Peregrino Viramundo nunca se perdoou por ter nascido em Cabaceiras, aquele município perdido no semiárido paraibano. Não porque a cidade fosse pequena demais para os seus sonhos mas porque não se conformava com o fato de que Cabaceiras, além da ridícula taxa de produtividade alcançada no cultivo da macaxeira, ostentava o recorde de menor índice pluviométrico do pais. O que, segundo ele, não era verdade. Aquele estigma o indignava, e atribuía o fato a um erro cometido por um funcionário do IBGE, o qual, não acreditando no que via, inverteu os dígitos apresentados pelo pluviômetro no próprio ano de sua instalação. A partir daí, afirma o pároco local, a engenhoca foi empastelada por agricultores irados e o IBGE, oh! têmpora, oh! mores, passou a repetir o mesmo resultado ad perpetuam.
Peregrino Viramundo temia mumificar-se naquele lugar pela baixa umidade e, antes que isso se confirmasse, bandear-se-ia para outros mundos, em busca de um caldo cultural mais denso. Novas terras, novas gentes, novos ares. Novos sons, novos sabores, novos amores!
A bordo de um ônibus perfumado por jacas e jenipapos, Peregrino desembarcou no Recife. Matriculou-se no curso de direito. Hospedado na Casa do Estudante, no Derby, tornou-se freqüentador assíduo da Festa da Mocidade, no Parque 13 de Maio, e terminava suas noitadas sentado na balaustrada da Ponte Buarque de Macedo dissecando ossos imaginários de Augusto dos Anjos:
“Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esboroa…
A biblioteca da Universidade Federal de Pernambuco foi o seu cadinho de relíquias bibliográficas. Escritores coevos não lhe interessavam. Só demiurgos e demiurgos não se fazem mais em nossos dias. No colofão de um tratado de semiologia encontrou o caminho para outras obras que o cativariam no estudo dessa ciência. Dedicou-se com afinco e tornou-se professor na matéria, notabilizando-se por fabular os eventos dos quais participava e encantar seus alunos com hipotiposes. Sua heterotopia deu-lhe fama. E, com a fama, veio o tédio.
Não suportando mais a monotonia em que se metera ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria seus alunos com o assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.
A parataxia era evidente, e o incomodava. Viramundo precisava mudar. Tornar-se-ia um paguro e usufruiria de todos os benefícios que a nova vida lhe proporcionaria. Esta palingenia viria libertá-lo dos grilhões que ele mesmo se impusera. Procuraria o amor. O AMOR! Aleluia! Aleluia!
Procuraria o amor, onde quer que ele estivesse. Nos cabarés da Lapa, nos inferninhos do Leme, nas fraldas do Mangue, fosse onde fosse.
Vestiu seu melhor terno e escolheu a melhor gravata. Dirigiu-se ao aeroporto, tomou o primeiro avião e partiu em busca do AMOR. E foi aí que o palíndromo de seu desejo entrou em ação. Invertendo o objeto dos seus sonhos, inverteu o seu destino.
Desembarcou em ROMA. E foi pedir a benção ao Santo Padre.
Sentado ao pé de uma coluna da Praça de São Pedro, Peregrino exultou. Seus olhos se acenderam. Seu corpo ardeu. Em sua anástase ressurgiu de alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado como um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido, que ele tentava manter unido. A seus pés uma cártula indicava o seu destino. Sua dromomania faria o resto.
E Peregrino Viramundo pairou sobre todas as terras e sobre todos os mares para todo o sempre.
Eduardo
Colegas, antes que me escalpelem, explico:
Anástase = O despertar da alma; o ressurgir da morte; a existência da alma após a morte
Antropomórfico = Representação estilizada da figura humana
Bífido = Dividido em dois; desunido
Bolodório = Palavreado; conversa sem resultado prático
Cártula = Pergaminho usado na antiguidade para a inscrição de legendas
Coevo = Contemporâneo; coetâneo
Colofão = Referências sobre uma obra e indicações relativas à sua história nos manuscritos medievais
Demiurgo = Criador de obra grandiosa ou importante
Dromomania = Impulso incontrolável e mórbido de perambular, de viajar, especialmente de abandonar os lugares onde golpes emocionais foram sofridos
Excogitou = Imaginou; cogitou; pensou em…
Fabular = Dar o caráter de fábula
Heterotopia = Posicionamento diverso do normal ou habitual
Hipotipose = Descrição de uma cena em cores tão vivas que faz o leitor ter a sensação de que as presencia pessoalmente
Incunábulo = Livro impresso nos primeiros tempos da imprensa; obra rara litografada no tempo em que a sua técnica foi desenvolvida
Lutulento = Sujo, lamacento; que agride, que ofende
Mendaz = Mentiroso; falso; traiçoeiro
Paguro = Ermitão; eremita
Palíndromo = frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa
Palingenesia = Retorno à vida; renascimento; regeneração
Parataxia = Inadaptação emocional
Pernada = Rasteira; golpe
Piriricas = Que não tem modos; que vive saracoteando
Samango = Preguiçoso; indolente
Eduardo