Oficina da Crônica

junho 30, 2011

CAÇA AO TESOURO

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:10 pm

Resolvi, certo dia, participar de uma caça ao tesouro. Minha primeira dica foi ter que estar presente numa terça feira, ás 16:30 em um determinado endereço do bairro do Flamengo. Só este nome já não me é animador, não sei por quê. Alguma coisa a ver com bola e homens suados… Sei lá. Ah, e também as gritarias e xingamentos no apartamento de cima. Euforia adolescente. A verdade é que flamengo me lembra domingos empijamados, regados a cerveja e muita baderna.
Na terça feira marcada lá estava eu e mais alguns participantes e entre eles um enigma. A próxima tarefa da brincadeira foi que cada um dos envolvidos levasse um texto. Esta etapa foi incrível por me ver premiada com tantas jóias preciosas que me levaram ao delírio pela riqueza literária. Este universo me fascina. A escrita. Amei, chorei, odiei, fiquei feliz e angustiada, apenas lendo. Ganhei um tesouro.
Mas minha surpresa veio atrasada. A galope, com pressa e intensidade. E veio ao mesmo tempo leve, fluida e fácil. Foi um texto que ficou no meio do caminho, sozinho lá no calendário. Coitado, pensei. Coitado nada! Tem que estar onde lhe pertence mesmo, por sua exclusividade. Ali pensei que aquela Laranjinha vinha como sobremesa especial de um banquete de fartura plena. Ali quis desfrutar, descascar, me deliciar e, com o perdão da palavra, chupar esta fruta até o caroço.
Quem era uma Laranjinha? Alguém me falou de um ser delicado, frágil e doce. Eu pensei em algo azedo, mas aquele azedo bom que faz doer lá perto da orelha. Pensei em um agente laranja, pesticida perigoso. Mas não! É claro que era uma destes figurões que colocam algum inocente a frente de suas falcatruas. Era isso. Alguém disfarçado de outro alguém. Figurão ou não, no pau da goiaba, era isso.
Investigo um pouco mais e me questiono se laranja é feminino ou masculino. Laranja me parece masculino, tenho duvidas. Mas Laranjinha é feminino e pronto. Assim como a maça é indubitavelmente uma formosa, linda e saborosa representante do sexo feminino, Isto já estava na bíblia.
A laranja é uma fruta desafiadora, exige destreza e instrumentos para ser desfrutada. Não é para qualquer um em qualquer lugar. E ainda por cima tem aquela casca meio chata, meio feia e muito amarga. Como será este alguém que se denuncia uma laranja. E por que escolheu este nome? Será que é só por que gosta da fruta ou foi a primeira coisa que viu quando teve que assinar o texto? Será um apelido de infância..?
Me envolvi neste enigma enquanto a busca pelo tesouro continuava. Vieram outras etapas e cada vez mais surpreendentes e gostosas. E a cada semana ganhei o maior premio da corrida. Ter o privilégio e a delícia de ter minhas noites embaladas por uma literatura rica, genial e exclusiva. Eu estava lendo, em primeira mão, textos fabulosos.
Fui cumprindo as tarefas enquanto tentava decifrar o meu enigmático amigo Laranjinha. Pois é, tornei-me amiga dele. Na verdade dela. Com certeza Dela. Fiquei solidária com a triste historia da cinderela que vira abobora. Seria sua filha? Me identifiquei. Talvez uma moça como eu na faixa dos trinta com filhos pequenos. Aliás, preciso com urgência contratar a branca de neve para a festa da minha pequena…
Pode ser que Laranjinha seja tia da cinderela e estivesse naquela festa aliada a trupe dos pais, louca por um copo, louca para fugir daquele inferno. Daquela realidade, que há muito ficou para trás. Mas ela usa uma linguagem despretensiosa, limpa, leve. Quase ingênua, mas madura o suficiente para já ter passado pela fatídica adolescência. Ela está na faixa dos trinta e se a cinderela não era sua filha era a amiguinha da filha, e Laranjinha estava lá naquela festa fazendo coro de berros irritados com as outras mães de plantão.
Minha amiga tem um olho em terra de cegos. Tem a serenidade e o equilíbrio de quem cresceu no inverso. De quem aprendeu pelo avesso. Tem o bom senso que cabe aos mutantes portadores da síndrome da inclusão patológica. Mas ainda assim não nega suas origens e faz dela sua riqueza.
Minha amiga tem filhos, trabalha, cuida da casa e talvez de algum bichinho de estimação. Faz dever de casa com filhos e jantar para o marido quando a empregada falta. Leva trabalho para casa, estuda, Lê e namora. Namora muito e também toma chopp por que ela sabe das coisas boas da vida. E sabe também das coisas ruins.
Esta semana acaba a busca ao tesouro. E tenho para mim que será mais uma semana de gratificantes premiações. Eu sei que para mim sim. Termino a busca ao tesouro com riquezas maiores do que imaginava encontrar. Termino a brincadeira convicta de vitoria. Certa de que tenho em minhas mãos, além de textos sublimes, muitas historias para contar. Sei que cada um terminará a brincadeira com o tesouro dos textos e mais algum tesouro de conquista pessoal. Sei que há tesouros de superação, motivação, conflitos e desafios. Cada um com seu cada qual.
E quem sabe mais um tesouro surpresa? Esta semana vou conhecer minha amiga Laranjinha. Quem sabe se desta brincadeira poderá nascer também tesouros de amizade?

Flora Zahra.

Quantas músicas você ainda quer ouvir?

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:09 pm

Estes dias pensei em Eduardo. Amigo de letras, lhe conheci em uma Oficina de Crônicas ali no Flamengo. Entre tantos novos amigos, Edu foi quem mais me chamou a atenção. Não tanto, pela deselegância com que se vestia, mas por outro motivo que muito me intrigava.
É certo que ele tinha um tipo meio hippie. Calças jeans e camisas de algodão surradas pelo tempo. No ombro, caído pelo peso dos anos e dos desenganos, carregava sempre uma bolsa onde guardava seus bens mais preciosos: lápis e papel. Seu cabelo, simetricamente desarrumado, combinava com seu estilo. Aquela coisa meio desleixada, meio rock anos 70. Entende? Para mim o retrato fiel de um sonhador. Daqueles que não se importam com o amanhã. Incompatível? Não! De maneira nenhuma! Um sonhador pode não se importar com o amanhã, desde que ele viva seu sonho hoje.
E assim era Eduardo. Barba sempre por fazer, olhos castanhos, que se fechavam sempre que sorria. Sobrancelhas grossas e um pequeno sinal deixado pela catapora acima de uma delas. Orelhas e nariz pequeno, onde repousavam dois finos aros, que lhe corrigiam o rumo, ou talvez os sonhos. Sentávamos lado a lado e embora fizesse o tipo “molambo”, Eduardo não passava um dia sem se perfumar. Não sei ao certo que cheiro era aquele, mas era o cheiro de Eduardo.
Seus textos eram ótimos, mas uma coisa me intrigava: ele tinha uma cisma com equilíbrios matemáticos. Sim. Ele saía às ruas e começava a fazer suas contas. Sentia-se incomodado se o número de copos de chope, não correspondessem ao número de bêbados, se a quantidade de livros não fosse suficiente para o número de leitores ou mesmo se a quantidade de antenas não correspondessem ao número de televisores. Todos estes desequilíbrios “sócio-báscaros”, o perturbavam ao ponto dele esmerar-se em resolver a equação. Chegou a beber um sem número de chopes para restabelecer o equilíbrio cósmico de um boteco.
Para minha surpresa, certo dia parei para pensar em todos os livros que quero ler e foi aí que lembrei-me de Eduardo. Tenho quarenta anos e talvez viva mais outros, com a ajuda de Deus. Em função de outras atividades menos importantes como comer, dormir, trabalhar… consigo ler uma média de 16 livros em um ano. Assim terei o privilégio de ler 640 livros, até o restante de minha existência. Acho pouco! Fiquei assustado com esta conclusão. Parei para pensar nos livros que li e não gostei. Um desperdício de tempo! Mas o que realmente me apavora são as trocas que eu posso ter feito. Imagine se eu não tivesse lido Dom Casmurro em troca de ler a biografia do Justin Bieber? O caso é sério e me preocupa. De hoje em diante serei muito seletivo nas escolhas, entretanto isso pode ser prejudicial ao meu objetivo. Caso eu demore a escolher um livro para ler, posso não alcançar a minha média anual e seria o mesmo que escolher um título errado.
Muito bem senhor Eduardo! Veja a enrascada que o senhor me colocou. E se de agora em diante eu começar a pensar em quantas músicas posso escutar ou tocar ao meu violão? Como vai ser? Ouço Beatles pela enésima vez, ou dou uma chance ao Coldplay? Escuto Arnaldo Antunes ou dou um tiro certo em um velho CD de Vinícius e Toquinho?
Considerando que uma música tem em média quatro minutos e que eu tenha a disponibilidade de ouvi-las uma hora por dia, que é o tempo que levo para ir e vir do trabalho, devo escolher entre 12 ou 13 por viagem, ou seja, um CD por dia. Sendo vinte e dois dias de labuta no mês, poderei ouvir 264 CDs por ano. Você acha muito? Só o Chico Buarque tem mais de 50. Para piorar ninguém ouve uma música e pronto. A gente ouve, ouve de novo e de novo… Porra Eduardo tu é foda!

Gomes Braga

Procura-se um namorado!

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:07 pm

Conheci a Flora três semanas atrás. Lembro que eu estava sentada, esperando pelo professor, quando ela entrou. Sem nenhum capricho, jogou a bolsa marrom numa cadeira e sentou na do lado. Eu,indiscreta e detalhista, reparei nos atos desengonçados da moça.
Além de desajeitada, a Flora é extrovertida. Antes do início do aula, ela aproximou-se de mim e foi logo se apresentando: “Oi, sou a Flora Zahra!”. Eu soube ali, olhando aquele sorriso simpático e reparando no brilho dos olhos grandes e pretos, que seríamos grandes amigas. “Prazer, sou a Menina do Balaio. Mas pode me chamar de Menina.”
Conversamos depois da aula, trocamos telefones, e-mails e combinamos de tomar um café juntas pra conversamos sobre o próximo seminário. Nos encontramos na livraria, no dia e no horário combinado. Não estudamos. Ficamos mais de três horas fofocando – ela me contou sobre seus problemas pessoais, sobre sua família, sobre seus namoros mal sucedidos e confessou ter desistido do amor.
“Mas o amor não é algo de que se desista”, pensei. Então, como toda boa amiga resolvi ajuda-la. Criei um projeto, montei planilhas e bolei estratégias. Acionei todos os meus amigos, familiares, vizinhos, porteiros e os ambulantes da rua. Estávamos todos unidos por um único objetivo: “PROCURAR UM NAMORADO PRA FLORA!”.
Comecei pela lista dos meus amigos solteiros. O Eduardo estava no topo dela – sempre foi o solteirão da turma, aquele nerd antissocial, um pouco magro e alto demais, usava óculos meio “fundo-de-garrafa” no tempo do colégio… Mas ele andou malhando e agora estava com lentes, digamos que ele ficou mais “jeitoso”.
- A Flora, Menina? Aquela que estava com você na livraria? – ele perguntou.
- Sim, a própria. Apresentei vocês, lembra?
- Lembro. Ah, mas ela tem o rosto meio assimétrico. Reparou como o olho direito é um pouco maior do que o esquerdo? A boca tem quase um formato de uma elipse achatada. Até que ela é bonita, mas não tem a razão áurea de proporcionalidade no corpo.
- Deixa de ser cruel, Eduardo! A Flora é linda e ainda tem qualidade não-enumeráveis.
- E você ainda insiste em apelar para o meu lado sentimental? Esqueceu que eu sou matemático?
- E matemáticos não tem sentimentos? Quem disse?! Deixa de ser um nerd-chato e solteirão. Vamos! Deixa eu marcar um encontro para vocês.
- CARAMBA! Já parou pra reparar que o nome “FLORA” é um anagrama de “FAROL”? Não, isso não é um bom sinal…
Aquele “caramba” dele me lembrou do “Eureka” do Arquimedes. Desliguei antes que ele começasse com as teorias infinitas. Ainda bem que não meti a minha amiga numa enrascada dessas… Imagina! Aguentar o Eduardo não é uma tarefa fácil.
Confesso que a Flora é exigente demais! Quando estávamos conversando sugeri o Gomes Braga, mas ela disse logo que não aguentaria pegar ônibus, metrô, trem e van para visita-lo. Mais um candidato descartado!
Apresentei para ela o Peregrino Viramundo. Deixei os dois conversando e saí para pegar um café. Sentei e peguei um livro para ler enquanto esperava por ela. Tomei um susto quando aquelas mãos geladas e brancas bateram no meu ombro.
- O que foi, amiga? Não gostou do Peregrino? – perguntei.
- Eu tava gostando, até que ele soltou uma cantada: “Oi. Você sabe quem sou?Sou o Imperador do mundo!”. Que pessoa mais infantil!
Não pude discordar. Ele era um pouco estranho mesmo.
A minha lista de opções estava acabando. Só haviam sobrado dois. Liguei primeiro pro Paulo Brandão, uma mulher atendeu: “Aqui é a esposa dele, gostaria de deixar recado?”. Tive que apelar pro golpe “marketing” usada pelas amantes: “Sou do jornal O Globo e gostaria de oferecer uma assinatura a preço de banana.” Ainda bem que ela não estava interessada e desligou na minha cara. “O Paulo casou e não me convidou. Que infeliz!”, pensei. Tentei ligar pro Victor Goes depois, mas só caia na secretária eletrônica.
Eu já estava desistindo quando meu telefone tocou. Era o Fernando. Sim, aquele mesmo, o Fernando Duarte Pazzini.
- Amor, nada! Eu já não disse que o que houve entre nós está acabado? Você é insistente demais, Fernando!
Ele veio me falar que estava carente, se sentindo sozinho, inútil, sem vontade de viver… Foi quando uma lampadazinha acendeu sobre minha cabeça.
- Fê, querido. Já sei como te ajudar. Vou te apresentar para uma amiga minha. Que tal um jantar amanhã? Você pode fechar aquele mesmo restaurante que a gente foi no Leblon. Te passo o nome, telefone e endereço dela por mensagem. Ela vai ficar te esperando. Não deixa de ligar, hein?
Ontem liguei pra Flora pra saber como tinha sido. Eu conseguia ouvir os barulhos dos coraçõezinhos saindo da voz dela.
- “Ai, amiga. Ele é romântico demais. Rico demais. Bonito demais. Perfeito demais… Estou apaixonada, obrigada.”
Problema resolvido! Eu consegui matar dois pombos com uma flechada (de cupido) só.

Menina do Balaio

junho 24, 2011

O futuro não responde cartas

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:07 pm

Caro, Peregrino Viramundo do Futuro,

Olá! Como vai? Espero que já tenha conseguido formar o nosso Império e esteja dominando o mundo com mão de ferro.
Aqui é a coisa de sempre, ninguém acata minhas ordens. Crio uma lei obrigando a todos os cidadãos se ajoelharem perante a minha presença, coloco a ordem no twitter e nada. No dia seguinte não só ninguém se ajoelhou como também um carro passou por cima de uma poça, me deixando que nem o monstro do pântano. Placa XYZ-4258. Você já me vingou? Sugiro poço de jacarés. Bem, talvez eu tenha que admitir: o twitter não é o melhor canal para se impor vontades. Não quando se tem apenas 10 seguidores. Para piorar, 5 deles são só propaganda.
Gostaria de saber qual método você usou para submeter a população. Dominação de mentes? Um aparelho que amplifica as ondas cerebrais? Contaminação da comida? Mensagens subliminares? Robô gigante? Cara, você tem um robô gigante, né? Eu sempre quis um. Esmagar opositores com pés de titânio! Disparar raios laser nas bases dos principais governos mundiais! Isso é que é vida!
E aposto que você deve ter sorte com as mulheres. Claro que deve. Um garoto bonito que nem eu, ou melhor você. Aliás, eu bolei essa cantada…. Vou contar, afinal você é eu, certo? Não há segredo entre nós mesmos. Pois bem, o lance é chegar numa garota, e dizer: “Oi. Você sabe quem sou?” É importante estar com uma das sobrancelhas erguidas. (A sobrancelha é como se fosse a nossa cauda do pavão). A garota provavelmente vai dizer que não e é aí que vai a grande tirada: “Sou o Imperador do mundo”.
Ótimo, né? Nunca tentei. Estava esperando arranjar alguns guardas… só como apoio moral. E também para fecharem as principais rotas de saída. Por precaução. Mas está difícil. O preço de um capanga decente hoje em dia está lá no alto. E, mesmo assim, nenhum deles tem aquele tipo de idiotice que permite um homem trabalhar para alguém com uma câmara de tortura reservada à funcionários que não cumprirem os prazos. O que me faz voltar aos robôs. Armas cegas e leais de destruição. O único problema deve ser ficar trocando peças e atualizando sistema operacional.
Bem, eu tenho que ir. Minha mãe está reclamando do quarto que eu não arrumei. Provavelmente não viu a minha última ordem no twitter: É dever de qualquer cidadão cuidar de qualquer um dos meus afazeres, principalmente arrumar o quarto. O jeito agora é ir lá, sujar as minhas mãos na labuta. É vida dura. Aposto que o futuro deve ser muito melhor. Antes de dar o último ponto, eu não posso resistir a essa pergunta. Ainda está passando Silvio Santos no seu tempo? É isso. Já vou agora. Nos vemos por aí, em algum lugar da quarta dimensão.

Saudações,
Peregrino Viramundo do Passado.

Peregrino Viramundo

A Nota

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:05 pm

A nota estava lá, eu só não tava encontrando, porque a única coisa que ocupava minha cabeça era a frase. Havia dias que repetia aquela frase sem nenhuma evolução. Era sempre a mesma coisa. Assim que chegava em casa, ia pro quarto de trabalho e ficava lá, esmerilhando a frase. A Antonieta, minha mulher, diz que eu invento muito, mas inventar faz parte do meu ofício. Quer sempre simplificar as coisas. Diz que melhora a comunicação. Não acho que criatividade tenha que ser coisa complicada, mas não me nego a burilar uma frase até que esteja perfeita. Outro dia, ela irrompeu o meu trabalho, procurando alguma coisa. Eu continuei trabalhando. “Bem, até os vizinhos já devem ter decorado a sua frase. O que tá faltando?” “Não tá pronta. Preciso melhorar.” “Melhorar o quê, bem? Tá ótima, assim. Não complica. Cadê a conta do condomínio?” “Não sei, vê se tá aí embaixo” e apontei pra impressora. Não podia tirar os olhos do computador. Tava fazendo uma alteração na frase.
Minha mulher saiu. Não encontrou a conta. Voltei à digitação. Dessa vez com as mudanças. Foi pior. A Antonieta entrou no quarto de novo. “Bem, você não viu mesmo a conta? Vence hoje.” “Não, sei lá. Tô trabalhando.” “E desde quando isso é trabalho?” Sempre que ela ficava nervosa, mandava essa. Eu ignorei. Precisava da frase. Não estava querendo discutir relações de trabalho, agora. Daqui a pouco ela sairia do quarto. Era só não dar ideia. Dessa vez foi diferente. Começou a revistar a papelada perto do computador, jogar as revistas pro lado. Tava fazendo de propósito pra me deixar irritado. “A conta não tá aqui.”, falei já alterado. Ela tava querendo briga. Investiu: “Todo dia é a mesma coisa. Quando é que isso vai acabar?” “Quando a frase ficar pronta.”, respondi. “Já te falei pra fazer a coisa simples, mas você quer inventar.” “Inventar, não, improvisar.” “E desde quando, improviso se escreve?” “Não se escreve, mas se ensaia.” Fiquei com vergonha de dizer aquilo, confesso. No fundo, a Antonieta tinha razão. Improviso não se ensaia, mas não ia deixar ela ficar com a última palavra.
Mais tarde, no jantar, ela voltou com aquela conversa. Disse que eu devia fazer a coisa simples. “Mozão, o simples agrada mais e pode ser mais bonito, também. Veja a Copacabana, princesinha do mar… ” “Sei, se fosse hoje seria Copacabana, piriguete do bar”, brinquei. “Tá, mais e aquela Chega de saudade… “Você chama isso de simples? Fala sério! “ “Você entendeu o que quis dizer. O simples comunica mais. Causa mais empatia, entende? “ “Antonieta, isso aqui não é jingle, não. Tem que ter sensibilidade pra apreciar.” “Sei.” Levantou da mesa com um ar contrariado e voltou a procurar a conta, mas antes mandou a frase que mudou tudo. “Se tá tão difícil começar com G, porque você não começa ela com C”. “A Antonieta fala muita besteira, às vezes, porque ela não entende do meu ofício, mas daquela vez, ela mandou bem. Corri pro quarto, liguei o computador, peguei minha palheta vermelha. Não, vermelho dessa vez, não. Peguei a rosa, que comprei numa viagem a New Orleans . Ajustei o band in a box, arrumei minha Les Paul no colo e mandei a frase em dó. Perfeito! Aquela era a nota que eu tava procurando. Agora, era só improvisar.

Paulo Brandão

PEDAGOGIA NOTA DEZ

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:02 pm

Muito cedo percebi que minha família não era normal. No sentido mental mesmo. Conheço outras famílias tão doidas quanto a minha – o que não me consola – mas são loucos da mesma cepa, de uma insanidade uniforme. A minha genealogia parece ter surgido de um DNA generoso que acolhe uma tão grande e democrática variedade de insanos que eu o chamaria de “inclusão patológica”.
Filha de uma deprimida, hipocondríaca com delírios persecutórios, já contabilizei alcoólatras, bipolares, obsessivos-compulsivos e workalcoholics, numa avaliação ligeira. Há os saudáveis também, os que só apresentam traços de mau humor e antipatia profunda pela espécie. Porém, o tipo que mais detona a lógica da vida, pra mim, é a tia Mariazinha. Essa é do balacobaco! Já te falei dela? Não, né? Acho que é porque dela quase não falo … só me ocupo. Desde pequena tento decifrar o enigma dessa “esfinge” que é ela. Nenhum traço físico mais exótico a denunciar a complexidade desse paradigma do torto,bizarro e … hilário, na arrumação da vida. Ela é pequena e gordinha como todas as tias, fala pouco e baixo, mas suas ações reverberam. A tal ponto que a família sempre se telefona pra espalhar “a última”.
Excelente cozinheira gostava de reunir a família em sua casa. Sempre foi um programa tão gostoso quanto surpreendente participar de um almoço lá. A gente era, invariavelmente, recebido num cenário pós-apocalíptico criado pelos quatro meninos sem limites e sem porteiras. Tudo podia acontecer, in família, naquela casa e, não raro, não se encontrar um prato para almoçar porque a tia havia atirado todos contra a parede pra “descarregar os nervos” – como explicava o paciente marido.
- Mas não tem problema, coma na tampa da panela, pega aí! – ensinava ela aos convidados.
Diante do meu espanto, minha mãe que a conhecia bem antes de mim, é claro, dizia:- Ah! Não liga não, sua tia é assim, meio inutilizada desde que éramos pequenas.A culpa é minha que dei um susto nela, vestida de diabo. De lá pra cá nunca mais foi a mesma. Mas… coma aí na tampa mesmo!
Suas técnicas educativas com seus quatro anjinhos era o que havia de mais surreal pra mim. Quando não podia conter o caos familiar, e nem ser ouvida, ela abaixava mais o tom de voz, olhava pra um certo ponto da parede onde os lindinhos agiam e dizia:
- Ah, papai! Você está vendo isso?!
Era o suficiente pra calar os moleques amedrontados pela possibilidade do espírito do vovô estar por ali. Assim seus filhos eram dominados e obedeciam … Acho que foi aí que aprendi que os marginais só temem o sobrenatural.
Meus primos não queriam ir pra escola. Até eu tentei contar alguma coisa boa da escola e nada funcionou. Tia Mariazinha não parecia se importar muito, até o dia em que resolveu acelerar o processo e disparou mais uma estratégia pedagógico-motivacional:
- Se vocês não forem pra escola como vão aprender a escrever palavrão no muro?
Check mate!
Os capetas revestidos de primos cresceram educados por esse método. Se tornaram homens interessantes, trabalhadores, bem sucedidos, generosos e amados pela comunidade.
Minha tia perdeu o marido, morto por ataque cardíaco. Seus filhos estão sempre por perto. As histórias continuam. Quando não tem problema pra resolver, ou pra criar, ela vai pro supermercado. Come sem pagar e fica esperando alguém que venha puxar briga com ela. Ela adora uma. Nunca elevou o tom de voz, sempre teve as rédeas da família. Minha tia nunca seguiu a cartilha. Ela é doida varrida …

LARANJINHA

(In)voluntário.

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:00 pm

Então, deixa eu ver se entendi bem. Como era de se prever, você está pedindo minha ajuda.
Depois de desprezar minha existência e agir conforme as suas necessidades, ignorando por todo este tempo os meus gratuitos conselhos, você se rende. Depois dançar luminosamente no meio do salão exibindo seu suposto prêmio e me deixar em segundo plano assistindo tudo amordaçada pra não estragar o seu show, eu volto a ser seu porto seguro. Quer meus créditos no final e, vejamos só, está me pedindo ajuda. Você só pode estar brincando não é? Como não preciso ficar brava? E as tantas vezes que te alertei? Claro, você não poderia imaginar.
Não bastou te advertir enquanto era tempo sobre os perigos que corria, não é? Não bastaram também as cicatrizes expostas como lembranças de outros tombos? Custava dar um minutinho de atenção aos meus alertas que pulavam na sua frente mais que janelas pop-up das ultimas ofertas de compras coletivas? Estava cego, sei… agora eu poderia me fazer de surda então. Como assim, não preciso ser irônica? Custava considerar os tantos exemplos à sua volta e tentar ao menos uma vez conter seu ritmo impulsivo e desordenado? Não, claro, você quer mais é perder o ritmo não é? Impulsão, sei. A velha desculpa. Confiar? Que coragem me fazer tal pedido! Simplesmente porque você não se cansa. Você se entrega, se doa, acredita e vai. Você se joga e depois vê o resultado. Faz o que bem entende, se enche de coragem e segue em frente. Avançando os sinais, ultrapassando a velocidade permitida sem medo de colidir no próximo cruzamento, sem medo das multas. Mas quando está prestes a cair no abismo, vem correndo me pedir socorro. Deve achar que minha sina é remendar suas feridas não é? Ah não?! Mas parece!

Sabe o que é mais irônico, meu caro? É ter te dado chances, voz, asas, ter apostado e confiado que você saberia como agir e hoje te ver assim, machucado, inseguro…é sim, inseguro! Confundindo obviedade com consequência. Confundindo previsão com solidão. Não. Não me faça esse tipo agora, de arrependido. Surpresa? Eu não sei por que a surpresa se o resultado desastroso já era no mínimo gritante no meio de tanta euforia desenfreada. Não sei por que essa tristeza se no meio tanta paixão fuleira sendo confundida com amor, a solidão já era anunciada. Que aprendeu que nada! Você sempre cai, sempre apanha, tem segundas e terceiras chances de fazer diferente mas não, não aprende. Involuntário? Vai apelar pras justificativas naturais agora? A verdade é que você acredita nas tuas intuições, naquilo que idealiza. Aposta que sempre vai se dar bem. Esquece quem te cuida, quem te protege. Despreza conselhos, só quer ser ouvido. Está mal acostumado com a tal supervalorização da sua voz.

Mas agora, você está vendo não é? Tá vendo no que dá ser transparente, intenso, urgente, acreditar de olhos fechados em todo e qualquer sentimento ou sensação que bate à sua porta. Tá vendo no que dá colorir de sonho a vida real e desobedecer as placas de aviso que quase te cegaram de tanto que brilharam na sua cara e você – tão dono de si – ignorou, não é mesmo? O quê? Vai chorar? Não acredito…Tudo bem, eu sei que dói. E como sei. Mas agora não adianta ficar aí, frustrado e recolhido não!
Vamos encerrar esse drama? A sua sorte é que eu preciso de você pra viver! Então lança mão da sua coragem, desperta pra superação, se vira, recomeça e “vambora”…que eu vou te ajudar só mais essa vez, coração estúpido!

Sanfer

A Flor que nunca me deram

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:59 pm

Aninha espiava pelo canto da janela escondida atrás da cortina do seu quarto o movimento das pessoas que passavam em frente a sua casa. Tinha em si a angústia da expectativa. O relógio antigo pendurado na parede contava os segundos feito horas, e as horas então? Pareciam dias!

Aquele não era um dia qualquer, o sol que agora começara a entrar por entre as cortinas, iluminava o vestido que havia separado de véspera e delicadamente repousava na cama ao seu lado. Sentia fome, mas se alimentava da espera, não queria perder aquele momento tão aguardado.

O cheiro sedutor do café matinal entrava por debaixo da porta e o convite amável da sua mãe a levou de súbito a descer as escadas em direção à cozinha, resgatar aquela xícara de café já posta sobre a mesa, agarrar uma fatia de bolo e voltar correndo para sua vigília, para sua janela. Agora faltava pouco!

Espichava os olhos até os limites da esquina esperando aquele momento acontecer, esperava aquela bicicleta contornar a esquina da sua casa carregando a resposta para as suas dúvidas, trazendo o alívio à angústia acumulada pelo peso das horas.

Alguns minutos depois, aquela tão esperada bicicleta contornava a esquina de sua casa, acelerando a batida do seu coração a cada metro que se aproximava da sua casa. Uma rápida mordida na fatia de bolo, um pulo sobre a cama, Aninha desce as escadas passa rapidamente pelos olhos atentos da sua mãe em direção à porta da rua que revelaria enfim a sua espera. Lentamente coloca a mão na maçaneta da porta abrindo com toda delicadeza, mas apenas alguns centímetros, o suficiente para saciar sua aflição.

O mensageiro trazia o buquê de rosas mais lindo que já tinha visto, arrancando-lhe um sorriso discreto, suficiente para encher suas expectativas de sonhos. Ele toca a campainha! “Por que de tanta demora? Abre logo essa porta!” – fala baixinho. O Mensageiro deixa as rosas na soleira da porta e vai embora. Aninha fecha a porta com pesar, mais uma vez ela não recebera as flores. O relógio parecia estar contra ela, apressada pela mãe que a avisa que chegarão atrasadas na escola. Pede que suba rapidamente, coloque seu vestido e a encontre no carro. “Vamos mocinha, não quer chegar atrasada na escola no dia do seu aniversário? Quer?”

- Por que será que ela nunca aceita as flores? – pergunta Aninha
cabisbaixa.
- Não sei minha filha, o perdão não é algo tão simples de se conceder.
- Não entendo porque ela as joga no lixo e nem lê o cartão.
- Talvez por não querer mais essa relação.
- Sabe o que eu acho mãe?
- Não, o que minha filha?
- Eu não gostaria que um estranho em uma bicicleta entregasse meu
presente de aniversário.

Espiava pelo canto da janela escondida atrás da cortina da sala o movimento das pessoas que passavam em frente a sua casa, tinha em si a angústia da solidão. O relógio na estante junto ao porta retrato contava os segundos feito horas, e as horas então? Pareciam dias!

Lentamente coloca a mão na maçaneta da porta abrindo com toda delicadeza, se abaixa pega o buquê de rosas e abraçando-o caminha até a lata de lixo, não há ninguém na rua, retira apenas uma rosa do buquê, arrancando-lhe uma discreta lágrima, suficiente para encher suas expectativas de sonhos. “Por que de tanta demora?” – fala baixinho.

Por Victor Goes

A estrada do sertão

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:58 pm

Nunca imaginei que ficar um longo tempo sem escrever causaria uma dor tão grande.
Estou me sentindo como estivesse aprendendo novamente a fazer redações como no tempo de escola.
E agora tenho que colocar diálogo na minha crônica.
Parei diante da tela do computador e pensei: como escreverei um diálogo, que assunto irei abordar?
Para inspiração botei uma música, quem sabe a música não dá uma idéia do tema.
Vocês vão rir dá música que ouvi, mas como gosto de campo, fazenda, gado e tudo mais, ouvi Renato Teixeira e Sérgio Reis, e de repente a melodia foi embalando a minha mente e me fazendo rumar para terras longíquas.
É interessante como a música enleva o pensamento e nos faz imaginar coisas tão belas e ao mesmo tempo tristes.
Num momento da música falava sobre uma estrada lá longe, onde tem um pé de araçá, e vi a estrada de terra ao lado uma planície toda verde e ao fundo o pé de araçá frondoso e dando uma sombra aconchegante e me vi ali debaixo deixando o tempo passar e apreciando o céu azul, de um azul limpo e uma brisa gostosa roçando o meu rosto.
Que vidão!!!!!!!!!
E aí a música já é outra em que fala de viajar, caminhoneiro, estrada, poeira, liberdade e novamente embalo o meu pensamento neste ritmo tão gostoso.
E uma frase interessante em que diz :” a vida não cobra frete”. Será que a vida não cobra mesmo???? Pensei: eu acho que cobra, pois existem momentos tão duros e difíceis em que achamos que não vamos suportar passar pelos perrengues que vem ao nosso encontro. Não será isso frete?
E agora peguei um trem bão, lá no sertão de Minas, e chego numa cidadezinha modesta e esquecida no tempo.
Vou para a minha casinha, onde tenho uns gados, árvores frutíferas, e alguém que chamo de meu bem, êta vida boa.
Nada como essa vida, sô.

A cada faixa vou sendo levada para lugares distantes e sempre acompanhada pelo bem amado e tendo ao fundo a estrada, a casinha, o sol sempre nascendo. Reparei que o sol está sempre nascendo, e fiquei pensando: acho que é porque representa a vida nascendo, pois o pôr do sol significa a chegada da noite, o escuro, o medo, a tristeza e a morte. Tudo isso me faz refletir nas letras das músicas que ouço.
E a temática delas todas são sempre a terra, a casa, o sol nascendo, o amado(a) e a alegria de viver.
É o que queremos para as nossas vidas, não é isso? Reflito como são simples os desejos, mas como complicamos tudo.
Neste mundo computadorizado, em que tudo dizemos: põe no Google e obterá a reposta que quer.
Muitas vezes me dá vontade de abandonar toda essa tecnologia e ir em busca dessa vidinha que ouço nos versos das músicas, será que me acostumaria?
E aí penso na casinha, sem internet, fogão a lenha, pois gás encanado não há, aí penso: mas tem bujão de gás. Bem, resolvido o caso do fogão, lembro da televisão será que a luz já tem por lá, porque nos versos das músicas não falam de luz na casa.
Não poderei ligar o secador de cabelo, telefone somente o conectado por satélite, vizinhos a léguas de distâncias, coisas que somente a tecnologia nos proporciona, esses estarão fora do alcance.
Lembrei-me de um primo baiano que mora num sítio perto de Salvador, mas ele tem uma boa casa com alguma tecnologia. Vive no meio do mato, mas para estar perto dos vizinhos precisa do carro e para comprar alimento tem que ir para uma cidade próxima de casa. Mas quando quer saber do que se passa no mundo vai para Salvador, pois já morou lá.
Então fiquei refletindo sobre tudo isso, será que gostaria realmente de pegar a estrada e ir para a minha casinha no sertão?
Foi quando a música parou e concluí que o melhor é aproveitar o que a vida pode nos proporcionar.
Êta, sonho bom!

Hortênsia

Diário de Suzana Vieira: uma crônica esnobe em cinco atos.

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:57 pm

21 de junho de 2011 – Não A-C-R-E-D-I-T-O! Acordei hoje mais gostosa do que já tinha acordado ontem! Pode? O espelho até quis me agarrar no banheiro!

Depois da academia, fui para o salão. Não via a hora de chegar ao Diva´s… Gosto muito das meninas de lá. Aprendo tanto naquele lugar…

À tarde, passei o resto do dia em casa. Preciso mandar o Roderbal (meu mucamo que aluguei junto à agência de ex-bombeiros marombados) dar um jeito nesse apartamento, porque já não cabe mais nada por aqui.

Mas vou me desfazer de quê? Só guardo o necessário… Toda mulher merece ter, ao menos, um par de sapatos para cada dia do ano… O que o meu público (que me ama!) pensaria da Suzana, repetindo a mesma meia-calça mais de um dia?

E nem adianta a Hebe implicar com as minhas fotos de capa de Revista Contigo emolduradas em cristais, pele de chinchila e lantejoulas ao longo das paredes do corredor que leva às suítes… É inveeeja!

Obs: Lembrar o Roberval de gravar programa do Nelson Rubens.

22 de junho de 2011 – Sonhei que tinha me mudado. No sonho, Roderbal, recém chegado do 23º Registro de Imóveis do 2º tabelionato do Cairo, no Egito, me entregava a escritura, lavrada em meu nome, da Grande Pirâmide de Quenfrén, onde ele já derrubava as paredes de um dos saguões superiores, para caber a minha penteadeira.

Fiquei puta com o Roderbal! Preferia a Quéops, que dá sol da manhã, vista para a Esfinge e é muito maior! Lá ainda dava para sobrar um espaço para guardar a minha maquiagem! Acho que ele não gostou… Disse que compraria o Rio Nilo para mim…

- Bota lá seu ego, Dona Suzana… Se apertar, cabe!

Não entendi…

23 de junho de 2011 – Acordo e, ao me ver no espelho, começo a ter espasmos orgásticos oníricos… Não fosse a gravação da novela do Aguinaldo, me comia todinha ali mesmo. O vizinho interfonou reclamando dos gemidos… Respondi a ele com toda a classe e compostura que me é pertinente, mandando-o à puta que o pariu, porque eu não sou mulhérzinha de aturar desaforo de vizinho! Além do que, o público brasileiro M-E A-M-A!!

Sabe, fiquei encucada com o sonho do Egito… Pensei nele o resto do dia. O que era aquilo tudo, hein? Um sinal do Deus Rá para mim? Uma mensagem de Ramsés ou Osíris? Contatos com a minha vida passada: a Cleópatra. Gente… somos tão parecidas!

Obs: Lembrar Roberval da inscrição para a próxima Dança dos Famosos

24 de junho de 2011

11h00min AM – Acordo e vou direto à cozinha, tentando evitar o espelho. Não adianta, ele é que sai correndo atrás de mim. Quase me estupra em cima da mesa de centro.

Hoje vou ter de ir ao PROJAC de novo. Só vou por causa do Aguinaldo! Mas também…deve ser tão importante pra aqueles atores contracenar comigo… Melhor ir mesmo. Ah! E aquele personagem foi um preseeente… Vou ver se atraso um pouquinho para fazer um charme (a Vera vai ficar possessa de não ter tido a mesma ideia!)

11h00min PM – De noite fiquei vendo TV em casa. Não tem nada que preste na TV a Cabo à noite… Nem tem programa de auditório!! Depois querem dar educação ao povo… Mudei pra Rede TV.

OBS: Gente tô passada! O que era aquilo que a Luciana Gimenez vestiu no Superpop de hoje? Uma mulher desse porte, que subiu na vida pelo próprio talento… usando Gucci!? Coisa mais popular!

25 de junho – Nem dormi direito. Fiquei triste… Sabe, é nessas horas que a gente vê o quanto nós nos martirizamos por coisas tão passageiras, tão efêmeras, tão pequenas… Gente, coitada da Lu !!!!!!!

À tarde, fui para Sampa. A Hebe ficou lá em casa, tomando conta do Roderbal. Tive de fingir o tempo todo que não percebia que todo mundo ficava me notando no saguão do Santos-Dumont. Carioca da Zona Sul é besta! Nem me pede foto. É inveeeja!

Vou direto ao guichê da TAM e uma senhora – dessas já de idade avançada, sei lá uns 60 – tem o disparate de dizer que eu, como todo mundo, tinha de ir para o final da fila! Pode?

Olha…

Tem gente que não tem N-O-O-O-O-O-O-Ç-Ã-O!!!!

de Tonico Brasileiro

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