Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

Da arte do momento presente

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:13 pm

Tocava com a alma. Dava para ver e sentir. Enquanto suas mãos passeavam delicadamente pelo violino, seus olhos estavam fechados. O que ele tocava vinha de dentro e por isso mesmo os passantes eram tocados por sua música.
A melodia invadia as ruas e um clima de encantamento tomava conta de cada um que, ao seu modo, contemplava a beleza daquele som que envolvia o coração de quem detinha-se na calçada para ouvir e sentir.
Até mesmo quem, por pressa ou outra coisa, não parava para apreciar aquela apresentação, passava deixando algum dinheiro na maleta aberta sobre o chão. Havia aqueles que passavam e depois de alguns passos voltavam para deixar sua contribuição, demostrando valorizar o que estava acontecendo ali. E havia aqueles que, como eu, aproximaram-se e ficaram ali, deixando-se levar pelo lindo som que se propagava numa deliciosa noite fria na cidade.
Mas devo dizer que algo que me chamou a atenção e me fez refletir foi, sem dúvida, a forma como o artista se entregava a cada canção que tocava. Pessoas iam e vinham; numa lanchonete ao lado jovens conversavam; carros e ônibus trafegavam pela rua. O artista, porém, olhos fechados, com o violino a dançar suavemente em suas mãos, tocava como se fosse a única coisa que importasse naquele momento. Observando a postura do artista, que depois vim saber, chamava-se Stefano, morava em Madrid e havia nascido na Transilvânia (sim, Tran-sil-vâ-nia!), foi automático pensar que deveríamos viver a vida exatamente como ele.
O que ele despertava nas pessoas, a atenção e admiração que causava eram inteiramente resultado da sua postura de entrega ao que fazia. Enquanto tocava, ele não estava preocupado se os transeuntes lhe fariam plateia ou se alguém deixaria dinheiro em sua mala. Ele simplesmente fazia o que sabia fazer, com dedicação total ao momento e ao ato de tocar. Todos os seus sentidos estavam voltados para a sua ação, para a música produzida pela sua habilidade e pelo instrumento.
E então, após a última canção e uma gentil despedida, saí de lá, com os sentidos extasiados, a mente vazia e o coração cheio, pensando no quanto podemos realizar, se simplesmente estivermos inteiramente conectados com o que somos e com o que fazemos. Quando há entrega, a vida ganha novos tons e significados.

 Oswaldo Buarque 

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6 Comentários »

  1. Adorei o tema que vc escolheu. Eu já senti coisa parecida admirando alguns desses bravos e talentosos artistas que se apresentam nas ruas. Muitas vezes penso se eles não são afinal os “verdadeiros” artistas, que entregam sem medo ou vergonha suas almas às ruas da cidade. Diante de tanta poesia, só faria uma revisão geral, tentando construir frases mais poéticas, buscando a cada palavra representar essa sensação delicada que vc teve ao ouvi-lo tocar. Parabéns, muito bom!

    Comentário por João Kruger — novembro 28, 2014 @ 3:42 pm | Resposta

  2. Gostei muito! O olhar mais sensível e atento é esse capaz de transformar os fatos aparentemente mais banais, corriqueiros, triviais, em momentos singulares e admiráveis. Compartilho da percepção do João Kruger de que seu tema é pura poesia e que, portanto, lapidar uma ou outra palavra que transmita melhor as sensações de inebriamento pode ser interessante.

    Comentário por Pietro Tortona — novembro 28, 2014 @ 4:11 pm | Resposta

  3. Obrigado, Kruger e Tortona, pelas observações! Quando escrevi esse texto, meu foco era utilizar a cena para falar da importância do momento presente, pois foi exatamente a reflexão que me despertou. Mas concordo com vocês, lapidar o texto com o uso de algumas expressões que denotem o tom poético da cena realmente o enriqueceria muito. Tenho imensa gratidão por esse oportunidade incrível que estamos tendo de compartilhar conhecimentos uns com os outros. Namastê.

    Comentário por Oswaldo Buarque — novembro 29, 2014 @ 2:48 am | Resposta

  4. Talvez,Oswaldo, o seu olhar sobre os jovens conversando e os carros e ônibus passando, relacionado ao violinista, merecesse uns toques a mais. Muito bom.

    Comentário por Vidaviva — novembro 29, 2014 @ 2:29 pm | Resposta

  5. O dom de cada um é uma maravilha ! Às vezes esse dom fica adormecido por décadas e de repente começa a florescer assim de um jeito mais forte . Quando um dom adormecido acorda na maturidade , nos faz renascer pra vida e nos ajuda e envelhecer com coragem.
    Seu texto é lindo , sensível e me fez viajar pela cena .
    Só uma pergunta, me perdoe a brincadeira : o personagem que reflete e assiste admirado ao artista também deu um trocadinho pra ele ?
    Adoramos seus textos ao longo do curso .
    Parabéns !
    Feliz Natal e um 2015 incrível pra você.
    Um forte abraço do Afonso ( amigo do Tono do Ave ) e do Tono do Ave , esteja onde estiver.

    Comentário por Anônimo — novembro 30, 2014 @ 2:21 pm | Resposta

  6. Linda crônica, Osvaldo! Adorei. Achei o tema bastante interessante, bem desenvolvido e com uma grande lição de vida como conclusão. Parabéns!

    Comentário por Adriel Romanno — dezembro 1, 2014 @ 12:17 am | Resposta


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