Estes dias pensei em Eduardo. Amigo de letras, lhe conheci em uma Oficina de Crônicas ali no Flamengo. Entre tantos novos amigos, Edu foi quem mais me chamou a atenção. Não tanto, pela deselegância com que se vestia, mas por outro motivo que muito me intrigava.
É certo que ele tinha um tipo meio hippie. Calças jeans e camisas de algodão surradas pelo tempo. No ombro, caído pelo peso dos anos e dos desenganos, carregava sempre uma bolsa onde guardava seus bens mais preciosos: lápis e papel. Seu cabelo, simetricamente desarrumado, combinava com seu estilo. Aquela coisa meio desleixada, meio rock anos 70. Entende? Para mim o retrato fiel de um sonhador. Daqueles que não se importam com o amanhã. Incompatível? Não! De maneira nenhuma! Um sonhador pode não se importar com o amanhã, desde que ele viva seu sonho hoje.
E assim era Eduardo. Barba sempre por fazer, olhos castanhos, que se fechavam sempre que sorria. Sobrancelhas grossas e um pequeno sinal deixado pela catapora acima de uma delas. Orelhas e nariz pequeno, onde repousavam dois finos aros, que lhe corrigiam o rumo, ou talvez os sonhos. Sentávamos lado a lado e embora fizesse o tipo “molambo”, Eduardo não passava um dia sem se perfumar. Não sei ao certo que cheiro era aquele, mas era o cheiro de Eduardo.
Seus textos eram ótimos, mas uma coisa me intrigava: ele tinha uma cisma com equilíbrios matemáticos. Sim. Ele saía às ruas e começava a fazer suas contas. Sentia-se incomodado se o número de copos de chope, não correspondessem ao número de bêbados, se a quantidade de livros não fosse suficiente para o número de leitores ou mesmo se a quantidade de antenas não correspondessem ao número de televisores. Todos estes desequilíbrios “sócio-báscaros”, o perturbavam ao ponto dele esmerar-se em resolver a equação. Chegou a beber um sem número de chopes para restabelecer o equilíbrio cósmico de um boteco.
Para minha surpresa, certo dia parei para pensar em todos os livros que quero ler e foi aí que lembrei-me de Eduardo. Tenho quarenta anos e talvez viva mais outros, com a ajuda de Deus. Em função de outras atividades menos importantes como comer, dormir, trabalhar… consigo ler uma média de 16 livros em um ano. Assim terei o privilégio de ler 640 livros, até o restante de minha existência. Acho pouco! Fiquei assustado com esta conclusão. Parei para pensar nos livros que li e não gostei. Um desperdício de tempo! Mas o que realmente me apavora são as trocas que eu posso ter feito. Imagine se eu não tivesse lido Dom Casmurro em troca de ler a biografia do Justin Bieber? O caso é sério e me preocupa. De hoje em diante serei muito seletivo nas escolhas, entretanto isso pode ser prejudicial ao meu objetivo. Caso eu demore a escolher um livro para ler, posso não alcançar a minha média anual e seria o mesmo que escolher um título errado.
Muito bem senhor Eduardo! Veja a enrascada que o senhor me colocou. E se de agora em diante eu começar a pensar em quantas músicas posso escutar ou tocar ao meu violão? Como vai ser? Ouço Beatles pela enésima vez, ou dou uma chance ao Coldplay? Escuto Arnaldo Antunes ou dou um tiro certo em um velho CD de Vinícius e Toquinho?
Considerando que uma música tem em média quatro minutos e que eu tenha a disponibilidade de ouvi-las uma hora por dia, que é o tempo que levo para ir e vir do trabalho, devo escolher entre 12 ou 13 por viagem, ou seja, um CD por dia. Sendo vinte e dois dias de labuta no mês, poderei ouvir 264 CDs por ano. Você acha muito? Só o Chico Buarque tem mais de 50. Para piorar ninguém ouve uma música e pronto. A gente ouve, ouve de novo e de novo… Porra Eduardo tu é foda!
Gomes Braga
“Imagine se eu não tivesse lido Dom Casmurro em troca de ler a biografia do Justin Bieber? ”
“Muito bem senhor Eduardo! Veja a enrascada que o senhor me colocou. ”
MUITO BOM! hahahahhaa
O Eduardo tá deixando todo mundo com manias matemáticas!
Trofeu Grafite de Ouro:
“Porra Eduardo tu é foda!”
Parabéns amigo Gomes Braga!
Menina do Balaio
p.s.: será que só eu estou sentindo um clima de despedida? Triste, não?
Comentário por Anônimo — junho 30, 2011 @ 9:19 pm |
Lógico que não vamos nos despedir assim. Vamos criar o projeto do blog prá turma, com um tema mensal ou semanal ou quinzenal e vamos continuar postando e comentando.
Comentário por cronicadasemana — junho 30, 2011 @ 11:44 pm |
Olá Gomes Braga,
Comentário por Ia Tan — junho 30, 2011 @ 11:37 pm |
Olá Gomes Braga, li sua crônica, entremeando, ao longo da leitura em voz alta, a expressão “muito bom!”…
Ao final, aplaudi a maravilha! Lindíssima! Obrigada por este presente de despedida!
Comentário por Ia Tan — junho 30, 2011 @ 11:39 pm |
Valeu Ia Tan.
Despedida nada. Vamos manter o CCSE “Clube de Cronistas Sem Editora”.
abs Gomes Braga
Comentário por cronicadasemana — junho 30, 2011 @ 11:42 pm |
AMEI o CCSE! =]
Poxa, Gomes Braga, se não bastasse já a minha ‘desconfiança’ você se entregou agora…
Esqueceu de “deslogar”, foi? =P (quase fiz isso outro dia)
Elementar, meu caro Watson!
Menina do Balaio
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 1:14 am
ADOREI!!!!!!!!!!!!
Só que fiz uma ideia muito diferente do Eduardo, rsrsrs. Acho que ficamos brincando de adivinhar quem é quem. O meu Eduardo é bem diferente fisicamente, mas de resto é uma sacada muito peculiar do cara. Inteligente e intrigante.
Abs, Flora.
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 12:26 am |
Putz que vacilada! Mas já improvisei. Só vc que percebeu. Agora só na terça. Boms, se vc sabe quem sou, não revele. kkkkk
Gomes Braga
Comentário por Gomes Braga — julho 1, 2011 @ 11:02 am |
Porra, Gomes Braga, tu também é foda!
Acho que o vírus tá se espalhando, ainda bem que sou imune às matemáticas e suas filigranas.Espero que o Eduardo incorpore as dicas de vestuário que você compôs pra ele.
Abração
Laranjinha
Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 4:19 am |
xiii, eu tb percebi Gomes Braga, mas nao vou contar…rs…gostei do texto e da ideia ” CCSE “…os calculos de DuDu realmente marcaram corações e presença….rs….até terça, gente! Com cachaça ou sem, no Armazém!hehehe
Sanfer
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 5:20 am |
O Eduardo e sua matemática pertubando todo mundo. hehe É uma das poucas crônicas em que foi feita uma descrição física do personagem. E ficou bem legal. Bastante afiado com detalhes a ponto de se preocupar em colocar cicatriz de catapora no Eduardo. Abraços!
Comentário por Peregrino VIramundo — julho 4, 2011 @ 8:27 pm |