Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?
Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.
Dudu é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.
É… Eduardo está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?
Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para Dudu, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”
Eduardo gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.
Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Dudu sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – a cor das calcinhas das moças… Dia desses uma delas, devotíssima de Santo Antônio, apaixonara-se e já falava em casório quando Dudu desvendou pela permutação de polinômios a cor da calçinha rosa furadinha dela… Olha, tinha tudo para dar certo; não fosse aquele cheiro de POLO…
Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se Eduardo tem cabeça de polinômio, tem coração de manteiga. Prova disso foi quando se sensibilizou com a atenção dispensada por um passageiro a um poético trapo vermelho em meio a uma confusão generalizada no vagão do metrô. Dudu também se emociona com os contrastes, com a estrada do sertão, com interlocuções poéticas, com a vista alaranjada da mureta da Urca e com as fábulas dos peixes, enfim, a Roda da Vida…
E por mais que pose de calculadora científica, Dudu-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.
Tonico Brasileiro
CARAMBA! Demais, Tonico!
=D
” É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.” Genial!
Parabéns!
Menina do Balaio
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 3:26 pm |
Obrigado pelo comentário Sr Balaio.
Tb gostei da sacada na última frase. Aliás ela me salvou aos 47 do segun do tempo , visto q precisei escrever dessa vez a toque de caixa no final da noite de quinta..p ter uma ideia do sufoco enviei o email às 23:57 hehe
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 2, 2011 @ 2:09 am |
Gostei muito. Colocou a complexidade exata que reflete a mente do eduardo. parabéns.
Flora.
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 6:38 pm |
Pois é… As manias do Eduardo são perfeitas p uma bom perfil caricato. Tinha que virar crônica mesmo.
Aliás, Flora, por pouco não foram as suas rsrs
Obrigado
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 2, 2011 @ 2:04 am |
Ainda pode fazer, hahahaha. Vou adorar ter uma cronica com seu talento.
Abs.
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 12:19 am
Inveeeeja…… cara muuuuuuito boa. vc estavam guardando as melhores crônicas pro final ou realmente melhoramos?
“Para Dudu, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico”
Gomes Braga
Comentário por Gomes Braga — julho 1, 2011 @ 10:32 pm |
O caminho é só de ida e sempre avante…. Com certeza todos nós evluímos nessas 4 semanas! Mas tb não precisa acabar por aqui…
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 3, 2011 @ 12:56 am |
Tonico (Tunico pra mim, ta?)
Sabia que tu era bom de bola! Teu nome ja é um compromisso, ne? Só o título já arrasou. Conseguiu sintonizar detalhes de vários perfis ao retrato do seu personagem com encaixe perfeito e humor.
Adorei o poster do Descartes nu!
Gooooll … de TUnico!!
Abraçoss
laranjinha
Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 2:30 pm |
Pois é Laranjita,
Tenho procurado dar muito mais atenção a algo que antes não dava: os títulos… Taí uma boa sugestão p todos. O título é literalmente a porta e o ingresso de entrada
Até terça !
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 3, 2011 @ 1:13 am |
Não é POLO, Tonico ! É ZEGNA “Extreme”
Dudu
Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 8:35 pm |
Fala, dudu! Cheiros a parte, quais as probabilidades de um bom chop na terça? Prometo que te ajudo a contar os copos !
Tunico Brasileiro (gostei do U, Laranjinha!)
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 3, 2011 @ 1:56 am |
Tonico Brasileiro me lembra Antonio Carlos Jobim Brasileiro!
Porque será?…
Arte extrema? Sensibilidade aguçada? Inteligência nata e cultivada?
Poemas líricos?
Parabéns! Obrigada pelos belos presentes que vc me ofereceu nesta
temporada.
Comentário por Ia Tan — julho 3, 2011 @ 1:16 am |
Quanto carinho, Ia Tan!! Muito obrigado! “Minha alma canta” ao ler a gentileza de sua comparação…Pode estar certa de que suas narrativas perspicazes e criativamente sensíveis tb me presentearam por esses dias.
Até terça
Tonico Brasileiro
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 3, 2011 @ 2:05 am |
Tonicooo, que texto fantástico! Este desfecho aí então…
Olha, acho que já descobri quem você é!rsrsrsrs…
Abraços,
Sanfer.
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 4:57 am |
poi é, taí uma boa prova de que nós sempre.devemos deixar as palavras irem nos dwscobrindo naturalmente… Os desfecho meio.que surgiu do além qdo estava terminando a cronica. Bom saber q funcionou assim!
Será q vc sabe a identidade secreta ,mesmo ? Bem, eu já sei a sua, mas nem te conto agora…
Até o dia do último capítulo!
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 5, 2011 @ 12:30 am |
Tonico,
seu texto é divertido, dinâmico e poético em algumas passagens. Fico feliz d comártilhar esse espaço com pessoas como vcs. Brilhantei o primeiro parágrafo. Mt boa a forma de começar já introduzindo a personalidade do personagem. E o diálogo com outros textos, tb casou mt bem. Parabéns!
“Prova disso foi quando se sensibilizou com a atenção dispensada por um passageiro a um poético trapo vermelho em meio a uma confusão generalizada no vagão do metrô. Dudu também se emociona com os contrastes, com a estrada do sertão, com interlocuções poéticas, com a vista alaranjada da mureta da Urca e com as fábulas dos peixes, enfim, a Roda da Vida…”
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:40 pm |
Obrigado , Paulo!
P mim tb é uma gde oportunidade de crescimento compartilhar com vc e com essa rica produção de todos.. Vamos ver se damos continuidade, então !
Abraços
Tonico
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 5, 2011 @ 12:36 am |
Começar com um problema nosense foi uma ótima ideia! Qualquer um fica intrigado. E a escolha de palavras da matemática e de palavras que parecem da matemática foi perfeita. O melhor é a constante de pingúcius! hehe A parte tb q fala que o Eduardo resolveu fixar residência no conjunto dos reais é ótima.
E ainda tem uma homenagem aos outros personagens da oficina! Parabéns!
Comentário por Peregrino VIramundo — julho 4, 2011 @ 5:59 pm |
É isso q dá meus anos de cursinho p concursos com aqueles probleminhas de raciocínio lógico que beiravam as raias do absurdo…
Isso é o mais legal da crônica. Muitas vezes terminamos evocando e tomando emprestado situações de nossa vida e de nosso passado q nem mais lembraríamos, nao fosse a criação do texto… O que isso quer dizer? Qdo percebe,os situações corriqueiras e cotidianas de nossa vida terminam por se transformar an os maos tarde em espressões artísticas… Em outras palavras, nossa vida é o inssumo do nosso texto. A vida é a pauta do cronista
!!!!!!!!!!
Comentário por Tonico Brasileiro — julho 5, 2011 @ 12:45 am |