Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

O viajante

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:59 pm

Toda vez que João viajava era um problema. Podia ser uma viagenzinha qualquer, de ônibus, pra uma cidadezinha qualquer, localizada a poucos quilômetros da cidade onde morava. Não tinha erro. Era chegar no destino já batia aquela vontade de não querer voltar. João tinha um incansável instinto explorador do mundo.

Férias, feriado prolongado e até final de semana era motivo para procurar um rumo, caçar um lugar diferente para ir. Já conhecia todas as cidades vizinhas, oito estados e nove países. Voltava das férias já fazendo planos para as próximas. E do alto dos seus 30 anos, até que conhecia bastante lugar. Mas pra ele ainda era pouco. Tinha muito mundo pela frente para conhecer.

Ele era do tipo metódico e sempre tirava as férias quando vencia um ano, desde que foi contratado. Jamais foi capaz de deixar acumular umazinha sequer. Vender, então, nem pensar! Tirar férias era um rito anual, quase religioso.  Só que ultimamente João andava desanimado. Estava naquela fase em que ainda faltavam oito meses para as próximas férias e parecia que as últimas férias tinham sido há três anos.

Achava o emprego chato, monótono perto de tudo o que tinha para desbravar de norte a sul. Era trabalho de escritório, burocrático, com muito ar condicionado e pouca luz do Sol. Mas fazer o quê? Se mantinha lá porque era a sua forma de conseguir dinheiro para financiar suas viagens. Motivo bastante justo, de acordo com seus princípios e prioridades.

Então, numa quarta-feira qualquer, entre um e-mail do chefe e uma comunicação interna da empresa, um spam escapou do filtro do e-mail e foi parar na sua caixa de entrada. O título tinha toda cara de que o e-mail continha um vírus: “Dê a volta ao mundo – Clique aqui e saiba como!”. Mas aquele assunto chamou tanto sua atenção que ele resolveu clicar pra ver.

Minutos depois João estava na varanda do andar onde trabalhava, fazendo uma ligação do seu telefone celular.

– Serviço de viagens Voa Voa, em que posso ajudar?

– Quero uma passagem de volta ao mundo.

– Qual seria a data, senhor?

– Tem pra amanhã?

– Aguarde um minuto que vou estar consultando o sistema. Vou colocar o telefone no mudo mas o senhor pode me chamar a qualquer momento, ok?!

Mais alguns minutos e João recebia a confirmação da compra no seu e-mail.

No dia seguinte, João foi trabalhar normalmente. Mas naquele dia levou consigo uma mochila maior do que a que estava acostumado a levar. Ele, que sempre foi certinho, chegou no horário, sentou em frente ao computador. Não leu nenhum e-mail, ficou zapenado na internet e passou o tempo conversando sobre amenidades com os colegas de trabalho.

O chefe de João, notando a demora para receber a resposta dos e-mails que tinha enviado, foi até a mesa do funcionário entender o que estava acontecendo.

– João você viu a demanda que te passei por e-mail?

– Não.

–  Então dá uma olhadinha, por favor, porque tenho que apresentar esses números numa reunião às 15h.

– Não.

O chefe olhou para João com uma cara de quem não está entendendo nada. Parecia que João havia lhe dado um bofetão na cara com aquelas respostas.

– É isso mesmo, chefe. Não vou fazer.  Daqui a duas horas tenho que estar no aeroporto. Vim aqui só passar o tempo, porque daqui a pouco eu tenho que pegar um voo. Passagem só de ida. – Disse João, rezando para que o voo realmente exista o e-mail do dia anterior não seja um golpe.

Passarinho Pluminha

Anúncios

6 Comentários »

  1. Gostei muito da temática envolvendo o espírito aventureiro por parte do protagonista. Mas senti falta de uma demarcação um pouco mais clara sobre o que é campo da fantasia/lúdico e o da realidade, muito embora reconheça que nem sempre tal delimitação seja necessária ou imprescindível. Não sei se foi proposital. Senti curiosidade da razão que levou João a tomar uma medida tão drástica de largar tudo. A perspectiva de conhecer o mundo não me pareceu suficiente como se fosse necessária outra razão para tornar a decisão crível, ainda que num campo fantasioso.

    Comentário por Pietro Tortona — novembro 28, 2014 @ 5:15 pm | Resposta

  2. concordo com o Pietro, o tema é muito interessante e abre várias possibilidades. Mas tb sinto falta do ponto de virada, onde o personagem decide chutar o pau da barraca. a coisa do spam da viagem pelo mundo tb ficou meio confusa, pq a princípio parece que vai enveredar para a piada, ou para um golpe de internet. Mas a passagem com a telefonista qdo ele compra a passagem é muito ligeira e não leva pra nenhum dos dois caminhos. De repente, parece que a coisa era séria mesmo e que ele vai viajar. Daí, num surto, o personagem chuta o pau com o chefe, mas nem sabe se vai mesmo conseguiu embarcar? Fiquei um pouco confuso.

    Comentário por João Kruger — novembro 28, 2014 @ 9:38 pm | Resposta

  3. De fato, os dois “nãos” do final são muito fortes e talvez merecessem um ponto de virada à altura, como diz o Kruger. Mas você valorizou bem a ruptura do João com o opressor naqueles “nãos”.

    Comentário por Vidaviva — novembro 29, 2014 @ 2:39 pm | Resposta

  4. Seu texto ilustra bem toda loucura que pode estar envolvida na atitude de chutar o pau da barraca. O personagem João não me parecia um cara estressado, pois sempre soube gozar suas férias e parecia mais ou menos de bem com o trabalho, o possibilitador de suas viagens. Acho que ficou um pouco estranho, ele, de repente apostar toda a sua vida num e-mail para lá de suspeito, sem conferir nada. Enfim a vida tem dessas coisas e pode ser bem mais surpreendente do que qualquer ficção. No mais, muitos têm vontade de fazer o que ele fez, principalmente logo que voltam das férias, mas depois acabam se esquecendo de quão tediosa pode ser a rotina.

    Adriel

    Comentário por Adriel Romanno — novembro 29, 2014 @ 4:40 pm | Resposta

  5. A pressão , os prazos , a rotina … com o tempo dá vontade de grita e por o pé do lado de for do seu mundo custe o que custar até o emprego como é o caso .
    Nessa hora seu chefe , caso seja um bom chefe , vai conversa com o funcionário dar uma folga para se acalmar e quem sabe chamá-lo pra um ” chope ‘ mais tarde …Isso é muita viagem , né ?
    Mas seu personagem pirou mesmo … E fiquei curioso pra saber como é essa viagem ” Volta ao mundo ” da agência Voa Voa , quem sabe eu não faça companhia pro sue personagem ?
    E se a telefonista voou e com ela a Voa Voa?
    Gostei muito da ideia .
    Ao meu ver o texto pode ser um pouco mais elaborada, mas o conjunto e a criatividade são ótimos.
    Parabéns!
    Adoramos todos seus textos ao longo do curso .
    Feliz Natal e um 2015 incrível pra você !
    Forte abraço do Afonso ( amigo do Tono do Ave) e do Tono do Ave , esteja onde estiver.

    Comentário por Anônimo — novembro 30, 2014 @ 2:58 pm | Resposta

  6. Adorei o texto! Acho que explicações são desnecessárias, o texto já dá várias pistas. No fundo, ele retrata algo que todo mundo tem vontade de fazer, mas não o faz por não ter coragem e por ter contas a pagar e a necessidade de comida na mesa. Acho que com simplicidade e mesmo com uma pitada de ficção o texto passa um excelente recado e denota a “piração” que esse mundo corporativo e capitalista faz com a mente e o coração da gente. As entrelinhas dão conta do que não foi necessário dizer. Parabéns!

    Comentário por Oswaldo Buarque — dezembro 1, 2014 @ 2:40 am | Resposta


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: