Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

A Dona da História

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:11 pm

Entrei no quarto devagar, sentei-me ao seu lado na nossa cama.  Ajeitei a sua camisola, abracei-a. Em delírio, pediu-me que lhe contasse uma história. Eu não sabia contar histórias – era ela a dona das histórias.  Quando a dor apertava ela repetia baixo  – Uma história, só esta vez, querido.

Aflito,desastrado comecei a relatar um episódio do passado que marcou nossas vidas, talvez por isso me veio rápido naquela hora.

O carro, uma velha Brasília branca, trepidava no asfalto irregular da estrada semi deserta.  Dentro, um jovem casal com um bebê de colo que choramingava inquieto, enquanto a mãe aflita tentava acalentá-lo dando-lhe o peito. Vinham de um final de semana festivo na casa de amigos. O trajeto de ida feito em poucas horas, numa manhã ensolarada e divertida,  agora na volta,  com o ronco dos trovões anunciando uma tempestade,  arrastava-se em temores,  

No instante em que o céu riscou-se  de relâmpagos,   a chuva desabou e um dos pneus furou.  O susto fez com que o homem que dirigia o veículo pensasse em seguir viagem até a um abrigo seguro.  Mas logo que percebeu o desatino, estacionou e saiu do carro.  Revirou o porta-malas em vão, o  macaco não estava ali.

 Agora o desafio era aguardar ajuda em meio a  abandonos. Um carro muito velho, um homem só no meio da estrada, uma noite feia, infeliz.  E todos os medos  aumentaram.

 Dentro do carro, a mãe entendia tudo o que acontecia,  desajeitada  se ocupava de um único gesto, empurrar o peito na boca do menino, que o rejeitava. Do lado de fora, o pai se doía com o som do choro do filho, tão poderoso quanto o da chuva tão forte.  No acostamento, uma vegetação alta de capim limão confundia sua silhueta que acenava intermitente, e dava-lhe ares de espantalho aos poucos faróis que passavam em velocidade.

Manteve-se ali muito tempo, lavando lágrimas com chuva, dando voltas em si, perdendo esperanças.

Cego pelo cansaço da vista com o brilho das luzes que  acendiam e apagavam nas águas, não reparou que um carro freou um pouco a frente do seu.  E estremeceu quando viu diante dele,  alguém coberto por um lençol.  

Um rapaz oferecia um  milagre – ajuda!  

Uma jovem moça que veio atrás dele de guarda chuva aberto, encaminhou e agasalhou o filho e a esposa no outro carro, enquanto os dois homens, repararam o pneu da Brasília.  Quando tudo terminou, agradeceram. O filho não chorava mais e os três seguiram tranquilos em silêncio até o seu destino final.

Pareceu-me que a dor cessava e ela adormecia. Achei que bastava, estava aliviado. Não fora uma história, fora uma confissão, sentimentos perdidos no tempo. Narrara uma passagem da nossa vida, tal como eu lembrava. Permiti que só ela a contasse, muitas, infinitas vezes, para nossos amigos e parentes. Acreditava nos seus exageros, no que omitira, chegara mesmo a pensar que só ela sentira angústia, medo, desespero. Na história dela, eu resolvera tudo ! Eu tinha sido o forte, o que trocara o pneu, o que desafiara a chuva, o destemido, o Super Homem.  Eu que nunca pude dizer sequer que chorara naquela noite, já que ela contava histórias como ninguém, agora, finalmente,  me lembrava da verdadeira história.

Encurvei-me para apagar a luz do abajur, mas ela segurou meu braço e disse que precisava fazer uma confidência.  Antes de fechar os olhos, a  verdadeira dona de todas as histórias sussurrou .

– Querido, o rapaz acudiu e trocou o pneu com você.  Mas o que você nunca soube é que a moça, dentro do carro, amamentou o nosso filho. Uma boa  história nunca tem fim.

Rita

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8 Comentários »

  1. Belo, tocante. Lembrei-me de um episódio que passei na infância com os meus pais, também em uma viagem, por um estrada terrível. Pensei que íamos morrer, sentia a aflição dele com a periculosidade que a via incógnita oferecia, com pontes de madeira sobre rios revoltos e má iluminação. Era pequeno e perguntei aos meus pais se íamos morrer. Deu-me vontade de escrever uma crônica! O final surpreende, pela delicadeza da surpresa. Gostei muito da passagem que trata da silhueta com ares de espantalho. Soou incomum e poética. Nada a criticar! Só palmas.

    Comentário por Pietro Tortona — novembro 28, 2014 @ 4:18 pm | Resposta

  2. Obrigada sr. Pietro Tortona
    Rita

    Comentário por Rita — novembro 28, 2014 @ 7:08 pm | Resposta

    • Que beleza, sra. Rita.!

      Comentário por Vidaviva — novembro 28, 2014 @ 7:28 pm | Resposta

  3. também achei muito bonito e delicado. E o final surpreende, parabéns!

    Comentário por João Kruger — novembro 28, 2014 @ 9:16 pm | Resposta

  4. Que delicadeza !
    Quanta ternura no seu texto do início ao fim.
    Surpreendente final . Emocionei-me.
    Parabéns !
    Desejo
    Feliz Natal e um 2015 incrível pra você !
    Forte abraço do Afonso ( amigo do Tono do Ave e do Tono do Ave esteja onde estiver.

    Comentário por Anônimo — novembro 30, 2014 @ 2:26 pm | Resposta

  5. Lindo texto! Emocionante e original! Parabéns Rita! Norita

    Comentário por norita — dezembro 1, 2014 @ 12:17 am | Resposta

  6. Comovente, Rita! Quanta cumplicidade, sentimento e carinho na sua história. O fina, foi realmente a cereja do bolo. Como bem disse o Pietro, só palmas.

    Adriel

    Comentário por Adriel Romanno — dezembro 1, 2014 @ 12:31 am | Resposta

  7. Oi Rita! Como bem disse o professor, começou bem e terminou melhor ainda!

    Comentário por Elena — dezembro 1, 2014 @ 8:07 pm | Resposta


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