Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

A incrível história da mulher que não podia dar

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 6:49 pm

13 de dezembro de 1968, redação do jornal “Correio da Manhã”, bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

Uns 20 jornalistas teclavam furiosamente as pesadas máquinas de escrever do Correio da Manhã nesse dia fatídico. O barulho das máquinas se juntava ao matraquear incessante dos aparelhos de telex numa sala próxima e ao burburinho do pessoal da redação. A lembrança diz que era um dia limpo, sem nuvens, em que a maioria dos mortais jamais poderia prever a tempestade política que se aproximava. Mas no jornal havia motivos suficientes para receios: o “Correio”, que havia apoiado o golpe militar, sofria pressão constante do governo depois que passou a denunciar as arbitrariedades que eram da própria natureza da ditadura. A tensão permanente contribuía para aumentar em vários graus a temperatura das conversas entre os jornalistas e ampliar o ruído das máquinas.

De repente, o barulho diminuiu e um silêncio tumular foi se espalhando pela redação. Sobrou apenas a voz de um locutor (ou seria a do general-presidente? Não me lembro) transmitida pelo rádio de pilha na mesa do chefe de reportagem. Era o anúncio do Ato Institucional número 5, que liquidava os últimos resquícios de liberdade democrática no Brasil. Era a voz do poder das armas, da intimidação, da repressão indiscriminada a todos os que, como aconteceu na passeata dos cem mil contra a ditadura, ousavam levantar-se em defesa da liberdade e da democracia. Era a voz da força eliminando qualquer possibilidade de diálogo, de conversação, de respiração.

“A censura vem aí”, previu um jornalista no meio da roda que se formou em torno do radinho de pilha. Ninguém contestou. Não era preciso ser cartomante para saber o que aconteceria ao jornal no futuro próximo. Tão próximo que pouco depois três pesadas figuras irromperam na redação com cara de quem não está para brincadeiras. Dois personagens fardados – oficiais do Exército – e um terceiro à paisana, com uma metralhadora pendurada no ombro, em posição de tiro.

Um fotógrafo se adiantou, sorrateiro, e conseguiu flagrar os militares no momento em que entravam na sala do diretor de Redação para comunicar o início da censura ao jornal e assumir seus postos na condição de censores (ninguém sabe se a foto deu certo ou se ficou perdida nas cerca de 600 caixas de documentos do “Correio” que estão no Arquivo Nacional).

Os dias seguintes foram de repressão e resistência. Até mesmo uma edição clandestina do jornal chegou a ser programada, na tentativa de driblar e denunciar a censura. Mas a trama foi descoberta e terminou abortada. Os censores, nervosos e inseguros porque nada entendiam do ramo, passavam pente fino em todas as matérias, buscando expressões dúbias, venenos escondidos em cada período, vírgulas e pontos subversivos.

Era demais para eles. Apesar do medo reinante, ou talvez por causa dele, tornou-se divertido escrever frases de duplo sentido, inserir linhas podres (uma especialidade dos gráficos – coisas como “abaixo a ditadura”, compostas diretamente nas máquinas linotipo).

O resultado não se fez esperar. O comando militar que conduzia a censura aos jornais decidiu substituir seus dois minguados representantes no “Correio da Manhã” por uma junta de nada menos do que onze censores. Aí não passava mais nada, nem pensamento.  Era como se cada parágrafo, linha e palavra fossem submetidos a um microscópio eletrônico, detectando as partículas subatômicas da subversão.

É aí que entra na nossa história a incrível mulher que não podia dar.

Ela surgiu numa matéria sobre Dona Yolanda Costa e Silva, esposa do general-presidente da época. A matéria foi editada em duas colunas, com um título mais ou menos assim:

D. Yolanda dá

prêmio para

entidade etc.etc.

Depois do crivo dos censores, apareceu o seguinte:

D. Yolanda

prêmio para

entidade, etc.etc.

Explicação do censor: D. Yolanda pode ceder, presentear, doar, conceder, obsequiar com, outorgar. Dar, jamais!

Safadinho, esse censor.

Vidaviva

Anúncios

8 Comentários »

  1. Muito boa. Flui bem, falou de uma parte importante da história do país com muita propriedade sem cair no pieguismo. Excelente final bem humorado.

    Rita

    Comentário por Rita — novembro 28, 2014 @ 8:33 pm | Resposta

    • História verídica, Rita, escrita há tempos e tempos. Faz parte de algumas lembranças que,penso, devem ser partilhadas. Grato pela avaliação.

      Comentário por Vidaviva — novembro 28, 2014 @ 8:41 pm | Resposta

  2. E ainda tem gente por aí pedindo a ditadura! A liberdade é nosso bem maior, que mesmo quando exercitada sempre deixa a desejar, pois o ser humano está inerentemente preso a muitas limitações de natureza biológica, psíquico e social todo o tempo. Ser livre , inclusive de si mesmo é quase uma utopia mas a tentativa diária já dá ( Só Dona Yolanda não podia dar) sabor à vida. Por falar em vida, me lembrei do seu pseudônimo e acho que confirmei as minhas suspeitas desde o início sobre a sua identidade. Pois, é acho que todos nós absorvemos um pouco do Sherlock.

    Adriel

    Comentário por Adriel Romanno — novembro 29, 2014 @ 4:21 pm | Resposta

    • Moral da história: com a ditadura,vem uma porção de safados, safadoes e safadinhos que não aparecem por causa da censura que eles mesmos exercem. Embora existam ditaduras bem mais sutis. Quanto à identidade, bom, certamente não sou um serial killer. Até segunda.

      Comentário por Vidaviva — novembro 29, 2014 @ 7:42 pm | Resposta

  3. Tenso , tenso … depois relaxa… Final maravilhoso!
    Em toda situação tensa de algum jeito dá pra salpicar açúcar… vai da criatividade de cada um .
    Adorei !
    Parabéns mais uma vez . Amamos todos seus textos .
    Feliz Natal e um incrível 2015 pra você.
    Abraço do Afonso ( amigo do Tono do Ave) e Tono do Ave

    Comentário por Anônimo — novembro 30, 2014 @ 2:12 pm | Resposta

  4. Deliciei-me com a história. Sempre funciona fazer graça do poder. Vale como registro de uma época. Só achei a passagem em que apresenta a “mulher que não podia” dar meio abrupta, uma especie de pausa desnecessária. Talvez fosse possível introduzi-la sem essa pausa, mais inserida no contexto que vinha sendo apresentado, sem a necessidade do parágrafo de apresentação. Mas adorei!

    Comentário por Pietro Tortona — dezembro 1, 2014 @ 11:46 am | Resposta

  5. E concordo com Adriel! Ainda tem gente que defende a ditadura! Ou que defende a volta dos militares aqui ou que apóia abertamente regimes genocidas e criminosos como o cubano e o venezuelano. Ditadura nunca mais!

    Comentário por Pietro Tortona — dezembro 1, 2014 @ 11:48 am | Resposta

  6. Apesar de se tratar de um tema pesado, gostei muito do desfecho. Gostei dessa virada! Do pesado para o bom humor!

    Comentário por Elena — dezembro 1, 2014 @ 8:05 pm | Resposta


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: