Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

Clarisse

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:00 pm

Conheci Clarisse numa festa em Santa Teresa. Aquelas festas meio alternativas onde o cardápio se resumia em biscoito globo e caldinho de feijão. Regado a cerveja barata e com direito a umas caipirinhas feitas com uma vodka bem chinfrim. Tudo isso num visual de um verão quente em 2006.

A “garota” vestia calça jeans, uma bata branca com detalhes azuis e uma sapatilha com alguns brilhos. Um estilo que chamam atualmente de “hippie chique” e que após alguns anos de convivência descobri que ela era “básica” mesmo e um tanto preguiçosa para se vestir. E que seu gosto variava entre azul marinho, branco, azul claro e nude, o antigo bege… Vai entender!!

Usava o cabelo amarrado de qualquer jeito apenas para se aliviar um pouco do calor enquanto se balançava ao som de Tim Maia. E que balanço… Vou te contar!!

Ela tinha 28 anos, era muito falante e cheia de sonhos! No final da noite já sabia que ela estava terminando seu curso de MBA, estudara teatro, piano, havia feito um workshop em restauração de vitrais, tinha uma coleção de imãs de geladeira de obras de arte e mais um monte de coisas que não dei conta de decorar. Mas não era só isso! Estava bom demais… Neste seu currículo havia um ex de quase oito anos!! Se não bastasse o cara ser “pintoso”, o malandro ainda era rico… Rico é sacanagem! Mas como me garanto, resolvi investir!

Já era uma e meia da manhã e eu já sabia que iria casar com ela! Fazê-la feliz seria fácil! Nada que uns bons beijos e uns filmes do Almodóvar não a impressionassem… Pois bem! Um ano e meio depois nos casamos! Ela entrou linda de branco na igreja!

Ficamos casados durante bastante tempo, uns anos bem outros nem tanto. Até o dia que ela surtou! Vi aquela menina já transformada em uma mulher com alguns quilos a mais, sair pela porta e ir embora! Disse já não se conhecer mais e que havia se tornado apenas “minha mulher” e que isso era muito pouco! Ela queria mais!

Ficamos separados, nos vendo esporadicamente… Conheci algumas mulheres. Umas razoavelmente bonitas, outras bem sucedidas… Saía para beber e farrear com os amigos. Mas no fundo acho que sentia falta daquela maluquice de Clarisse. Sentia falta daquele mundo doido! Daquelas ideias desconexas que na maioria das vezes não faziam o menor sentido pra mim. Apenas ouvia e via. Algumas vezes nem ouvia! Apenas observava seus trejeitos e me pegava pensando em como em apenas 1,62m podiam caber tantas Clarisses?!

Neste período conturbado ela foi morar no Flamengo. Em um conjugado que fui poucas vezes pois dizia que o apartamento era um cafofo! Mas na verdade era até bem bacana. Falava apenas por desdém! Clarisse havia transformado aquele espaço de 30m² em um lugar charmoso e aconchegante. Como costumava fazer com quase tudo. Menos na cozinha… Que ela era péssima!

Em alguns encontros achei que ela ainda continuava perdida, o que me dava um certo prazer de saber que não passava tão bem sem minha presença viril… Após uns seis meses, Clarisse além de se apresentar mais magra e segura, me parecia mais inteligente. Provavelmente sempre fora mas a proximidade não me deixava ver e a distância foi mostrando detalhes e nuances que não conhecia. Como os quadros de Monet, em que se é necessário tomar distância para admirar.

Fomos levando assim durante um tempo até que ela voltou a se aproximar. Deitava no meu peito de forma como nunca havia feito, me acariciava de forma diferente e até com mais desejo. Fui me dando conta de que ela precisava saber quem era, se encontrar para que pudesse me achar.

Passamos o ano novo juntos e três semanas após o reveillon, a campainha tocou. Era ela com a mala na mão e com aquele sorriso que muito provavelmente carregava desde os seus 15 anos… E depois de tanto tempo tentando me fazer entender poesias, conseguiu em apenas trinta segundo me fazer entender de uma vez por todas o que o poeta queria dizer com: “não há encontro sem desencontro” ….

Elena Martins

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6 Comentários »

  1. Sensacional !
    Texto com boa fluidez !
    Experiência e vivência .
    Fantástico !
    A frase”Apenas observava seus trejeitos e me pegava pensando em como em apenas 1,62m podiam caber tantas Clarisses?!” e
    muito bem caracteriza o ser feminino e “…o que o poeta queria dizer com: “não há encontro sem desencontro” ….Apesar de esta em ” lugar comum”
    conclui sua história com sabedoria.
    Espero que tenha sido um retrato da realidade , porém se foi totalmente criado , reforço mais uma vez os parabéns .
    Feliz Natal e um 2015 incrível pra você .
    Forte abraço do Afonso( amigo do Tono do Ave ) e do Tono do Ave esteja onde estiver .

    Comentário por Anônimo — novembro 30, 2014 @ 2:48 pm | Responder

  2. Encontros e desencontros é o nome de um filme do qual gosto bastante, se não viu, vale a pena. É também parte de uma frase famosa do Vinicius. E sua crônica, despretensiosa como toda boa cronica( e todo bom texto,acho) tem a mesma delicadeza das boas histórias de partida e retorno, perda e aprendizado, superfície e profundidade.

    Comentário por Vidaviva — novembro 30, 2014 @ 3:57 pm | Responder

  3. Gostei demais, Helena! Você falou muito bem dessas coisas de casal num tom despretensioso e ao mesmo tempo bem profundo. Adorei o último parágrafo. Parabéns!

    Adriel

    Comentário por Adriel Romanno — dezembro 1, 2014 @ 1:39 am | Responder

  4. Gostei muito também, mas enxerguei dentro da crônica várias crônicas. A passagem em que ele se apaixona por Clarisse me pareceu rápida. Muitos episódios importantes passaram de forma ligeira. Fiquei curioso por saber mais. Quem sabe um romance a partir desse texto?

    Comentário por Pietro Tortona — dezembro 1, 2014 @ 11:59 am | Responder

  5. Gostaria de agradecer demais a todos! Poder participar deste curso e conviver com tanta gente boa! Gente boa de astral e gente boa em escrever cronicas!
    Obrigada pelas dicas e obrigada por compartilharem seus textos. Podem ter certeza que aprendi muito com vcs!
    Espero sinceramente poder reencontra-los em breve!
    Desejo a todos um fim de ano maravilhoso! Repleto de saude e realizações!
    Abs
    Elena

    Comentário por Elena — dezembro 1, 2014 @ 8:12 pm | Responder

  6. Obrigado, querida !!!!
    Foi muito bom mesmo .
    Saúde e paz !
    Tono do Ave

    Comentário por Anônimo — dezembro 2, 2014 @ 3:35 pm | Responder


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