Resolvi, certo dia, participar de uma caça ao tesouro. Minha primeira dica foi ter que estar presente numa terça feira, ás 16:30 em um determinado endereço do bairro do Flamengo. Só este nome já não me é animador, não sei por quê. Alguma coisa a ver com bola e homens suados… Sei lá. Ah, e também as gritarias e xingamentos no apartamento de cima. Euforia adolescente. A verdade é que flamengo me lembra domingos empijamados, regados a cerveja e muita baderna.
Na terça feira marcada lá estava eu e mais alguns participantes e entre eles um enigma. A próxima tarefa da brincadeira foi que cada um dos envolvidos levasse um texto. Esta etapa foi incrível por me ver premiada com tantas jóias preciosas que me levaram ao delírio pela riqueza literária. Este universo me fascina. A escrita. Amei, chorei, odiei, fiquei feliz e angustiada, apenas lendo. Ganhei um tesouro.
Mas minha surpresa veio atrasada. A galope, com pressa e intensidade. E veio ao mesmo tempo leve, fluida e fácil. Foi um texto que ficou no meio do caminho, sozinho lá no calendário. Coitado, pensei. Coitado nada! Tem que estar onde lhe pertence mesmo, por sua exclusividade. Ali pensei que aquela Laranjinha vinha como sobremesa especial de um banquete de fartura plena. Ali quis desfrutar, descascar, me deliciar e, com o perdão da palavra, chupar esta fruta até o caroço.
Quem era uma Laranjinha? Alguém me falou de um ser delicado, frágil e doce. Eu pensei em algo azedo, mas aquele azedo bom que faz doer lá perto da orelha. Pensei em um agente laranja, pesticida perigoso. Mas não! É claro que era uma destes figurões que colocam algum inocente a frente de suas falcatruas. Era isso. Alguém disfarçado de outro alguém. Figurão ou não, no pau da goiaba, era isso.
Investigo um pouco mais e me questiono se laranja é feminino ou masculino. Laranja me parece masculino, tenho duvidas. Mas Laranjinha é feminino e pronto. Assim como a maça é indubitavelmente uma formosa, linda e saborosa representante do sexo feminino, Isto já estava na bíblia.
A laranja é uma fruta desafiadora, exige destreza e instrumentos para ser desfrutada. Não é para qualquer um em qualquer lugar. E ainda por cima tem aquela casca meio chata, meio feia e muito amarga. Como será este alguém que se denuncia uma laranja. E por que escolheu este nome? Será que é só por que gosta da fruta ou foi a primeira coisa que viu quando teve que assinar o texto? Será um apelido de infância..?
Me envolvi neste enigma enquanto a busca pelo tesouro continuava. Vieram outras etapas e cada vez mais surpreendentes e gostosas. E a cada semana ganhei o maior premio da corrida. Ter o privilégio e a delícia de ter minhas noites embaladas por uma literatura rica, genial e exclusiva. Eu estava lendo, em primeira mão, textos fabulosos.
Fui cumprindo as tarefas enquanto tentava decifrar o meu enigmático amigo Laranjinha. Pois é, tornei-me amiga dele. Na verdade dela. Com certeza Dela. Fiquei solidária com a triste historia da cinderela que vira abobora. Seria sua filha? Me identifiquei. Talvez uma moça como eu na faixa dos trinta com filhos pequenos. Aliás, preciso com urgência contratar a branca de neve para a festa da minha pequena…
Pode ser que Laranjinha seja tia da cinderela e estivesse naquela festa aliada a trupe dos pais, louca por um copo, louca para fugir daquele inferno. Daquela realidade, que há muito ficou para trás. Mas ela usa uma linguagem despretensiosa, limpa, leve. Quase ingênua, mas madura o suficiente para já ter passado pela fatídica adolescência. Ela está na faixa dos trinta e se a cinderela não era sua filha era a amiguinha da filha, e Laranjinha estava lá naquela festa fazendo coro de berros irritados com as outras mães de plantão.
Minha amiga tem um olho em terra de cegos. Tem a serenidade e o equilíbrio de quem cresceu no inverso. De quem aprendeu pelo avesso. Tem o bom senso que cabe aos mutantes portadores da síndrome da inclusão patológica. Mas ainda assim não nega suas origens e faz dela sua riqueza.
Minha amiga tem filhos, trabalha, cuida da casa e talvez de algum bichinho de estimação. Faz dever de casa com filhos e jantar para o marido quando a empregada falta. Leva trabalho para casa, estuda, Lê e namora. Namora muito e também toma chopp por que ela sabe das coisas boas da vida. E sabe também das coisas ruins.
Esta semana acaba a busca ao tesouro. E tenho para mim que será mais uma semana de gratificantes premiações. Eu sei que para mim sim. Termino a busca ao tesouro com riquezas maiores do que imaginava encontrar. Termino a brincadeira convicta de vitoria. Certa de que tenho em minhas mãos, além de textos sublimes, muitas historias para contar. Sei que cada um terminará a brincadeira com o tesouro dos textos e mais algum tesouro de conquista pessoal. Sei que há tesouros de superação, motivação, conflitos e desafios. Cada um com seu cada qual.
E quem sabe mais um tesouro surpresa? Esta semana vou conhecer minha amiga Laranjinha. Quem sabe se desta brincadeira poderá nascer também tesouros de amizade?
Flora Zahra.