, já ia pedindo ao porteiro para chamar um táxi quando um Melhor Amigo apontou: “Olha lá, é a Lê! Acho que você não conhece, mas ela mora na sua rua, pode te levar.” Chamou-a. Não sei bem se foi o jeito que ela se virou, uma mão na porta, a outra levantada ajeitando os cabelos, ou o olhar que ela me mandou por cima do ombro, que me atingiu em cheio. Só sei que nunca senti aquilo. Duvido que se tivesse sentido esquecesse… Entrei no carro como se de volta ao coma, mas com uma leve dor de barriga: medo de que ela começasse a fazer perguntas que eu não saberia responder. Ainda bem que o percurso não era tão longo, ela se ateve ao básico, que eu já conhecia (nome, idade, estado civil, profissão, etc.). Na despedida, o convite : “Vamos pegar uma praia amanhã?”
Entrei em casa excitadíssimo, fui direto para o computador (essa habilidade não perdi, como a de falar, ler e escrever). Tinha que me preparar para a praia. Listei as perguntas que gostaria de fazer a ela, e que ela provavelmente vai querer me fazer. Catei respostas no google: lembranças de infância, aniversários, escolas, namoros, viagens, livros, restaurantes, músicas. Quando amanheceu já tinha construído toda uma vida para substituir a que me escapara da mente. Com direito a notas rabiscadas em pequenas tiras de papel para “colar”, se necessário. Tenho de novo uma história. Para seduzir a Lê. Espero que funcione, ao menos pelo tempo que durar a paixão…

Jean-Paul da Silva

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