Mais uma vez na estação
Mais uma vez, era o primeiro a chegar. Carioca é relaxado mesmo, nunca chega na hora! Marquei na estação da Carioca pra facilitar a vida de todos, mas já fazia 20 minutos que estava ali olhando o vai-e-vem dos trens e nada dos amigos. Ah! Finalmente. Lá vem ele. Como sempre, caminha com ares de quem não precisa da opinião dos outros pra existir. Se perguntar em que ele pensa enquanto caminha, vai dizer “Sei, lá. Penso em nada, não.” Mas eu posso apostar que ele pensa na Urca. A Urca é música para ele.
“E aí, cara, tá há muito tempo aqui?”, pergunta Tonico. “Não, acabei de chegar.”, respondo. “Pô, não sabia o que trazer. Pensei na ocasião. Sei lá…” O Tonico é meio inseguro quando a gente tá desenvolvendo um trabalho. Nunca tá satisfeito com o ensaio e coisa e tal. Mas o resultado é sempre satisfatório e, no fim, ele relaxa. “O pessoal pediu. Vai ser divertido. O que você trouxe?”, perguntei. “Vim com o Di Giorgio mesmo. Pra improvisar é o melhor. E você? Trouxe a case?” “Não, trouxe duas. Uma em C e outra em A. É uma coisinha simples, só pra animar o pessoal.”, dizia enquanto dava uns tapinhas no bolso da camisa, indicando onde estavam. Partimos daquela estação para outra, mas, como estava cedo ainda pro nosso compromisso, fizemos uma paradinha no bar, porque ninguém é de ferro.
Na primeira cerva, o telefone toca. Era o Eduardo avisando que ia se atrasar um pouquinho. Coisa de família. “Pô, o Duda parece que sente o cheiro da cerveja de longe, né?” o Tonico começou. O Eduardo era assim mesmo. Qualquer motivo era motivo pra abrir uma geladinha (sem trocadilhos). Não lembra aquela história de contrastar cabeças com copos? Aquilo ali foi pura malandragem dele. “Gente boa, camarada, mas todo enrolado, né?”, comentou o Tonico. “Pô, bota enrolado nisso! Por isso que a mulher dele reclama tanto.” “Também, o cara inventa cada despropósito. Lembra da última festa? Lá pelas tantas. Cheio de uísque na ideia…” “Porra! Se lembro! O Braga tava lá também, não tava?” “Tava, tava. E o Duda, depois de contabilizar os copos da mesa, começou a contabilizar a quantidade de livros na estante!” Aquela lembrança me fez largar um “Pu-ta-que-pa-riu!!!”, entre gargalhadas. Só mesmo o Duda com sua síndrome da máquina de calcular poderia ter feito um negócio desses.
Estávamos na terceira garrafa quando o Braga chegou. “”Caramba! Cês já tão na terceira? Por isso essa animação toda!”, foi falando enquanto puxava uma cadeira. “Pô, a gente tava lembrando daquela festa na casa do Paulo, lembra?” “Porra! Se lembro. Aquilo me rendeu um problema com a Angela. Ela cismou com a Olívia!” “A Olívia não é aquela que se perdeu jogando Atari?” “Que Atari o quê, Tonico! Era Play Station III. E ela tava com o Tan Tan, meu filho” falei, enquanto abríamos outra cerveja. Íamos bebendo e lembrando das histórias.
A certa altura, o Braga, muito articulado e perfeccionista, quis saber se estava tudo certo pra logo mais. “Da minha parte, sim.”, respondi. “Eu trouxe o meu companheiro.”, Tonico falava enquanto apontava pro Di Giorgio. O Braga tava com o instrumento dele apoiado em uma das cadeiras. Um violão velhinho, mas de cordas novas, que ele só usava de vez em quando. Tinha ensaiado bastante e estava meio nervoso. Ele é assim mesmo. Fica muito preocupado com as coisas. Tá sempre olhando entorno e refletindo sobre os contrastes sociais. Por conta disso, às vezes, adquire um olhar triste, mas é uma pessoa bem extrovertida e de um humor irônico que me agrada.
“Caramba! Pede a saideira que já tá na hora.” gritou o Tonico. Saideira, sim, meus caros, porque carioca de verdade não levanta sem a saidera. E não pode ser uma pra todos, tem que ser pelo menos uma por cabeça, senão o Eduardo pira. O Braga, mais centrado do grupo, alertou pro compromisso, mas eu já tava na sétima cerva e fiz coro com o Tonico. Só fechamos a conta por insistência do Braga. Se o Duda tivesse ido, na hora de coçar o bolso teria dito: “‘Subtrai 3 do Braga, duas de mim, fecha por 4, acrescenta 10% e …” Mas cada um botou 20 na mesa e fomos embora.
Mais uma vez voltamos à Estação. Dessa vez para tocar com os amigos a frase que prometi, tomar a cachaça e rir muito com as histórias tão saborosas como uma boa cerveja.
Paulo Brandão
Bem descontraido e sagaz. Adorei as referncias as crônicas de Tonico e Gomes Braga. Gostei muito.
Abs, Flora.
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 7:06 pm |
Obrigado Folra, Pensei em fazer uma brincadeira, uma reunião com o pessoal mesmo. Fico feliz q tenha fostado.
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:11 pm |
Paulo,
Muito boa a sua ideia de fazer um perfil coletivo. O texto ficou muito divertido.
Creio que todos vão se sentir unidos numa patota descontraida onde se poderá dar boas risadas.
Você já escolheu o “templo” onde faremos a primeira reunião? Até lá.
Eduardo
Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 8:42 pm |
Pois é Eduardo, parece q vc bombou nas crônicas de quase todos. Figurinha popular e divertida. A ideia foi essa mesmo. Até pq, lendo os textos, me senti num grupo de amigos. Cada semana melhora e o desafio foi bem instigante. Fui escrevendo e foi saindo, depois tive que cortar e, inclusive mudar o título. Pena que ele saiu como parte do texto. Não sei se deu pra entender q a primeira frase é o título, alterado. Qnto a reunião, se tiver música e cerveja, estarei lá. Brincadeirinha, bastam os amigos, não é mesmo?. Te vejo na terça.
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:19 pm |
HAHAHAHA Ri muito!
Que venham as cervejas e a cachaça!!!
Menina do Balaio
Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 12:41 am |
Tb me diverti mt fazendo. Quando fui ver, já tinham 3 pgs e tive q sair cortando e ajustando. Pois é, menina, q venham as cervejas, as cachaças, os amigos e a música…
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:21 pm |
Cara, me senti nesse boteco aí. Muito bom.
“Se o Duda tivesse ido, na hora de coçar o bolso teria dito: “‘Subtrai 3 do Braga, duas de mim, fecha por 4, acrescenta 10% e …” Mas cada um botou 20 na mesa e fomos embora.”
Que tal no Armazém, depois da última aula? Todo mundo lá!
abs
Comentário por Gomes Braga — julho 2, 2011 @ 10:46 am |
Pois é Braga, vc realmente estava nesse boteco e o Tonico tb. Esse é o mistério e a mágica da literatura, não é mesmo? Podemos fazer td e, depois, td diferente. Pra mim tá ótimo, só não tô sabendo qual é o Armazém. Mas a gaitinha tá aqui no bolso. Valeu!
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:25 pm |
Paulo, também senti o clima de um boteco. A fofoquinha leve tão no estilo macho( fofoca de homem é contar o quanto o outro bebeu demais).A passagem do tempo também muito bem marcada entre uma cerveja e a conversa fiada. Gostei muito e destaco : “Ah! Finalmente. Lá vem ele. Como sempre, caminha com ares de quem não precisa da opinião dos outros pra existir” Idem a citação do Gomes Braga acima.
Parabéns!!abraços
laranjinha
Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 2:55 pm |
Pois é Laranjinha, imaginei o Tonico assim mesmo, cara leve, descontraído e com uma verve musial. Acho q o boteco é o lugar mais evidente pra bate papo de “macho” mesmo. Agradeço os comentários. Nos vemos no boteco, então, quem sabe a laranja não mistura com a cachaça?
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:29 pm |
Puxa, Paulo! Fiquei triste! Porque não me incluiram nesta turma da fofoca
no bar? Era “clube do bolinha” ou o quê?
Excelente a ideia de reunião do grupo!
Parabéns!… mais uma vez!…
Comentário por Ia Tan — julho 3, 2011 @ 12:53 am |
Poxa Ia, vc tá super incluída, só q mudou de sexo e agora tem 12 anos. Reencarnou na minha crônica como meu filho Tan Tan, que, infelizmente é mt novo pra beber. Mas a Ia doce e companheira vai nos acompanhar no bar na terça, certo? Vc vai ver q o clube do bolinha é bem diversificado…
(Paulo)
Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:32 pm |
Sacanagem! O pessoal foi beber, e nem me convidou! hehe Tudo bem tudo bem. O que importa é que a crônica ficou boa, se saiu muito bem ao reunir vários personagens e dar espaço para eles mesmos darem as impressões um do outro. É coisa difícil de fazer, pelo menos eu acho. hehe
Comentário por Peregrino VIramundo — julho 4, 2011 @ 8:21 pm |
Oi Virando, obrigado. Como o time é mt bom, pensei na brincadeira. Na verdade, pensei em chamar vc e o robô gigante, mas o espaço da crônica não deu. No entanto, st convidadissimo para o chope na terça. Abs, paulo.
Comentário por Anônimo — julho 4, 2011 @ 11:53 pm |