Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

A incrível história da mulher que não podia dar

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 6:49 pm

13 de dezembro de 1968, redação do jornal “Correio da Manhã”, bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

Uns 20 jornalistas teclavam furiosamente as pesadas máquinas de escrever do Correio da Manhã nesse dia fatídico. O barulho das máquinas se juntava ao matraquear incessante dos aparelhos de telex numa sala próxima e ao burburinho do pessoal da redação. A lembrança diz que era um dia limpo, sem nuvens, em que a maioria dos mortais jamais poderia prever a tempestade política que se aproximava. Mas no jornal havia motivos suficientes para receios: o “Correio”, que havia apoiado o golpe militar, sofria pressão constante do governo depois que passou a denunciar as arbitrariedades que eram da própria natureza da ditadura. A tensão permanente contribuía para aumentar em vários graus a temperatura das conversas entre os jornalistas e ampliar o ruído das máquinas.

De repente, o barulho diminuiu e um silêncio tumular foi se espalhando pela redação. Sobrou apenas a voz de um locutor (ou seria a do general-presidente? Não me lembro) transmitida pelo rádio de pilha na mesa do chefe de reportagem. Era o anúncio do Ato Institucional número 5, que liquidava os últimos resquícios de liberdade democrática no Brasil. Era a voz do poder das armas, da intimidação, da repressão indiscriminada a todos os que, como aconteceu na passeata dos cem mil contra a ditadura, ousavam levantar-se em defesa da liberdade e da democracia. Era a voz da força eliminando qualquer possibilidade de diálogo, de conversação, de respiração.

“A censura vem aí”, previu um jornalista no meio da roda que se formou em torno do radinho de pilha. Ninguém contestou. Não era preciso ser cartomante para saber o que aconteceria ao jornal no futuro próximo. Tão próximo que pouco depois três pesadas figuras irromperam na redação com cara de quem não está para brincadeiras. Dois personagens fardados – oficiais do Exército – e um terceiro à paisana, com uma metralhadora pendurada no ombro, em posição de tiro.

Um fotógrafo se adiantou, sorrateiro, e conseguiu flagrar os militares no momento em que entravam na sala do diretor de Redação para comunicar o início da censura ao jornal e assumir seus postos na condição de censores (ninguém sabe se a foto deu certo ou se ficou perdida nas cerca de 600 caixas de documentos do “Correio” que estão no Arquivo Nacional).

Os dias seguintes foram de repressão e resistência. Até mesmo uma edição clandestina do jornal chegou a ser programada, na tentativa de driblar e denunciar a censura. Mas a trama foi descoberta e terminou abortada. Os censores, nervosos e inseguros porque nada entendiam do ramo, passavam pente fino em todas as matérias, buscando expressões dúbias, venenos escondidos em cada período, vírgulas e pontos subversivos.

Era demais para eles. Apesar do medo reinante, ou talvez por causa dele, tornou-se divertido escrever frases de duplo sentido, inserir linhas podres (uma especialidade dos gráficos – coisas como “abaixo a ditadura”, compostas diretamente nas máquinas linotipo).

O resultado não se fez esperar. O comando militar que conduzia a censura aos jornais decidiu substituir seus dois minguados representantes no “Correio da Manhã” por uma junta de nada menos do que onze censores. Aí não passava mais nada, nem pensamento.  Era como se cada parágrafo, linha e palavra fossem submetidos a um microscópio eletrônico, detectando as partículas subatômicas da subversão.

É aí que entra na nossa história a incrível mulher que não podia dar.

Ela surgiu numa matéria sobre Dona Yolanda Costa e Silva, esposa do general-presidente da época. A matéria foi editada em duas colunas, com um título mais ou menos assim:

D. Yolanda dá

prêmio para

entidade etc.etc.

Depois do crivo dos censores, apareceu o seguinte:

D. Yolanda

prêmio para

entidade, etc.etc.

Explicação do censor: D. Yolanda pode ceder, presentear, doar, conceder, obsequiar com, outorgar. Dar, jamais!

Safadinho, esse censor.

Vidaviva

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Da arte do momento presente

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:13 pm

Tocava com a alma. Dava para ver e sentir. Enquanto suas mãos passeavam delicadamente pelo violino, seus olhos estavam fechados. O que ele tocava vinha de dentro e por isso mesmo os passantes eram tocados por sua música.
A melodia invadia as ruas e um clima de encantamento tomava conta de cada um que, ao seu modo, contemplava a beleza daquele som que envolvia o coração de quem detinha-se na calçada para ouvir e sentir.
Até mesmo quem, por pressa ou outra coisa, não parava para apreciar aquela apresentação, passava deixando algum dinheiro na maleta aberta sobre o chão. Havia aqueles que passavam e depois de alguns passos voltavam para deixar sua contribuição, demostrando valorizar o que estava acontecendo ali. E havia aqueles que, como eu, aproximaram-se e ficaram ali, deixando-se levar pelo lindo som que se propagava numa deliciosa noite fria na cidade.
Mas devo dizer que algo que me chamou a atenção e me fez refletir foi, sem dúvida, a forma como o artista se entregava a cada canção que tocava. Pessoas iam e vinham; numa lanchonete ao lado jovens conversavam; carros e ônibus trafegavam pela rua. O artista, porém, olhos fechados, com o violino a dançar suavemente em suas mãos, tocava como se fosse a única coisa que importasse naquele momento. Observando a postura do artista, que depois vim saber, chamava-se Stefano, morava em Madrid e havia nascido na Transilvânia (sim, Tran-sil-vâ-nia!), foi automático pensar que deveríamos viver a vida exatamente como ele.
O que ele despertava nas pessoas, a atenção e admiração que causava eram inteiramente resultado da sua postura de entrega ao que fazia. Enquanto tocava, ele não estava preocupado se os transeuntes lhe fariam plateia ou se alguém deixaria dinheiro em sua mala. Ele simplesmente fazia o que sabia fazer, com dedicação total ao momento e ao ato de tocar. Todos os seus sentidos estavam voltados para a sua ação, para a música produzida pela sua habilidade e pelo instrumento.
E então, após a última canção e uma gentil despedida, saí de lá, com os sentidos extasiados, a mente vazia e o coração cheio, pensando no quanto podemos realizar, se simplesmente estivermos inteiramente conectados com o que somos e com o que fazemos. Quando há entrega, a vida ganha novos tons e significados.

 Oswaldo Buarque 

A Dona da História

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:11 pm

Entrei no quarto devagar, sentei-me ao seu lado na nossa cama.  Ajeitei a sua camisola, abracei-a. Em delírio, pediu-me que lhe contasse uma história. Eu não sabia contar histórias – era ela a dona das histórias.  Quando a dor apertava ela repetia baixo  – Uma história, só esta vez, querido.

Aflito,desastrado comecei a relatar um episódio do passado que marcou nossas vidas, talvez por isso me veio rápido naquela hora.

O carro, uma velha Brasília branca, trepidava no asfalto irregular da estrada semi deserta.  Dentro, um jovem casal com um bebê de colo que choramingava inquieto, enquanto a mãe aflita tentava acalentá-lo dando-lhe o peito. Vinham de um final de semana festivo na casa de amigos. O trajeto de ida feito em poucas horas, numa manhã ensolarada e divertida,  agora na volta,  com o ronco dos trovões anunciando uma tempestade,  arrastava-se em temores,  

No instante em que o céu riscou-se  de relâmpagos,   a chuva desabou e um dos pneus furou.  O susto fez com que o homem que dirigia o veículo pensasse em seguir viagem até a um abrigo seguro.  Mas logo que percebeu o desatino, estacionou e saiu do carro.  Revirou o porta-malas em vão, o  macaco não estava ali.

 Agora o desafio era aguardar ajuda em meio a  abandonos. Um carro muito velho, um homem só no meio da estrada, uma noite feia, infeliz.  E todos os medos  aumentaram.

 Dentro do carro, a mãe entendia tudo o que acontecia,  desajeitada  se ocupava de um único gesto, empurrar o peito na boca do menino, que o rejeitava. Do lado de fora, o pai se doía com o som do choro do filho, tão poderoso quanto o da chuva tão forte.  No acostamento, uma vegetação alta de capim limão confundia sua silhueta que acenava intermitente, e dava-lhe ares de espantalho aos poucos faróis que passavam em velocidade.

Manteve-se ali muito tempo, lavando lágrimas com chuva, dando voltas em si, perdendo esperanças.

Cego pelo cansaço da vista com o brilho das luzes que  acendiam e apagavam nas águas, não reparou que um carro freou um pouco a frente do seu.  E estremeceu quando viu diante dele,  alguém coberto por um lençol.  

Um rapaz oferecia um  milagre – ajuda!  

Uma jovem moça que veio atrás dele de guarda chuva aberto, encaminhou e agasalhou o filho e a esposa no outro carro, enquanto os dois homens, repararam o pneu da Brasília.  Quando tudo terminou, agradeceram. O filho não chorava mais e os três seguiram tranquilos em silêncio até o seu destino final.

Pareceu-me que a dor cessava e ela adormecia. Achei que bastava, estava aliviado. Não fora uma história, fora uma confissão, sentimentos perdidos no tempo. Narrara uma passagem da nossa vida, tal como eu lembrava. Permiti que só ela a contasse, muitas, infinitas vezes, para nossos amigos e parentes. Acreditava nos seus exageros, no que omitira, chegara mesmo a pensar que só ela sentira angústia, medo, desespero. Na história dela, eu resolvera tudo ! Eu tinha sido o forte, o que trocara o pneu, o que desafiara a chuva, o destemido, o Super Homem.  Eu que nunca pude dizer sequer que chorara naquela noite, já que ela contava histórias como ninguém, agora, finalmente,  me lembrava da verdadeira história.

Encurvei-me para apagar a luz do abajur, mas ela segurou meu braço e disse que precisava fazer uma confidência.  Antes de fechar os olhos, a  verdadeira dona de todas as histórias sussurrou .

– Querido, o rapaz acudiu e trocou o pneu com você.  Mas o que você nunca soube é que a moça, dentro do carro, amamentou o nosso filho. Uma boa  história nunca tem fim.

Rita

Bicho Urbano

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:04 pm

Já vi muitos bichos e paisagens diferentes ao caminhar pela Rua Almirante Alexandrino em Santa Teresa, nas cercanias da subida para o Mirante Dona Marta: cobra, macaco, tatu, tucano, caxinguelê. Nessas ocasiões, sempre tento tirar fotos com o celular. Outro dia fotografei uma cobra coral, que estava morta, é claro. Sou curiosa, não louca.

Hoje, quando voltava para casa de carro, vislumbrei um mamífero um tanto inusitado na paisagem urbana de Zona Sul: uma vaca. Ela, solitária, dividia tranquilamente a rua com os carros que passavam.

Inicialmente achei meio surreal, parei o carro para tirar foto. Mas ao voltar a dirigir me dei conta do perigo potencial. Uma vaca andando na rua poderia provocar um grande acidente de carro, mesmo que naquela região, por causa dos trilhos, fosse impossível dirigir em alta velocidade. Bastaria uma curva mais fechada para a vaca ir “pro brejo”, acabar com o carro e, pior, alguém se ferir gravemente.

Pensei logo em procurar socorro, mas para que órgão telefonar? O corpo de bombeiros, ali perto, foi o primeiro que cogitei, porém não sabia como acessar o número (não me dei conta de que se tratava do famoso “emergência” constante, creio, em todos os aparelhos). Lembrei-me de ter no celular um número da Prefeitura.

A esta altura me indagava se este seria um problema municipal, estadual ou federal. Então nada como começar pela instância mais próxima. A atendente deu-me o telefone do corpo de bombeiro (foi aí que percebi que já o tinha). Telefonei em seguida e falei para a atendente o que estava acontecendo: a cena inusitada. A atendente disse que não poderia fazer nada, que isso não era função daquela instituição, e sugeriu-me de levar a vaca para a calçada. Instrução valiosíssima…

Não tenho a menor ideia de como levar uma vaca para a calçada. Aliás, não tenho a menor ideia de como levar uma vaca não importa aonde. Aliás, que calçada? Ali não tinha calçada… Se eu vencesse todas estas dificuldades, teria então que passar o dia inteiro segurando uma vaca na calçada para evitar um acidente? Desliguei o telefone de forma impaciente.

A vaca continuou o seu trajeto como se passeasse num campo bucólico. Na descida para o Cosme Velho, entrou em um terreno, muito à vontade, para pastar. E eu, decidida a acompanhá-la (a fim de evitar riscos maiores), entediada pela espera de uma solução, continuei a tirar fotos.

Nesse instante passou um carro do corpo de bombeiro. Apesar de não conseguir pará-lo, procurei mostrar a vaca e, aos berros, mostrar que ela representava um perigo. Certamente os bombeiros tinham algo mais urgente para resolver ou talvez aquela, também, não fosse sua função. Não deram a menor importância.

A seguir, um motorista percebendo que eu estava de olho na vaca, perguntou-me se eu estava criando boi ali. E eu, defensora da coletividade, ainda tinha que aguentar esse tipo de gracinha. Depois dessa, fiquei deveras irritada, peguei o carro e fui para casa.

No caminho, logo avistei uma cabine da PM com uma pessoa dentro (momento raro, um policial e, ainda, na cabine). Estacionei o carro e fui falar com o policial, a vaca ainda estava bem perto. Expliquei-lhe toda a situação, os riscos, meus receios, e que eu já havia me comunicado com Prefeitura e corpo de bombeiro.

No fundo sou ingênua (ou, talvez, otimista), ao supor que ele procuraria solucionar o problema. Sua resposta, adivinhem? Aquela não era sua função.

Contive-me e, em uma última tentativa, sugeri: mas o senhor poderia telefonar para o corpo de bombeiros, apresentar-se (mencionei seu nome, que estava escrito no uniforme, e o número do batalhão pintado na viatura) e enfatizar a ocorrência.

Tentativa inócua. Hora de desistir, começava a desconfiar que chegaria atrasada no trabalho.

Contei esta história para amigos de Santa Teresa. E nos meses seguintes recebia frequentemente relatos a respeito de encontros com a vaca. Mas até agora, continua a dúvida, o que fazer ao se deparar com a vaca de Santa Teresa?

vaca

Adelaide

Clarisse

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:00 pm

Conheci Clarisse numa festa em Santa Teresa. Aquelas festas meio alternativas onde o cardápio se resumia em biscoito globo e caldinho de feijão. Regado a cerveja barata e com direito a umas caipirinhas feitas com uma vodka bem chinfrim. Tudo isso num visual de um verão quente em 2006.

A “garota” vestia calça jeans, uma bata branca com detalhes azuis e uma sapatilha com alguns brilhos. Um estilo que chamam atualmente de “hippie chique” e que após alguns anos de convivência descobri que ela era “básica” mesmo e um tanto preguiçosa para se vestir. E que seu gosto variava entre azul marinho, branco, azul claro e nude, o antigo bege… Vai entender!!

Usava o cabelo amarrado de qualquer jeito apenas para se aliviar um pouco do calor enquanto se balançava ao som de Tim Maia. E que balanço… Vou te contar!!

Ela tinha 28 anos, era muito falante e cheia de sonhos! No final da noite já sabia que ela estava terminando seu curso de MBA, estudara teatro, piano, havia feito um workshop em restauração de vitrais, tinha uma coleção de imãs de geladeira de obras de arte e mais um monte de coisas que não dei conta de decorar. Mas não era só isso! Estava bom demais… Neste seu currículo havia um ex de quase oito anos!! Se não bastasse o cara ser “pintoso”, o malandro ainda era rico… Rico é sacanagem! Mas como me garanto, resolvi investir!

Já era uma e meia da manhã e eu já sabia que iria casar com ela! Fazê-la feliz seria fácil! Nada que uns bons beijos e uns filmes do Almodóvar não a impressionassem… Pois bem! Um ano e meio depois nos casamos! Ela entrou linda de branco na igreja!

Ficamos casados durante bastante tempo, uns anos bem outros nem tanto. Até o dia que ela surtou! Vi aquela menina já transformada em uma mulher com alguns quilos a mais, sair pela porta e ir embora! Disse já não se conhecer mais e que havia se tornado apenas “minha mulher” e que isso era muito pouco! Ela queria mais!

Ficamos separados, nos vendo esporadicamente… Conheci algumas mulheres. Umas razoavelmente bonitas, outras bem sucedidas… Saía para beber e farrear com os amigos. Mas no fundo acho que sentia falta daquela maluquice de Clarisse. Sentia falta daquele mundo doido! Daquelas ideias desconexas que na maioria das vezes não faziam o menor sentido pra mim. Apenas ouvia e via. Algumas vezes nem ouvia! Apenas observava seus trejeitos e me pegava pensando em como em apenas 1,62m podiam caber tantas Clarisses?!

Neste período conturbado ela foi morar no Flamengo. Em um conjugado que fui poucas vezes pois dizia que o apartamento era um cafofo! Mas na verdade era até bem bacana. Falava apenas por desdém! Clarisse havia transformado aquele espaço de 30m² em um lugar charmoso e aconchegante. Como costumava fazer com quase tudo. Menos na cozinha… Que ela era péssima!

Em alguns encontros achei que ela ainda continuava perdida, o que me dava um certo prazer de saber que não passava tão bem sem minha presença viril… Após uns seis meses, Clarisse além de se apresentar mais magra e segura, me parecia mais inteligente. Provavelmente sempre fora mas a proximidade não me deixava ver e a distância foi mostrando detalhes e nuances que não conhecia. Como os quadros de Monet, em que se é necessário tomar distância para admirar.

Fomos levando assim durante um tempo até que ela voltou a se aproximar. Deitava no meu peito de forma como nunca havia feito, me acariciava de forma diferente e até com mais desejo. Fui me dando conta de que ela precisava saber quem era, se encontrar para que pudesse me achar.

Passamos o ano novo juntos e três semanas após o reveillon, a campainha tocou. Era ela com a mala na mão e com aquele sorriso que muito provavelmente carregava desde os seus 15 anos… E depois de tanto tempo tentando me fazer entender poesias, conseguiu em apenas trinta segundo me fazer entender de uma vez por todas o que o poeta queria dizer com: “não há encontro sem desencontro” ….

Elena Martins

O viajante

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:59 pm

Toda vez que João viajava era um problema. Podia ser uma viagenzinha qualquer, de ônibus, pra uma cidadezinha qualquer, localizada a poucos quilômetros da cidade onde morava. Não tinha erro. Era chegar no destino já batia aquela vontade de não querer voltar. João tinha um incansável instinto explorador do mundo.

Férias, feriado prolongado e até final de semana era motivo para procurar um rumo, caçar um lugar diferente para ir. Já conhecia todas as cidades vizinhas, oito estados e nove países. Voltava das férias já fazendo planos para as próximas. E do alto dos seus 30 anos, até que conhecia bastante lugar. Mas pra ele ainda era pouco. Tinha muito mundo pela frente para conhecer.

Ele era do tipo metódico e sempre tirava as férias quando vencia um ano, desde que foi contratado. Jamais foi capaz de deixar acumular umazinha sequer. Vender, então, nem pensar! Tirar férias era um rito anual, quase religioso.  Só que ultimamente João andava desanimado. Estava naquela fase em que ainda faltavam oito meses para as próximas férias e parecia que as últimas férias tinham sido há três anos.

Achava o emprego chato, monótono perto de tudo o que tinha para desbravar de norte a sul. Era trabalho de escritório, burocrático, com muito ar condicionado e pouca luz do Sol. Mas fazer o quê? Se mantinha lá porque era a sua forma de conseguir dinheiro para financiar suas viagens. Motivo bastante justo, de acordo com seus princípios e prioridades.

Então, numa quarta-feira qualquer, entre um e-mail do chefe e uma comunicação interna da empresa, um spam escapou do filtro do e-mail e foi parar na sua caixa de entrada. O título tinha toda cara de que o e-mail continha um vírus: “Dê a volta ao mundo – Clique aqui e saiba como!”. Mas aquele assunto chamou tanto sua atenção que ele resolveu clicar pra ver.

Minutos depois João estava na varanda do andar onde trabalhava, fazendo uma ligação do seu telefone celular.

– Serviço de viagens Voa Voa, em que posso ajudar?

– Quero uma passagem de volta ao mundo.

– Qual seria a data, senhor?

– Tem pra amanhã?

– Aguarde um minuto que vou estar consultando o sistema. Vou colocar o telefone no mudo mas o senhor pode me chamar a qualquer momento, ok?!

Mais alguns minutos e João recebia a confirmação da compra no seu e-mail.

No dia seguinte, João foi trabalhar normalmente. Mas naquele dia levou consigo uma mochila maior do que a que estava acostumado a levar. Ele, que sempre foi certinho, chegou no horário, sentou em frente ao computador. Não leu nenhum e-mail, ficou zapenado na internet e passou o tempo conversando sobre amenidades com os colegas de trabalho.

O chefe de João, notando a demora para receber a resposta dos e-mails que tinha enviado, foi até a mesa do funcionário entender o que estava acontecendo.

– João você viu a demanda que te passei por e-mail?

– Não.

–  Então dá uma olhadinha, por favor, porque tenho que apresentar esses números numa reunião às 15h.

– Não.

O chefe olhou para João com uma cara de quem não está entendendo nada. Parecia que João havia lhe dado um bofetão na cara com aquelas respostas.

– É isso mesmo, chefe. Não vou fazer.  Daqui a duas horas tenho que estar no aeroporto. Vim aqui só passar o tempo, porque daqui a pouco eu tenho que pegar um voo. Passagem só de ida. – Disse João, rezando para que o voo realmente exista o e-mail do dia anterior não seja um golpe.

Passarinho Pluminha

ENCONTRO MARCADO

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:57 pm

São nove da manhã, acabei de acordar e já tenho que sair. Estou atrasada para o trabalho, tenho compromissos. Preciso beber um café, pois estou sem comer desde ontem. Vou tomar um banho, o chuveiro está muito frio. Desligo e vou me vestir. Secar o cabelo e colocar o vestido. Calçar o sapato e pegar a bolsa. Passar um batom e me despedir do gato. Pronto! Posso sair. Chamo o elevador, mas ele não vem. Desço de escada.

Entrei no carro e me lembrei dos convites. Voltei para pegar. Onde eles estão?Abro as gavetas, tiro os livros da estante, as revistas do sofá. Procuro mais um pouco. Achei. Abri a porta e saí. Fui direto pela escada. Entrei no carro e parti em direção ao caminho mais curto. Os minutos seguem. Cheguei no escritório, liguei o computador, ouvi os recados, pedi os relatórios, escrevi observações e enviei para o outro departamento analisar. O telefone tocou, eu atendi e resolvemos as pendências do dia anterior, sem muitas perguntas, apenas considerações. A hora do almoço chegou, convidei os amigos para irem ao novo restaurante da esquina. Pedi o cardápio e experimentei o melhor prato da casa. Tomei um café e voltei para minha mesa.

A reunião começou, discutimos e fechamos um contrato. Apontamos alguns caminhos, questionamos saídas. Resolvemos problemas, colocamos soluções. Acabaram-se os assuntos, voltei à minha sala. Telefone tocou novamente. Não atendi. Concluí um relatório. A caixa de emails estava cheia, enviei a mensagem do contrato,  aguardei o retorno. Aceito. Li novamente e reencaminhei para diretoria.

Peguei minha bolsa, fui ao banheiro, penteei o cabelo, retoquei a maquiagem. Nao esqueci o perfume. Voltei à sala, todos zombaram do meu visual. Desliguei o computador, acionei a secretaria eletrônica. Encostei a cadeira na mesa, arrumei uns papeis, troquei livros de lugar e parti. Esperei o elevador. Entrei, cumprimentei um amigo e desci.

Cheguei na portaria, olhei para os lados, na direção indicada. Ele me viu e veio ao meu encontro. Ganhei um beijo, algumas flores e o braço. Entramos no carro,  liguei o rádio, escolhi a estação e falamos em paralelo sobre os acontecimentos do dia. Passamos pela orla e viramos na rua principal. Muito movimento, carros indo na mesma direção.

Chegamos ao nosso destino: o teatro. A sala cheia, cortinas arreadas. Luz acessa. Naquela noite, eu iria rever aqueles que um dia fizeram parte do meu grande sonho: ser atriz. Eles estavam à minha espera. O encontro foi emocionante! Nunca imaginei que sentiria tão forte sensação. Mesmo tendo largado tudo, ainda tenho um vínculo com aquele mundo mágico, com as pessoas, roupas, luzes, efeitos… Chorei e sorri.

Durante todos esses anos relutei por este encontro, tinha medo da minha reação, pois não conseguiria voltar atrás. Porém, percebi que a vida nos guarda muitas surpresas e ali tive a certeza de que fiz a escolha certa. A peça acabou. As cortinas desceram. Voltei para casa, troquei de roupa. Deitei na cama, olhei para o teto e agradeci. Dormi sentindo a alma mais leve. Marquei um encontro com o meu próprio destino e consegui que ele fosse inesquecível. Sonhei com esta noite.

Nina Estrella

CONSULTORIA E ASTROLOGIA

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:56 pm

Os taxistas do Rio são umas figuras, todo mundo sabe. Gostam de bater papo e simulam uma intimidade como ninguém, em menos de 5 minutos se está amigo de qualquer um deles. Dia desses peguei um táxi em Copacabana com destino a Botafogo. Estava saindo de um exame cardíaco, cujo resultado não tinha sido bom e eu estava meio deprimido. Os meus problemas de saúde martelavam minha cabeça e faziam pensar também na minha mãe, que mora comigo e está começando a sofrer os primeiros sintomas do Alzheimer. Tudo isso se misturava, me enjoava, e eu já não sabia como ia encarar a reunião que tinha pela frente, dali a poucos minutos.

Assim que entrei no táxi disse ao motorista qual era o destino e, antes mesmo que ele desse a partida no carro, me perguntou se eu estava bem. Ele não perguntou se eu estava me sentindo bem. Perguntou apenas:

– Está tudo bem com você?

Não sei dizer exatamente porque a pergunta fez com que algumas lágrimas quisessem sair pelos olhos. Respirei fundo e respondi:

– Tudo bem.

– Esse tudo bem não foi muito bom…

– Tudo bem, sim, só umas preocupações.

Ele deu a partida no carro e prosseguiu:

– Preocupações com o que? Fala pra mim.

Nessa hora, vi um crucifixo pendurado no espelho retrovisor do motorista e pensei, agora fudeu, ele vai querer me catequizar até chegar em Botafogo… Vai ficar falando de Jesus e tal… Acabei respondendo:

– Nada não, umas preocupações com o trabalho… em casa também…

– Ah, meu amigo, você tem cara de ser um sujeito tão bacana. Não deixa as preocupações te atropelarem não…

Lá vem o espírito de intimidade com os clientes, pensei. Mas de certa forma me comovi com o fato de ter cara de sujeito bacana, sabe como é, eu tava meio carente naquele dia. Ele continuou:

– Preocupação no trabalho e em casa todo mundo tem. Minha mulher, sabe, ela é bipolar.

Lembrei de um tio, diagnosticado há anos como bipolar, que vivia penando entre crises de euforia e depressão, uma doença muito triste. Me solidarizei:

– É duro conviver com um bipolar, né?

– É dureza! Ela é totalmente bipolar, meu amigo, numa hora ela diz uma coisa, noutra hora diz outra, eu nunca sei o que ela quer, parece duas personalidades!

Que tolice, ele não estava se referindo a nenhum diagnostico psiquiátrico, estava se referindo à personalidade insegura e autoritária da esposa.

– Sabe o que eu faço com as preocupações? Eu deixo andar, que sigam seu caminho sozinhas! Qual é o seu signo?

– Peixes.

– Eu também sou de peixes! De que dia você é?

– 21 de fevereiro.

– Eu também, que coincidência!!! Peixes é terrível, a gente sofre demais! É muita emoção, muita tentação, peixes nadam em águas muito profundas…

Nessa altura, eu já não sabia mais se o homem era católico, astrólogo ou filósofo. Mas me identifiquei quando disse que a família dele vinha do nordeste, assim como a minha. Já estávamos chegando ao meu destino e o papo transcorria sobre as dificuldades enfrentadas pelos piscianos e pelos nordestinos ao longo da vida. Aproveitei o papo e falei sobre a doença de mamãe, que era doloroso pra mim vê-la perder sua capacidade mental assim. Ele também se solidarizou comigo, me contando que o pai dele teve a mesma doença. Aí eu acabei falando do meu exame cardíaco, que precisava parar de fumar e que eu tinha medo de morrer, e ele me aconselhou fortemente a fazer uma analise do meu mapa astral, que isso certamente ia me ajudar a resolver todos os problemas que eu estava passando.

Finalmente chegamos em Botafogo. Já me sentia bem melhor depois do papo com meu novo amigo. Já estava seguro para encarar a reunião. Quando ia descendo do táxi, o motorista me entregou um cartão. Estava escrito: “Rosa Maria Albuquerque – Consultoria e Astrologia”. Ele disse, enquanto eu ia fechando a porta:

– Sabe quem é essa aí?

– Não.

– É minha mulher!

E foi embora no seu táxi amarelo. Olhei para o cartão achando graça, na verdade deveria constar: bipolar e astróloga! Virei o cartão para olhar o verso e tinha algo escrito. Era um cartão personalizado: “PISCIANO – Conselhos levianos é a última coisa que você precisa no momento. Nasceu no signo de peixes para honrar a profundidade, mesmo que essa dimensão o afaste das pessoas que realmente interessam. Cumpra seu destino, nada mais”.

João Kruger

Crônica da despedida

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 1:04 pm

Ainda que atrasado, vou fazer uma despedida. Portanto, serei breve. Nossos grandes escritores estão morrendo. Todos. E todos de uma vez. Como dizia um colega meu, sergipano, “Deus, quando manda, manda de ruma”.  Comecei a tomar consciência disso quando perdemos o Chico Anysio. Não sei se os críticos literários o consideram grande escritor ou apenas um humorista mas, para mim, ele era ambas as coisas. Assisti a alguns espetáculos dele, inclusive um em Manaus, imaginem, onde a plateia delirou. Por que em Manaus? Porque ele estava lá e eu também.

Depois veio o… – veio, não, foi-se – o Millôr Fernandes que  não só  foi  grande escritor mas também teatrólogo, poeta, caricaturista e, sobretudo, um grande filósofo. O meu primeiro encontro com Millôr foi uma piada. Eu estava em Natal, para a inauguração de uma fábrica. Amparados pela  sombra de cajueiros, os convidados tomavam aperitivo enquanto aguardavam a hora do almoço. Eu me aproximei de uma mesa onde estavam sentados alguns colegas de trabalho. Um deles não me pareceu muito familiar, mas me lembrava  alguém. Despejei-lhe um tapão nas costas e disse:  “Nossa! Como você é parecido com o Millor”.

Ele apontou o dedo indicador da mão direita para o meu nariz, enquanto afagava, com a mão esquerda, a parte dolorida do ombro, e disse:  “Eu sou o Millor” !

Seguiu-se o João Ubaldo, prematuramente. Foi difícil de acreditar. Eu me acordava cedo, todos os domingos, só para ler suas crônicas. Ficou a saudade da Ilha de Itaparica e seus personagens folclóricos.

Agora, Ariano Suassuna. Quem poderia imaginar! Eu o ouvia, extasiado, quando contava suas histórias de Taperoá  ou quando citava  Inocêncio Bico Doce para alguma tirada cômica. Para não falar de suas presepadas do tempo de estudante,  como quando foi preso porque estava tomando banho nu no Rio Capibaribe. Levado à presença do delegado, este passou-lhe  uma reprimenda: “Então, o senhor estava tomando banho nu, não é, seu moleque?”  E Ariano, impávido: “Por que, seu Delegado, o senhor toma banho vestido, é? Uma vez, quando acabava de lançar seu Movimento Armoral,  Ariano mandou chamar três de seus amigos para uma reunião, talvez a mais curta da história: Francisco Brennand,  José Laurênio  de Melo e Gastão de Holanda, que participava, junto com Ariano e Laurênio, do “Gráfico Amador`”, a valorosa gráfica-editora artesanal: – “Chamei vocês aqui pra dizer pra vocês que vocês estão proibidos de morrer”. E despachou-os.

Sempre achei que os grandes escritores não morreriam nunca.  Descobri que estava enganado, e me conformo. E só não digo que serei o próximo da fila porque não quero parecer presunçoso.

Ernesto Feliz

novembro 27, 2014

SAIR PARA DANÇAR

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 7:20 pm

– E aí Paulo? Vamos sair para dançar?

Não consegui disfarçar a sensação de estranhamento diante da pergunta que acabava de ouvir, vinda do outro lado da linha. Jamais pensei que um dia receberia esse tipo de proposta. O inusitado se encontrava não no seu teor, mas de quem partia: o meu amigo dos tempos de colégio, Luís.

Considerei, no mínimo, incomum um amigo me ligar para chamar para dançar. Era a primeira vez que ouvia essa pergunta vinda de um homem. Ora, pensei, quando homens chamam outros homens para sair é para tomar uma gelada, para ir para a night, para zoar, para azarar, mas jamais para dançar. Afinal, que história era essa?

Entre mulheres é comum esse tipo de convite. Ainda está para nascer uma mulher que não curta sacudir o esqueleto em algum bar, boate ou casa de samba. Basta olhar para as aulas de dança de salão: são infestadas de mulheres. A presença masculina é tão rara, mas tão rara, que mulheres são obrigadas a fazer par umas com as outras. O homem que se matricula nessas aulas segue uma estratégia pré-determinada. Seu interesse não está na dança como atividade lúdica e sim nas habilidades que pode adquirir. Dedica um tempo para aprender uns passinhos. Para que? Para abordar as mulheres, claro, sem esquecer de que já pode se dar bem com uma colega de turma. Cara que dança bem sai na frente no jogo da sedução. Goza de alguns privilégios, especialmente no momento da aproximação. É por isso que o homem que se dispõe a fazer aula de dança não deixa de ser um visionário.

Mas dança pela dança? Como assim? Para o homem, dança é meio e não fim! É mulher quem curte sair para dançar! Os Carlinhos de Jesus da vida são exceções que confirmam a regra: homem não gosta de dançar, só finge que gosta. Ele sabe que para poder se aproximar de uma mulher na noite é preciso, geralmente, pegar uma bebida, ir para a pista e fingir que está curtindo dançar, mexendo levemente o corpo para lá e para cá em movimentos contínuos e minimamente perceptíveis do quadril, ostentando um ar blasé. Ao lado daquelas rodinhas cheias de mulheres, é preciso transmitir a impressão de que você é um cara de espírito elevado e de que está ali com o único propósito de se divertir, além de estar super ligado na música. A “cara de paisagem”, contudo, não pode ser muito exagerada e é preciso mostrar empatia pelas gatas em olhares furtivos intervalados. Quando alguma corresponde, está aberto o caminho para o ataque. Por vezes acontece de engatar um namoro com uma que valha muito a pena. Só que aí a prioridade passa a ser fugir de quaisquer boates e afins. Ou seja, a relação do homem com a dança tende a ser fugaz, mera forma de se alcançar a Terra Prometida. Quando um homem resolve sair da guerra, o que mais deseja é ficar longe do campo de batalha. Ironia são as namoradas querendo nos arrastar para as boates quando não enxergamos mais propósito nesse tipo de incursão.

Luis ainda aguardava a resposta:

– Paulo? Você está aí? E então?

“Vamos”, respondi laconicamente.

– Passo aí às 22h.

Decidi que minhas reservas com o convite do Luís não poderiam atravancar a possibilidade de uma noite de sábado que prometia muito. Ele passou em casa e rumamos para a Lapa.

No bar em que entramos, boa música, chopp gelado e cremoso e uma pista abarrotada de mulheres. Não havia lugar melhor para estar num sábado à noite. Enquanto eu mapeava o terreno, Luis desfilava uma curiosa aura de irresponsabilidade e despretensão que quase me convenceu. Parecia mesmo se divertir em evoluções irregulares e até caricatas pela pista. Eu procurava não perder o foco: copo de cerveja à mão, quadril em leve movimento, ar blasé e olhares furtivos. Mas só levava foras.

Perdi o Luís de vista. Após mais negativas femininas e muitos chopps depois, achei melhor me mandar. Consegui localizar o desgraçado no momento em que, já na rua, entrava eufórico em um carrão de luxo com chofer, com uma loura e uma morena, espetaculares.

– Leva meu carro para casa Paulo? Bebi um pouco! Tá aqui a chave. Se não puder, venho buscá-lo amanhã. A noite promete! Valeu!

Despediu-se de mim com uma piscadela. Resolvi arriscar e peguei o carro, sem documento. Quando passava pela Glória, a lei seca me parou. “Dancei”, foi só o que consegui pensar.

Pietro Tortona

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