Oficina da Crônica

fevereiro 8, 2010

Dever de Casa

Filed under: 2010.01 workshop — literarea @ 2:38 pm

Tenho um dever de casa, com prazo: segunda-feira, 19h. Tudo bem, hoje ainda é domingo, meio-dia. Se eu não tivesse saído ontem, farra, Lapa, dormi tarde e sozinho. Hoje é um dia de sol, e eu tendo que escrever um texto, máximo de 4500 caracteres com espaços, disse o Mestre, sobre um tal manifesto que está na internet.

Faço um café, leio o manifesto, de um Grupo Silvestre (bem que podia ser Grupo Praiano, rio comigo mesmo e queimo a língua com o café quente) e é “em defesa da narrativa, do entretenimento e da popularização da literatura”. O caderno de esportes fala do jogo de hoje, um clássico, e eu aqui, sem mulher, com dever de casa e a praia que deve estar cheia de gatinhas.

Ideia brilhante, levo o netbook para a praia, o governo fala em wireless na orla toda, leio o manifesto, faço o texto e ainda tiro uma onda de bill gates com as gatas.

Um lugar na sombra do quiosque. O manifesto logo no item 1 diz que “entretenimento é sedução pela palavra“. Sedução é esta morena que parou do meu lado, fazendo alongamento. Leio o manifesto, sedução, sorrio, leio, ela finalmente olha para mim, sorri e começa a correr… se não fosse o netbook e a farra de ontem eu ia correndo atrás dela, ao lado dela, até o final do Leblon, até…

Volto ao manifesto. “Acessível a uma parcela maior da população“. “Experimentalismos vazios não nos interessam“. “Formação de leitores assíduos“.

“Oi, tudo bem, você vem sempre aqui neste quiosque?”, aproveito a ideia que o manifesto me deu e começo a conversa com uma menina que sentou do meu lado. Ela sorri e responde: “Venho sim, meu noivo joga volei naquela rede”, aponta para o noivo que parece um pit-bull, malhado daquele jeito deve ser gay ou débil-mental, eu penso mas digo apenas “legal, boa praia para você e seu noivo“, volto ao manifesto.

“Uma elite que dita regras, cria rótulos e se autoenaltece em resenhas mútuas, eventos e panelas”. Um chopp. Uma ideia para o texto, esta questão da elite, luta de classes, sempre pega bem citar Marx (“proletários do mundo das letras, uni-vos”), vou batucando no teclado e tomando o chopp que é ótimo para o calor e para as idéias, cito até o Deleuze, que o Mestre tem cara de quem gosta do Deleuze…

Delícia sim é esta gringa que para no quiosque como perdida. Ofereço um chopp e descubro que é uma argentina meio hippie que está procurando lugar para ficar, barato ou de graça, na Zona Sul em pleno verão. Desconverso, já me dei mal com hóspedes, indico o Chez Lagarto, logo ali, por via das dúvidas deixo meu telefone para ela me ligar mais tarde, conhecer a Lapa comigo. E volto, bem animado, ao texto.

“O autor pode e deve se esforçar pela disseminação de sua obra”. “Enredos ágeis e cativantes”. Outro chopp, bem rápido, e lá vou eu, ágil e cativante no teclado, devo estar com uns 1500 caracteres, não tem mínimo de caracteres mas se o máximo é 4500 é bom chegar a pelo menos uns 4000. São os tais processos de produção que o manifesto diz que pelos quais devo me interessar, além do marketing e distribuição. O título da obra deve chamar a atenção do leitor e despertar a vontade de chegar até o livro. Posso chamar o texto de “Manifesto sob o sol”, será que chamará a atenção do Mestre? Outro chopp.

Volta a morena corredora, cansada, suada, ofereço um chopp e ela me olha com nojo, eu deveria ter oferecido um gatorade, agora já era, a gata foi e eu continuo no manifesto e no texto.

“O desejo soberano de ser lido”. Isso é bonito, parece música do Cartola, posso citar o samba como o exemplo do conflito entre criação e diluição, entre arte e indústria, me empolgo e mais uns 800 caracteres, acho que esta parte do texto ficou meio sem pé nem cabeça, nada que uma revisão não resolva, o importante é que estou concluindo meu dever de casa e ainda por cima me divertindo neste domingo de praia, só tenho que pensar em um Plano B caso a argentina não ligue para irmos à Lapa.

“Maniqueísmo que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.” Respiro fundo, peço outro chopp, ao longe ouço fogos, deve ser o jogo começando, mas o chopp não vem, o rapaz do quiosque sumiu, olho para a praia e todos estão correndo em minha direção, demoro a perceber no barulho da multidão a palavra “arrastão!”.

Agarro o netbook e corro também, cadê o netbook? procuro, já era, pegaram na confusão, e eu nem terminei de pagar nem tirei back-up e o pior é o texto que estava tão bom e se foi.

Bom, pelo menos bebi chopp de graça a tarde inteira. E pode ser que a hippie ligue.

Holden

13 Comentários »

  1. Gostei muito do texto, muito gostoso de ler, inda mais porque pude curtir um pouco da alegria do autor. Aqui na minha sala não passou gatinha nenhuma enquanto eu escrevia, então não posso criticar nada do Holden, pois vai parecer inveja ou despeito. Eu só acho que não faria mal a ninguém se nossos escritores tentassem evitar perpetuar estereótipos ou comentários desairosos, seja a homens “malhados”, seja a pit-bulls, seja a gays. (Jean-Paul da Silva)

    Comentário por Jean-Paul da Silva — fevereiro 8, 2010 @ 4:37 pm | Responder

  2. Desculpe, esqueci de me referir também aos débeis-mentais, pessoas muito especiais que não precisam de reforço à imagem negativa que se faz deles…(Jean-Paul da Silva)

    Comentário por Jean-Paul da Silva — fevereiro 8, 2010 @ 4:39 pm | Responder

    • Realmente, como notou o Da Mata, a possível incorreção política não é do autor e sim do personagem. Porém, relendo o texto, acho que talvez eu pudesse suavizar a questão, trocando a frase por “…parece um pit-bull, malhado daquele jeito, sei não…” Atinge o mesmo objetivo sem chocar. No mais, obrigado pela crítica bem construtiva.

      Comentário por Holden — fevereiro 10, 2010 @ 11:15 pm | Responder

  3. Gostei do texto, confesso que lendo fiquei com vontade de tomar chopp. Acho que isso pode ser um sinal de cuidado, afinal o autor interferiu no desejo do leitor.
    De resto o que posso falar é que um texto bem dinâmico, o que acho ótimo.

    Comentário por Epamineuda de Assis — fevereiro 8, 2010 @ 9:09 pm | Responder

    • Epamineuda, que tal um chopp depois da aula? rsrsrsrsrsr Obrigado pelos comentários

      Comentário por Holden — fevereiro 10, 2010 @ 11:16 pm | Responder

  4. Em geral não gosto do estilo “vou fazer uma graça com o professor”, mas o desenvolvimento superou minha expectativa, ficou leve e engraçado. Quanto às possíveis “incorreções políticas”, não as considerei graves (estão na boca do personagem, não necessariamente do autor da crônica).
    Sabiam que também existe um movimento em defesa do politicamente incorreto na literatura? Um dia pode virar manifesto, quem sabe?

    Comentário por Da Mata — fevereiro 9, 2010 @ 12:06 am | Responder

    • Da Mata, obrigado pelos comentários e pela percepção que o politicamente incorreto (como outras características) são traços que usei para compor um personagem, e não necessariamente crenças ou características minhas. Na verdade eu sou bem diferente do personagem, em comum o gosto pelo chopp (embora na minha idade estou preferindo vinhos)

      Comentário por Holden — fevereiro 10, 2010 @ 11:18 pm | Responder

  5. Até quem não é carioca se sente no Rio com uma crônica dessas! O Rio de hoje em dia foi retratado com maestria enquanto intercalado com o tema proposto para a crônica.
    Muito bom!

    Comentário por Joyce de Almeida Cunha — fevereiro 9, 2010 @ 3:39 am | Responder

    • Joyce, obrigado pelo comentário!

      Comentário por Holden — fevereiro 10, 2010 @ 11:19 pm | Responder

  6. Muito boa a idéia de relacionar os itens do manifesto com os acontecimentos na praia. Ficou perfeitamente intrincado. Gostosamente misturado como banana e aveia na vitamina.
    Acho que a boa crônica não deve se deter,somente,nas nossas experiências particulares. Tem que estar relacionada sempre com questões universais,históricas e perenes. Por isso, sua crônica _como dizia a Emília_ ficou batatal!

    Comentário por caio macambira — fevereiro 9, 2010 @ 8:40 pm | Responder

  7. Caio, obrigado, eu tentei isso, fazer um texto juntando 2 coisas muitos díspares, a praia e o manifesto, e se consegui misturar como “banana e aveia”, creio que atingi meu objetivo! E “batatal” é ótimo, vou roubar este termo para minha próxima crônica!

    Comentário por Holden — fevereiro 10, 2010 @ 11:21 pm | Responder

  8. Holden, essa crônica está demais! Alias, o teu narrador e o teu pseudônimo combinaram maravihosamente bem. Além de trechos impagáveis (“tirar onda de bill gates”, “batucando no teclado”, “sedução é esta morena..”) que me fizeram rir em alto e bom som, esse jeito disperso de progredir na tarefa, me lembrou muito meus trabalhos de faculdade. Parabéns. Adorei!

    Comentário por João Cândido — fevereiro 11, 2010 @ 4:16 pm | Responder

    • João Cândido, obrigado pelos comentários, a ideia do pseudônimo foi esta mesmo, um Holden Caulfield carioca rsrsrsrsr

      Comentário por Holden — fevereiro 11, 2010 @ 5:56 pm | Responder


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