Oficina da Crônica

junho 30, 2011

CAÇA AO TESOURO

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:10 pm

Resolvi, certo dia, participar de uma caça ao tesouro. Minha primeira dica foi ter que estar presente numa terça feira, ás 16:30 em um determinado endereço do bairro do Flamengo. Só este nome já não me é animador, não sei por quê. Alguma coisa a ver com bola e homens suados… Sei lá. Ah, e também as gritarias e xingamentos no apartamento de cima. Euforia adolescente. A verdade é que flamengo me lembra domingos empijamados, regados a cerveja e muita baderna.
Na terça feira marcada lá estava eu e mais alguns participantes e entre eles um enigma. A próxima tarefa da brincadeira foi que cada um dos envolvidos levasse um texto. Esta etapa foi incrível por me ver premiada com tantas jóias preciosas que me levaram ao delírio pela riqueza literária. Este universo me fascina. A escrita. Amei, chorei, odiei, fiquei feliz e angustiada, apenas lendo. Ganhei um tesouro.
Mas minha surpresa veio atrasada. A galope, com pressa e intensidade. E veio ao mesmo tempo leve, fluida e fácil. Foi um texto que ficou no meio do caminho, sozinho lá no calendário. Coitado, pensei. Coitado nada! Tem que estar onde lhe pertence mesmo, por sua exclusividade. Ali pensei que aquela Laranjinha vinha como sobremesa especial de um banquete de fartura plena. Ali quis desfrutar, descascar, me deliciar e, com o perdão da palavra, chupar esta fruta até o caroço.
Quem era uma Laranjinha? Alguém me falou de um ser delicado, frágil e doce. Eu pensei em algo azedo, mas aquele azedo bom que faz doer lá perto da orelha. Pensei em um agente laranja, pesticida perigoso. Mas não! É claro que era uma destes figurões que colocam algum inocente a frente de suas falcatruas. Era isso. Alguém disfarçado de outro alguém. Figurão ou não, no pau da goiaba, era isso.
Investigo um pouco mais e me questiono se laranja é feminino ou masculino. Laranja me parece masculino, tenho duvidas. Mas Laranjinha é feminino e pronto. Assim como a maça é indubitavelmente uma formosa, linda e saborosa representante do sexo feminino, Isto já estava na bíblia.
A laranja é uma fruta desafiadora, exige destreza e instrumentos para ser desfrutada. Não é para qualquer um em qualquer lugar. E ainda por cima tem aquela casca meio chata, meio feia e muito amarga. Como será este alguém que se denuncia uma laranja. E por que escolheu este nome? Será que é só por que gosta da fruta ou foi a primeira coisa que viu quando teve que assinar o texto? Será um apelido de infância..?
Me envolvi neste enigma enquanto a busca pelo tesouro continuava. Vieram outras etapas e cada vez mais surpreendentes e gostosas. E a cada semana ganhei o maior premio da corrida. Ter o privilégio e a delícia de ter minhas noites embaladas por uma literatura rica, genial e exclusiva. Eu estava lendo, em primeira mão, textos fabulosos.
Fui cumprindo as tarefas enquanto tentava decifrar o meu enigmático amigo Laranjinha. Pois é, tornei-me amiga dele. Na verdade dela. Com certeza Dela. Fiquei solidária com a triste historia da cinderela que vira abobora. Seria sua filha? Me identifiquei. Talvez uma moça como eu na faixa dos trinta com filhos pequenos. Aliás, preciso com urgência contratar a branca de neve para a festa da minha pequena…
Pode ser que Laranjinha seja tia da cinderela e estivesse naquela festa aliada a trupe dos pais, louca por um copo, louca para fugir daquele inferno. Daquela realidade, que há muito ficou para trás. Mas ela usa uma linguagem despretensiosa, limpa, leve. Quase ingênua, mas madura o suficiente para já ter passado pela fatídica adolescência. Ela está na faixa dos trinta e se a cinderela não era sua filha era a amiguinha da filha, e Laranjinha estava lá naquela festa fazendo coro de berros irritados com as outras mães de plantão.
Minha amiga tem um olho em terra de cegos. Tem a serenidade e o equilíbrio de quem cresceu no inverso. De quem aprendeu pelo avesso. Tem o bom senso que cabe aos mutantes portadores da síndrome da inclusão patológica. Mas ainda assim não nega suas origens e faz dela sua riqueza.
Minha amiga tem filhos, trabalha, cuida da casa e talvez de algum bichinho de estimação. Faz dever de casa com filhos e jantar para o marido quando a empregada falta. Leva trabalho para casa, estuda, Lê e namora. Namora muito e também toma chopp por que ela sabe das coisas boas da vida. E sabe também das coisas ruins.
Esta semana acaba a busca ao tesouro. E tenho para mim que será mais uma semana de gratificantes premiações. Eu sei que para mim sim. Termino a busca ao tesouro com riquezas maiores do que imaginava encontrar. Termino a brincadeira convicta de vitoria. Certa de que tenho em minhas mãos, além de textos sublimes, muitas historias para contar. Sei que cada um terminará a brincadeira com o tesouro dos textos e mais algum tesouro de conquista pessoal. Sei que há tesouros de superação, motivação, conflitos e desafios. Cada um com seu cada qual.
E quem sabe mais um tesouro surpresa? Esta semana vou conhecer minha amiga Laranjinha. Quem sabe se desta brincadeira poderá nascer também tesouros de amizade?

Flora Zahra.

Quantas músicas você ainda quer ouvir?

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:09 pm

Estes dias pensei em Eduardo. Amigo de letras, lhe conheci em uma Oficina de Crônicas ali no Flamengo. Entre tantos novos amigos, Edu foi quem mais me chamou a atenção. Não tanto, pela deselegância com que se vestia, mas por outro motivo que muito me intrigava.
É certo que ele tinha um tipo meio hippie. Calças jeans e camisas de algodão surradas pelo tempo. No ombro, caído pelo peso dos anos e dos desenganos, carregava sempre uma bolsa onde guardava seus bens mais preciosos: lápis e papel. Seu cabelo, simetricamente desarrumado, combinava com seu estilo. Aquela coisa meio desleixada, meio rock anos 70. Entende? Para mim o retrato fiel de um sonhador. Daqueles que não se importam com o amanhã. Incompatível? Não! De maneira nenhuma! Um sonhador pode não se importar com o amanhã, desde que ele viva seu sonho hoje.
E assim era Eduardo. Barba sempre por fazer, olhos castanhos, que se fechavam sempre que sorria. Sobrancelhas grossas e um pequeno sinal deixado pela catapora acima de uma delas. Orelhas e nariz pequeno, onde repousavam dois finos aros, que lhe corrigiam o rumo, ou talvez os sonhos. Sentávamos lado a lado e embora fizesse o tipo “molambo”, Eduardo não passava um dia sem se perfumar. Não sei ao certo que cheiro era aquele, mas era o cheiro de Eduardo.
Seus textos eram ótimos, mas uma coisa me intrigava: ele tinha uma cisma com equilíbrios matemáticos. Sim. Ele saía às ruas e começava a fazer suas contas. Sentia-se incomodado se o número de copos de chope, não correspondessem ao número de bêbados, se a quantidade de livros não fosse suficiente para o número de leitores ou mesmo se a quantidade de antenas não correspondessem ao número de televisores. Todos estes desequilíbrios “sócio-báscaros”, o perturbavam ao ponto dele esmerar-se em resolver a equação. Chegou a beber um sem número de chopes para restabelecer o equilíbrio cósmico de um boteco.
Para minha surpresa, certo dia parei para pensar em todos os livros que quero ler e foi aí que lembrei-me de Eduardo. Tenho quarenta anos e talvez viva mais outros, com a ajuda de Deus. Em função de outras atividades menos importantes como comer, dormir, trabalhar… consigo ler uma média de 16 livros em um ano. Assim terei o privilégio de ler 640 livros, até o restante de minha existência. Acho pouco! Fiquei assustado com esta conclusão. Parei para pensar nos livros que li e não gostei. Um desperdício de tempo! Mas o que realmente me apavora são as trocas que eu posso ter feito. Imagine se eu não tivesse lido Dom Casmurro em troca de ler a biografia do Justin Bieber? O caso é sério e me preocupa. De hoje em diante serei muito seletivo nas escolhas, entretanto isso pode ser prejudicial ao meu objetivo. Caso eu demore a escolher um livro para ler, posso não alcançar a minha média anual e seria o mesmo que escolher um título errado.
Muito bem senhor Eduardo! Veja a enrascada que o senhor me colocou. E se de agora em diante eu começar a pensar em quantas músicas posso escutar ou tocar ao meu violão? Como vai ser? Ouço Beatles pela enésima vez, ou dou uma chance ao Coldplay? Escuto Arnaldo Antunes ou dou um tiro certo em um velho CD de Vinícius e Toquinho?
Considerando que uma música tem em média quatro minutos e que eu tenha a disponibilidade de ouvi-las uma hora por dia, que é o tempo que levo para ir e vir do trabalho, devo escolher entre 12 ou 13 por viagem, ou seja, um CD por dia. Sendo vinte e dois dias de labuta no mês, poderei ouvir 264 CDs por ano. Você acha muito? Só o Chico Buarque tem mais de 50. Para piorar ninguém ouve uma música e pronto. A gente ouve, ouve de novo e de novo… Porra Eduardo tu é foda!

Gomes Braga

Procura-se um namorado!

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 4:07 pm

Conheci a Flora três semanas atrás. Lembro que eu estava sentada, esperando pelo professor, quando ela entrou. Sem nenhum capricho, jogou a bolsa marrom numa cadeira e sentou na do lado. Eu,indiscreta e detalhista, reparei nos atos desengonçados da moça.
Além de desajeitada, a Flora é extrovertida. Antes do início do aula, ela aproximou-se de mim e foi logo se apresentando: “Oi, sou a Flora Zahra!”. Eu soube ali, olhando aquele sorriso simpático e reparando no brilho dos olhos grandes e pretos, que seríamos grandes amigas. “Prazer, sou a Menina do Balaio. Mas pode me chamar de Menina.”
Conversamos depois da aula, trocamos telefones, e-mails e combinamos de tomar um café juntas pra conversamos sobre o próximo seminário. Nos encontramos na livraria, no dia e no horário combinado. Não estudamos. Ficamos mais de três horas fofocando – ela me contou sobre seus problemas pessoais, sobre sua família, sobre seus namoros mal sucedidos e confessou ter desistido do amor.
“Mas o amor não é algo de que se desista”, pensei. Então, como toda boa amiga resolvi ajuda-la. Criei um projeto, montei planilhas e bolei estratégias. Acionei todos os meus amigos, familiares, vizinhos, porteiros e os ambulantes da rua. Estávamos todos unidos por um único objetivo: “PROCURAR UM NAMORADO PRA FLORA!”.
Comecei pela lista dos meus amigos solteiros. O Eduardo estava no topo dela – sempre foi o solteirão da turma, aquele nerd antissocial, um pouco magro e alto demais, usava óculos meio “fundo-de-garrafa” no tempo do colégio… Mas ele andou malhando e agora estava com lentes, digamos que ele ficou mais “jeitoso”.
- A Flora, Menina? Aquela que estava com você na livraria? – ele perguntou.
- Sim, a própria. Apresentei vocês, lembra?
- Lembro. Ah, mas ela tem o rosto meio assimétrico. Reparou como o olho direito é um pouco maior do que o esquerdo? A boca tem quase um formato de uma elipse achatada. Até que ela é bonita, mas não tem a razão áurea de proporcionalidade no corpo.
- Deixa de ser cruel, Eduardo! A Flora é linda e ainda tem qualidade não-enumeráveis.
- E você ainda insiste em apelar para o meu lado sentimental? Esqueceu que eu sou matemático?
- E matemáticos não tem sentimentos? Quem disse?! Deixa de ser um nerd-chato e solteirão. Vamos! Deixa eu marcar um encontro para vocês.
- CARAMBA! Já parou pra reparar que o nome “FLORA” é um anagrama de “FAROL”? Não, isso não é um bom sinal…
Aquele “caramba” dele me lembrou do “Eureka” do Arquimedes. Desliguei antes que ele começasse com as teorias infinitas. Ainda bem que não meti a minha amiga numa enrascada dessas… Imagina! Aguentar o Eduardo não é uma tarefa fácil.
Confesso que a Flora é exigente demais! Quando estávamos conversando sugeri o Gomes Braga, mas ela disse logo que não aguentaria pegar ônibus, metrô, trem e van para visita-lo. Mais um candidato descartado!
Apresentei para ela o Peregrino Viramundo. Deixei os dois conversando e saí para pegar um café. Sentei e peguei um livro para ler enquanto esperava por ela. Tomei um susto quando aquelas mãos geladas e brancas bateram no meu ombro.
- O que foi, amiga? Não gostou do Peregrino? – perguntei.
- Eu tava gostando, até que ele soltou uma cantada: “Oi. Você sabe quem sou?Sou o Imperador do mundo!”. Que pessoa mais infantil!
Não pude discordar. Ele era um pouco estranho mesmo.
A minha lista de opções estava acabando. Só haviam sobrado dois. Liguei primeiro pro Paulo Brandão, uma mulher atendeu: “Aqui é a esposa dele, gostaria de deixar recado?”. Tive que apelar pro golpe “marketing” usada pelas amantes: “Sou do jornal O Globo e gostaria de oferecer uma assinatura a preço de banana.” Ainda bem que ela não estava interessada e desligou na minha cara. “O Paulo casou e não me convidou. Que infeliz!”, pensei. Tentei ligar pro Victor Goes depois, mas só caia na secretária eletrônica.
Eu já estava desistindo quando meu telefone tocou. Era o Fernando. Sim, aquele mesmo, o Fernando Duarte Pazzini.
- Amor, nada! Eu já não disse que o que houve entre nós está acabado? Você é insistente demais, Fernando!
Ele veio me falar que estava carente, se sentindo sozinho, inútil, sem vontade de viver… Foi quando uma lampadazinha acendeu sobre minha cabeça.
- Fê, querido. Já sei como te ajudar. Vou te apresentar para uma amiga minha. Que tal um jantar amanhã? Você pode fechar aquele mesmo restaurante que a gente foi no Leblon. Te passo o nome, telefone e endereço dela por mensagem. Ela vai ficar te esperando. Não deixa de ligar, hein?
Ontem liguei pra Flora pra saber como tinha sido. Eu conseguia ouvir os barulhos dos coraçõezinhos saindo da voz dela.
- “Ai, amiga. Ele é romântico demais. Rico demais. Bonito demais. Perfeito demais… Estou apaixonada, obrigada.”
Problema resolvido! Eu consegui matar dois pombos com uma flechada (de cupido) só.

Menina do Balaio

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