Oficina da Crônica

julho 1, 2011

Peregrino Viramundo

Filed under: 2011.01 Junho — literarea @ 3:07 pm

Peregrino Viramundo nunca se perdoou por ter nascido em Cabaceiras, aquele município perdido no semiárido paraibano. Não porque a cidade fosse pequena demais para os seus sonhos mas porque não se conformava com o fato de que Cabaceiras, além da ridícula taxa de produtividade alcançada no cultivo da macaxeira, ostentava o recorde de menor índice pluviométrico do pais. O que, segundo ele, não era verdade. Aquele estigma o indignava, e atribuía o fato a um erro cometido por um funcionário do IBGE, o qual, não acreditando no que via, inverteu os dígitos apresentados pelo pluviômetro no próprio ano de sua instalação. A partir daí, afirma o pároco local, a engenhoca foi empastelada por agricultores irados e o IBGE, oh! têmpora, oh! mores, passou a repetir o mesmo resultado ad perpetuam.

Peregrino Viramundo temia mumificar-se naquele lugar pela baixa umidade e, antes que isso se confirmasse, bandear-se-ia para outros mundos, em busca de um caldo cultural mais denso. Novas terras, novas gentes, novos ares. Novos sons, novos sabores, novos amores!

A bordo de um ônibus perfumado por jacas e jenipapos, Peregrino desembarcou no Recife. Matriculou-se no curso de direito. Hospedado na Casa do Estudante, no Derby, tornou-se freqüentador assíduo da Festa da Mocidade, no Parque 13 de Maio, e terminava suas noitadas sentado na balaustrada da Ponte Buarque de Macedo dissecando ossos imaginários de Augusto dos Anjos:

“Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também das diatomáceas da lagoa a criptógama cápsula se esboroa…

A biblioteca da Universidade Federal de Pernambuco foi o seu cadinho de relíquias bibliográficas. Escritores coevos não lhe interessavam. Só demiurgos e demiurgos não se fazem mais em nossos dias. No colofão de um tratado de semiologia encontrou o caminho para outras obras que o cativariam no estudo dessa ciência. Dedicou-se com afinco e tornou-se professor na matéria, notabilizando-se por fabular os eventos dos quais participava e encantar seus alunos com hipotiposes. Sua heterotopia deu-lhe fama. E, com a fama, veio o tédio.

Não suportando mais a monotonia em que se metera ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria seus alunos com o assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.

A parataxia era evidente, e o incomodava. Viramundo precisava mudar. Tornar-se-ia um paguro e usufruiria de todos os benefícios que a nova vida lhe proporcionaria. Esta palingenia viria libertá-lo dos grilhões que ele mesmo se impusera. Procuraria o amor. O AMOR! Aleluia! Aleluia!

Procuraria o amor, onde quer que ele estivesse. Nos cabarés da Lapa, nos inferninhos do Leme, nas fraldas do Mangue, fosse onde fosse.

Vestiu seu melhor terno e escolheu a melhor gravata. Dirigiu-se ao aeroporto, tomou o primeiro avião e partiu em busca do AMOR. E foi aí que o palíndromo de seu desejo entrou em ação. Invertendo o objeto dos seus sonhos, inverteu o seu destino.

Desembarcou em ROMA. E foi pedir a benção ao Santo Padre.

Sentado ao pé de uma coluna da Praça de São Pedro, Peregrino exultou. Seus olhos se acenderam. Seu corpo ardeu. Em sua anástase ressurgiu de alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado como um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido, que ele tentava manter unido. A seus pés uma cártula indicava o seu destino. Sua dromomania faria o resto.

E Peregrino Viramundo pairou sobre todas as terras e sobre todos os mares para todo o sempre.

Eduardo

Colegas, antes que me escalpelem, explico:

Anástase = O despertar da alma; o ressurgir da morte; a existência da alma após a morte

Antropomórfico = Representação estilizada da figura humana

Bífido = Dividido em dois; desunido

Bolodório = Palavreado; conversa sem resultado prático

Cártula = Pergaminho usado na antiguidade para a inscrição de legendas

Coevo = Contemporâneo; coetâneo

Colofão = Referências sobre uma obra e indicações relativas à sua história nos manuscritos medievais

Demiurgo = Criador de obra grandiosa ou importante

Dromomania = Impulso incontrolável e mórbido de perambular, de viajar, especialmente de abandonar os lugares onde golpes emocionais foram sofridos

Excogitou = Imaginou; cogitou; pensou em…

Fabular = Dar o caráter de fábula

Heterotopia = Posicionamento diverso do normal ou habitual

Hipotipose = Descrição de uma cena em cores tão vivas que faz o leitor ter a sensação de que as presencia pessoalmente

Incunábulo = Livro impresso nos primeiros tempos da imprensa; obra rara litografada no tempo em que a sua técnica foi desenvolvida

Lutulento = Sujo, lamacento; que agride, que ofende

Mendaz = Mentiroso; falso; traiçoeiro

Paguro = Ermitão; eremita

Palíndromo = frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa

Palingenesia = Retorno à vida; renascimento; regeneração

Parataxia = Inadaptação emocional

Pernada = Rasteira; golpe

Piriricas = Que não tem modos; que vive saracoteando

Samango = Preguiçoso; indolente

Eduardo

8 Comentários »

  1. Achei muitíssimo bem escrito e muitíssimo elaborado. parece que vc fez um estudo de linguagem. Senti falta das referencias das cronicas do Peregrino. Acho que vc se ateve somente ao pseudonimo. Certamente proposital.
    Texto alto nivel. Parabéns.

    Comentário por Anônimo — julho 1, 2011 @ 6:48 pm | Responder

  2. O mais alto do alto nível! Meu vocabulário ganhou várias palavras novas – perai, preciso ler mais algumas vez pra reter tudo. Hehe

    Achei o texto muito bom, muito bem escrito.

    A Flora disse que sentiu falta das referências das crônicas anteriores, a priori eu também senti, mas agora parei pra pensar: talvez você tenha feito a descrição do Peregrino do futuro, daquele que não respondeu a carta do menino, lembra? Nem o proprio Peregrino imaginaria que a vida dele seria assim…

    Uma coisa, “tomou o primeiro avião e partiu em busca do AMOR. E foi aí que o palíndromo de seu desejo entrou em ação. Invertendo o objeto dos seus sonhos, inverteu o seu destino.

    Desembarcou em ROMA.”

    Mas o palíndromo, pelo que entendi da definição, quando inverte fica a mesma coisa, não?
    ROMA é uma anagrama de AMOR.

    Poxa, Eduardo, não foi você mesmo falou do anagrama FLORA FAROL no meu texto? hehehhe

    Menina do Balaio

    Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 1:10 am | Responder

  3. Esse com certeza é o texto mais doido da oficina inteira! hahaha Gostei, principalmente do final. Tenho certeza que eu ficaria muito bem com 8 braços. Talvez eu faça uma cirurgia qualquer dia desses.

    Comentário por Peregrino Viramundo — julho 2, 2011 @ 2:00 am | Responder

  4. Nosssaa, Eduardo! Que hipotipose!!! Tô bífida!Mas, só agora , lendo essa detalhada biografia do Viramundo, entendi que foi a dromomania que o tornou um piriricas.Vivendo e aprendendo! Acho que essa doença ainda não foi detectada na minha família. Será?? Só uma pergunta: você consultou o incunábulo ou excogitou isso tudo sobre o” nosso” Vira?
    Parabéns! você é um demiurgo porreta!
    Laranjinha

    Comentário por Anônimo — julho 2, 2011 @ 3:54 am | Responder

  5. Eduardo, vc surpreendeu!!! E este dicionário compacto ao final, o que foi?rsrsrsrs
    Fico a cada leitura com mais curiosidade para o dia das revelações….rs…quem é quem…rs
    Abraços, Sanfer.

    Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 5:01 am | Responder

  6. Eduardo,
    O texto é mt criativo, no entanto, os inúmeros verbetes fora do uso cotodiano, ao mesmo tempo q faz a metalinguagem, dialogando com a profissão e perfil do personagem, tira um pouco da fluidez, da leveza mesmo. O q, em certa medida, atrapalha o dinamismo. Creio q se ouvesse menos verbetes, aqueles q fossem essenciais para o texto e o personagem, a fluidez seria mais garantida, ou não….
    (Paulo)

    Comentário por Anônimo — julho 3, 2011 @ 1:53 pm | Responder

  7. Como eu disse em minha crônica: “Porra Eduardo! Tu é foda!”
    Cacete de crônica mais trabalhosa. kkkkkk Tive que deixar por último por pura indolência.
    Achei a brincadeira fantástica. As palavras rebuscadas, com o glossário e a referência ao Recife trouxeram um quê de Suassuna, pro texto.
    Mas posso dizer: que brincadeirinha perigosa. Um leitor mais preguiçoso (como a maioria dos leitores de internet), abandonaria a crônica pela metade.
    Fica dedicada muito a quem AMA ler! O que, no fim pode ser uma opção.

    Parabéns pela crônica

    Comentário por Gomes Braga — julho 3, 2011 @ 3:57 pm | Responder


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