Oficina da Crônica

julho 4, 2011

Sim, ela!

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 1:34 pm

Foi uma missão difícil. Tanto que numa semana tão cheia de atividades e burocracias, a tal missão quase se deu impossível pra mim. Mas Felipe lançou o desafio e eu tinha de aceita-lo: escolher um dos autores da oficina e criar para este uma crônica perfil.
Mas como? E quem? Foram tantas as descobertas nestas últimas semanas e parecia ainda haver tanto para se conhecer que de quem eu poderia traçar um perfil?Não tive mais sossego.
Pensei em falar do tom criativo e ousado das palavras de Tonico Brasileiro ou das confusões e confissões matemáticas de Eduardo. Também me lembrei da veia poética, política e ao mesmo tempo cômica de Paulo Brandão e da linha futurística e inventiva do Peregrino. Mas nada parecia me empolgar.
Me recordei do Fever que eu suspeito ter pego a mesma estradinha de terra de sua personagem, pois aqui não voltara mais. Tive vontade de falar da Flora, sobre suacoragem e descontração ao abordar iniciativa e quereres num relacionamento, mas daí cogitei também sobre a Laranjinha e toda sua escrita transparente e descritiva, irônica, eu diria. Era tanta boa opção que eu não conseguia definir.
Achei que seria uma boa sacada abordar o perfil enigmático de Victor Góes, com todos os seus peixes e flores nas entrelinhas. Mas não parava de pensar que também seria legal tratar do estilo observador e inusitado de Gomes Braga,de suas excêntricas caneladas e troféus. Ou da intensidade e expressividade da Ia Tan que quase denunciou o amigo. E olha que ainda tinha o tom reflexivo e transportador da Hortênsia.
Foi aí que percebi que desde o início, me chamou a atenção a tal da menina. Desconfio que ela não imaginara que a oficina viraria uma verdadeira caça ao tesouro quando escolheu este pseudônimo, porque eu – não sei dizer ainda como – descobri de primeira quem era ela. Sua voz se traduzia nas palavras de seu primeiro texto. Então estava pronto, estava decidido. Sim, ela! Era dela o perfil que eu deveria traçar. Era de sua linguagem original e descontraída.
Devo confessar que seu primeiro texto não me atraiu muito. Embora aquele dilema entre calorias e exercícios estivesse bem próximo do meu novo universo. Mas foi então que ela me apareceu com um tal de Fernando Duarte Pazzini, vulgo F.D.P, surpreendendo a todos pela sua criatividade e desenvoltura. As contradições entre querer e não poder de seu primeiro texto deramlugar a crítica debochada sobre um coração, que digamos, era apaixonado demais. E foi mesmo, demais! Vi nela atitude, um quê de menina prolixa.
Em uma de suas respostas aos comentários deste segundo escrito, ela disse que nessas semanas de oficina e interação, identificara grande melhora em suas criações. Eu acho que é puro charme. Esse talento certamente já estava aí. Pronto pra se revelar e nos causar surpresa e admiração. Suspeito até que seus próximos passos anunciarão novidades, coisa nova nas prateleiras, nas cabeceiras. Espontânea e cheia de ritmo. Do balaio essa menina!

Sanfer.

julho 2, 2011

SINAL DE BIFURCAÇÃO

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 8:20 pm

Passei os últimos dias medindo palavras, decodificando metáforas, olhares, conectando perfis, como se buscasse material para uma pesquisa: uma galeria de almas! O lirismo de um, a malícia de outro, o escracho daquele, a tristeza daquela. Entre sugestões cândidas e sacanas daquele outro, a galera da música! Aquela que se denuncia pelo olho. A que espera as flores. A que espera namorado ou a que oferece? Curiosidade enorme! Por cada um deles! Tão indecisa e embananada quanto pode uma laranjinha lembrei dele! Bem, sei que ele já estava lá quando cheguei. À primeira vista nada detectei de especial. Logo em seguida nos apresentamos: – Como cê chama?! Quanto pode um nome denunciar de uma alma? Ninguém carrega um nome em vão! Senti empatia no ar!
Aulas e conversas mais tarde as suspeitas começam a ter sentido: um olhar que acalenta mistérios, aponta descaminhos.Seu passatempo – me disse – é pesquisar temas controversos, tocar fundo na ferida, atropelar deuses. Seu rosto calmo promete alívio, seus modos só transtorno. Sincronia perfeita! Me disse, ainda, que desde menino sonha ser o Senhor dos Sete Mares, atravessar os tempos, navegar por mundos. Periga reabrir a Caixa de Pandora!
Padece da dor maior de saber-se pequeno e ínfimo, como um roedor qualquer, para carregar a alma do mundo… vasto mundo! Trapaceiro do cotidiano, embusteiro das quebradas , só levanta as sobrancelhas e voa alto: navega pelas eras ao sabor do desejo. Acaba de montar a Máquina do Tempo. Entrou pelo túnel. Peregrino das estrelas, me dá notícias de mim mesma. Me ensina a viajar, ser só , sem amarras e de todos os tempos.
Viramundo dribla a cronologia e a lógica. Já fizeram até um bolão pra descobrir sua idade! Parece se encaixar em qualquer uma!Boatos ouvidos por aqui dizem que seu pseudônimo é DG.(?) – Nooossa! Será esse o mistério ? Dorian Gray??!! Nãaao! A Flora falou que descobriu umas coisas sobre ele e que contaria na próxima reunião. Acho que ela ficou sabendo pelo Tunico Brasileiro. Disseram também que o Tunico tem a maior dor de cotovelo porque queria ser um cara viajado como o Viramundo. Mas tudo tem um preço, né? Falando em preço, ouvi dizer que a Dilma vai criar a Bolsa- Viagem! Só tava faltando essa! Todo mundo correndo pro aeroporto! Ah! Mas aposto que o Tunico nem ia querer. Com esse nome deve ser daqueles que só curte o que é local. Assinam TV a cabo só por causa do Canal Brasil.
Bem, de qualquer jeito acho que eu tô meio encanada pelo jeitão do Viramundo, confesso que ele tocou as várias instâncias da minha pessoa com seu toque de malandrão das galáxias. Mistério é pouco pra descrever esse cara. Aquele ali é um sinal de bifurcação onde esconde um deus, e um bruxo, às gargalhadas, tramando negócios, brindando trapaças. Ah! Mas ainda desviro o rumo dele! – Pelos poderes da minha casca – grossa!

Laranjinha

julho 1, 2011

Paulo Brandão

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:12 pm

Paulo é um amigo e tanto. Aliás, tem tudo a ver com o seu signo!… Bom, não sei de todos, mas Paulo é apaixonado no momento exato da paixão. Passado algum tempo, que pode ser de alguns dias ou até minutos, é capaz de desapaixonar-se com a mesma rapidez com que fez o contrário. Desde que ache uma boa razão para isso.

Houve um tempo em que aprendi que razão é o oposto de paixão! Será?

Certa época de nossas vidas, achei que eu é que estava apaixonada por Paulo. Que nada!… É que ele simbolizava o meu oposto. Às vezes, era eu mesma. Sei lá!…

Acho Antonieta uma heroína! Não deve ser fácil viver com alguém que quer sempre melhorar aquilo que faz. Que saco!… Quer dizer, depende né Antonieta?… Algumas coisas precisam ser melhoradas, e muito! Principalmente no casamento!…

Sabe? Paulo tem uma mania horrorosa de achar que precisamos tomar conta de tudo. Quantas vezes penso assim: “Preciso dar um basta nesta situação!…” Bobeira pura! É como se o planeta só fosse girar regularmente se eu e o Paulo estivéssemos segurando seus extremos. Somos muito bobinhos, não é?…

É que buscamos a perfeição, como se ela existisse. Veja como somos tolos! Nosso consolo é que há tolos famosos, como foi o Cazuza, que também achava que precisamos de uma ideologia: “Ideologia! Eu quero uma pra viver!…” Prá que? Quem tem, de verdade, uma ideologia pra viver?

Ah!… Mas também somos poetas! E quando a poesia toma conta da nossa alma, acabou-se tudo! Pode cair o planeta, a conta sumir, que não estamos nem aí! Gostou dessa? Talvez seja nosso melhor momento! Longe, bem longe da realidade que estamos sempre querendo consertar.

Muitas vezes tenho vontade de dizer ao Paulo: “Cara, chega de querer achar a razão das coisas! Vombora no bonde do mengão, que isso dá paixão! Vamos improvisar que isso ajuda a relaxar!

Mas é difícil!… Difícil, principalmente pra mim. Se me amo, amo o Paulo! Somos muito parecidos.

Na verdade, te admiro, cara! E ó!… Sempre que pensar em consertar o mundo, se precisar de ajuda, me chama, tá!

Ia Tan

Dois Pierre ao quadrado é poliedro para cateto, Eduardo!!

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:11 pm

Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?

Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.

Dudu é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.

É… Eduardo está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?

Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para Dudu, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”

Eduardo gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.

Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Dudu sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – a cor das calcinhas das moças… Dia desses uma delas, devotíssima de Santo Antônio, apaixonara-se e já falava em casório quando Dudu desvendou pela permutação de polinômios a cor da calçinha rosa furadinha dela… Olha, tinha tudo para dar certo; não fosse aquele cheiro de POLO…

Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se Eduardo tem cabeça de polinômio, tem coração de manteiga. Prova disso foi quando se sensibilizou com a atenção dispensada por um passageiro a um poético trapo vermelho em meio a uma confusão generalizada no vagão do metrô. Dudu também se emociona com os contrastes, com a estrada do sertão, com interlocuções poéticas, com a vista alaranjada da mureta da Urca e com as fábulas dos peixes, enfim, a Roda da Vida…

E por mais que pose de calculadora científica, Dudu-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.

Tonico Brasileiro

Peregrino Viramundo

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:07 pm

Peregrino Viramundo nunca se perdoou por ter nascido em Cabaceiras, aquele município perdido no semiárido paraibano. Não porque a cidade fosse pequena demais para os seus sonhos mas porque não se conformava com o fato de que Cabaceiras, além da ridícula taxa de produtividade alcançada no cultivo da macaxeira, ostentava o recorde de menor índice pluviométrico do pais. O que, segundo ele, não era verdade. Aquele estigma o indignava, e atribuía o fato a um erro cometido por um funcionário do IBGE, o qual, não acreditando no que via, inverteu os dígitos apresentados pelo pluviômetro no próprio ano de sua instalação. A partir daí, afirma o pároco local, a engenhoca foi empastelada por agricultores irados e o IBGE, oh! têmpora, oh! mores, passou a repetir o mesmo resultado ad perpetuam.

Peregrino Viramundo temia mumificar-se naquele lugar pela baixa umidade e, antes que isso se confirmasse, bandear-se-ia para outros mundos, em busca de um caldo cultural mais denso. Novas terras, novas gentes, novos ares. Novos sons, novos sabores, novos amores!

A bordo de um ônibus perfumado por jacas e jenipapos, Peregrino desembarcou no Recife. Matriculou-se no curso de direito. Hospedado na Casa do Estudante, no Derby, tornou-se freqüentador assíduo da Festa da Mocidade, no Parque 13 de Maio, e terminava suas noitadas sentado na balaustrada da Ponte Buarque de Macedo dissecando ossos imaginários de Augusto dos Anjos:

“Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esboroa…

A biblioteca da Universidade Federal de Pernambuco foi o seu cadinho de relíquias bibliográficas. Escritores coevos não lhe interessavam. Só demiurgos e demiurgos não se fazem mais em nossos dias. No colofão de um tratado de semiologia encontrou o caminho para outras obras que o cativariam no estudo dessa ciência. Dedicou-se com afinco e tornou-se professor na matéria, notabilizando-se por fabular os eventos dos quais participava e encantar seus alunos com hipotiposes. Sua heterotopia deu-lhe fama. E, com a fama, veio o tédio.

Não suportando mais a monotonia em que se metera ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria seus alunos com o assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.

A parataxia era evidente, e o incomodava. Viramundo precisava mudar. Tornar-se-ia um paguro e usufruiria de todos os benefícios que a nova vida lhe proporcionaria. Esta palingenia viria libertá-lo dos grilhões que ele mesmo se impusera. Procuraria o amor. O AMOR! Aleluia! Aleluia!

Procuraria o amor, onde quer que ele estivesse. Nos cabarés da Lapa, nos inferninhos do Leme, nas fraldas do Mangue, fosse onde fosse.

Vestiu seu melhor terno e escolheu a melhor gravata. Dirigiu-se ao aeroporto, tomou o primeiro avião e partiu em busca do AMOR. E foi aí que o palíndromo de seu desejo entrou em ação. Invertendo o objeto dos seus sonhos, inverteu o seu destino.

Desembarcou em ROMA. E foi pedir a benção ao Santo Padre.

Sentado ao pé de uma coluna da Praça de São Pedro, Peregrino exultou. Seus olhos se acenderam. Seu corpo ardeu. Em sua anástase ressurgiu de alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado como um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido, que ele tentava manter unido. A seus pés uma cártula indicava o seu destino. Sua dromomania faria o resto.

E Peregrino Viramundo pairou sobre todas as terras e sobre todos os mares para todo o sempre.

Eduardo

Colegas, antes que me escalpelem, explico:

Anástase = O despertar da alma; o ressurgir da morte; a existência da alma após a morte

Antropomórfico = Representação estilizada da figura humana

Bífido = Dividido em dois; desunido

Bolodório = Palavreado; conversa sem resultado prático

Cártula = Pergaminho usado na antiguidade para a inscrição de legendas

Coevo = Contemporâneo; coetâneo

Colofão = Referências sobre uma obra e indicações relativas à sua história nos manuscritos medievais

Demiurgo = Criador de obra grandiosa ou importante

Dromomania = Impulso incontrolável e mórbido de perambular, de viajar, especialmente de abandonar os lugares onde golpes emocionais foram sofridos

Excogitou = Imaginou; cogitou; pensou em…

Fabular = Dar o caráter de fábula

Heterotopia = Posicionamento diverso do normal ou habitual

Hipotipose = Descrição de uma cena em cores tão vivas que faz o leitor ter a sensação de que as presencia pessoalmente

Incunábulo = Livro impresso nos primeiros tempos da imprensa; obra rara litografada no tempo em que a sua técnica foi desenvolvida

Lutulento = Sujo, lamacento; que agride, que ofende

Mendaz = Mentiroso; falso; traiçoeiro

Paguro = Ermitão; eremita

Palíndromo = frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa

Palingenesia = Retorno à vida; renascimento; regeneração

Parataxia = Inadaptação emocional

Pernada = Rasteira; golpe

Piriricas = Que não tem modos; que vive saracoteando

Samango = Preguiçoso; indolente

Eduardo

Escritores na lupa: Sanfer

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:03 pm

Nascido em 1972, na cidade do Rio de Janeiro, Luis Sanferino da Silveira Neto, mais conhecido pelos seus fãs como Sanfer, nunca pensou que seria um escritor reconhecido. Ao ser demitido de seu emprego no McDonald, por ser pego comendo hamburguers no serviço, Sanfer se viu numa luta contra a sua obesidade, cada vez pior. Com 31 anos, pesava mais de 150 kg e não conseguia arranjar emprego. Acabou sendo obrigado a se mudar para o apartamento da irmã mais nova, Neide da Silveira Neto. Foi quando seu terapeuta, Felipe Pena, aconselhou que começasse a escrever como forma de evitar a ansiedade. Foi o início de uma promissora carreira. Seu terapeuta, surpreso com a qualidade dos contos, os levou para uma amiga editora, que quis logo falar com aquele novo talento. O resultado foi o primeiro livro: (in)voluntário e outros contos, sucesso de crítica e público. E nós tivemos o prazer de entrevistar essa revelação da nossa literatura! Veja como foi a seguir e não deixe de comentar.

Entrevistador: Sanfer, é verdade que você nunca pensou em escrever antes?
Sanfer: Ih, nunca! Quer dizer, eu escrevia até algumas palavras para mim. Como sempre, fui um garoto gordinho, por isso ficava meio difícil acompanhar, digamos… as brincadeiras mais agitadas dos colegas. Então, colocava palavras no papel, único exercício que eu fazia sem suar. Suava só o cérebro, no máximo. Nem isso. Mas não imaginava escrever como profissão.

E: Mas sempre gostou de ler?
S: Sempre, principalmente revista de culinária (risos).

E: Pode citar algum livro que te marcou?
S: Caio Fernando Abreu, o Sentimento do Mundo de Drummond, Nelson Rodrigues.

E: Carpinejar?
S: Capim o quê? (risos)

E: Muitos comparam o seu estilo com o dele.
S: Pois é. Mas juro para você, fui conhecer o Carpinejar só agora. É, acho que temos a ver sim, essa coisa da metáfora, né. Mas… não sei… Ele é muito bom. Gosto muito dele, o apreço que tem pelo inusitado do comum combina comigo.

E: E o amor é uma temática forte em sua literatura, você é um homem apaixonado?
S: Eu costumo dizer que meu coração não está entupido de colesterol, mas com paixão. (risos). Sou romântico sim, mas paro por aí. Imaginar é só o que eu posso, porque em prática mesmo a fêmea com quem eu tenho mais contato é a poodle lá de casa, Naná. Frequentemente eu me deparo com olhar desapontado de alguma fã quando apareço com minhas camisas feitas sob medida (melhor, sob escala). E nem adianta falar que eu perdi 50 quilos nesse mês. A pessoa olha e diz, sem emoção: To vendo…

E: Falando nisso, como vai a luta contra o peso?
S: Nem pergunte! Perdi 50, ganhei 60. Mas a culpa é das festas de lançamento do livro.

E: Não está sendo um livro diet.
S: Não está. (risos) Mas é bom. Eu me sino muito melhor agora. Mais bem comigo mesmo. Anos atrás eu faria de tudo para ser o funcionário do mês do McDonald e aparecer numa foto, dessas que ficam no altar de uma lanchonete, para todo mundo ver. Estou bem melhor agora, com certeza.

E: Agora, para terminar. Muita gente pensa que Sanfer é uma mulher, como você vê isso? Você acha que consegue captar os sentimentos femininos?
S: Isso é sério?! (risos) Nossa, agora eu entendo porque na livraria uma moça me disse: “Poxa, você escreveu esse livro grávida?! Meus parabéns! Eu não conseguiria nem sair da cama.” Na hora, encarei isso como um elogio estranho. Falei obrigado e que tinha escrito na cama mesmo. Não dei bola. Mas caramba… se eu capto sentimentos femininos… pergunta complicada. Faço outra: Será que existe o propriamente feminino? Para mim homem e mulher só não se entendem porque não querem. Muito do que escrevo é inspirado pela minha irmã. Ela às vezes chega chorando, quando eu estou montando um sanduíche desses medidos em metros. Daí largo tudo, pego o meu bloco de notas que sei que vai vir coisa boa. Vai ver essa é a fonte do feminino (risos) Mas a verdade é que homens e mulheres sentem a mesma coisa, só não admitem.

Por Peregrino Viramundo

Mais uma vez aqui

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:02 pm

Mais uma vez na estação
Mais uma vez, era o primeiro a chegar. Carioca é relaxado mesmo, nunca chega na hora! Marquei na estação da Carioca pra facilitar a vida de todos, mas já fazia 20 minutos que estava ali olhando o vai-e-vem dos trens e nada dos amigos. Ah! Finalmente. Lá vem ele. Como sempre, caminha com ares de quem não precisa da opinião dos outros pra existir. Se perguntar em que ele pensa enquanto caminha, vai dizer “Sei, lá. Penso em nada, não.” Mas eu posso apostar que ele pensa na Urca. A Urca é música para ele.
“E aí, cara, tá há muito tempo aqui?”, pergunta Tonico. “Não, acabei de chegar.”, respondo. “Pô, não sabia o que trazer. Pensei na ocasião. Sei lá…” O Tonico é meio inseguro quando a gente tá desenvolvendo um trabalho. Nunca tá satisfeito com o ensaio e coisa e tal. Mas o resultado é sempre satisfatório e, no fim, ele relaxa. “O pessoal pediu. Vai ser divertido. O que você trouxe?”, perguntei. “Vim com o Di Giorgio mesmo. Pra improvisar é o melhor. E você? Trouxe a case?” “Não, trouxe duas. Uma em C e outra em A. É uma coisinha simples, só pra animar o pessoal.”, dizia enquanto dava uns tapinhas no bolso da camisa, indicando onde estavam. Partimos daquela estação para outra, mas, como estava cedo ainda pro nosso compromisso, fizemos uma paradinha no bar, porque ninguém é de ferro.
Na primeira cerva, o telefone toca. Era o Eduardo avisando que ia se atrasar um pouquinho. Coisa de família. “Pô, o Duda parece que sente o cheiro da cerveja de longe, né?” o Tonico começou. O Eduardo era assim mesmo. Qualquer motivo era motivo pra abrir uma geladinha (sem trocadilhos). Não lembra aquela história de contrastar cabeças com copos? Aquilo ali foi pura malandragem dele. “Gente boa, camarada, mas todo enrolado, né?”, comentou o Tonico. “Pô, bota enrolado nisso! Por isso que a mulher dele reclama tanto.” “Também, o cara inventa cada despropósito. Lembra da última festa? Lá pelas tantas. Cheio de uísque na ideia…” “Porra! Se lembro! O Braga tava lá também, não tava?” “Tava, tava. E o Duda, depois de contabilizar os copos da mesa, começou a contabilizar a quantidade de livros na estante!” Aquela lembrança me fez largar um “Pu-ta-que-pa-riu!!!”, entre gargalhadas. Só mesmo o Duda com sua síndrome da máquina de calcular poderia ter feito um negócio desses.
Estávamos na terceira garrafa quando o Braga chegou. “”Caramba! Cês já tão na terceira? Por isso essa animação toda!”, foi falando enquanto puxava uma cadeira. “Pô, a gente tava lembrando daquela festa na casa do Paulo, lembra?” “Porra! Se lembro. Aquilo me rendeu um problema com a Angela. Ela cismou com a Olívia!” “A Olívia não é aquela que se perdeu jogando Atari?” “Que Atari o quê, Tonico! Era Play Station III. E ela tava com o Tan Tan, meu filho” falei, enquanto abríamos outra cerveja. Íamos bebendo e lembrando das histórias.
A certa altura, o Braga, muito articulado e perfeccionista, quis saber se estava tudo certo pra logo mais. “Da minha parte, sim.”, respondi. “Eu trouxe o meu companheiro.”, Tonico falava enquanto apontava pro Di Giorgio. O Braga tava com o instrumento dele apoiado em uma das cadeiras. Um violão velhinho, mas de cordas novas, que ele só usava de vez em quando. Tinha ensaiado bastante e estava meio nervoso. Ele é assim mesmo. Fica muito preocupado com as coisas. Tá sempre olhando entorno e refletindo sobre os contrastes sociais. Por conta disso, às vezes, adquire um olhar triste, mas é uma pessoa bem extrovertida e de um humor irônico que me agrada.
“Caramba! Pede a saideira que já tá na hora.” gritou o Tonico. Saideira, sim, meus caros, porque carioca de verdade não levanta sem a saidera. E não pode ser uma pra todos, tem que ser pelo menos uma por cabeça, senão o Eduardo pira. O Braga, mais centrado do grupo, alertou pro compromisso, mas eu já tava na sétima cerva e fiz coro com o Tonico. Só fechamos a conta por insistência do Braga. Se o Duda tivesse ido, na hora de coçar o bolso teria dito: “‘Subtrai 3 do Braga, duas de mim, fecha por 4, acrescenta 10% e …” Mas cada um botou 20 na mesa e fomos embora.
Mais uma vez voltamos à Estação. Dessa vez para tocar com os amigos a frase que prometi, tomar a cachaça e rir muito com as histórias tão saborosas como uma boa cerveja.

Paulo Brandão

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