Oficina da Crônica

dezembro 1, 2014

O SEGREDO DE MARIA

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 5:48 pm

Maria da Penha, capixaba, moderna e muito falante, tinha sempre muitas histórias a contar, mas um segredo era guardado no fundo do seu coração, que,  às vezes, lhe  perturbava, tirando-lhe o sono.

– Revelo ou não para ele o meu segredo? Melhor não.

Os  olhos oblíquos de João, conhecido como o China, enfeitiçaram Maria assim que ela o viu pela primeira vez,  no escritório no IBGE, em Vitória lá pelos anos 40.  Conhecida por ser namoradeira,  a capixaba jogava todo seu charme para impressionar o tímido e belo mineiro, recém-chegado na repartição. João muito sério compenetrava-se em fechar o relatório sobre o censo da região sudeste para entregá-lo à chefia o quanto antes.

Maria não perdia tempo  e nem tinha escrúpulos para exercer sua sedução. Gingando sua saia vaporosa e plissada, passou rente à mesa de João, derrubando-lhe as folhas que ele acabara de reunir para grampeá-las em seguida. Mas num átimo, tudo se espalhou  e João rapidamente se ajoelhou e começou a catar folha por folha e ela a se desculpar abaixando-se também. Foi quando o China viu de fato o rosto da Maria e ambos esboçaram um sorriso.  Desde então, Maria passou a sair com João do escritório, a namorar, noivar e, finalmente, se casar. A história meio fantasiosa era sempre contada aos cinco filhos, dezesseis netos e oito bisnetos, especialmente, nos dias festivos de aniversários ou nos natais.

João e Maria foram dois opostos que se uniram, mas na velhice as divergências se exacerbam em geral.  Maria continuava vaidosa, adorava samba e fazer compras. João aposentara-se da Petrobras e aproveitava para se isolar no quarto de leitura ou na sala para ouvir seus autores clássicos preferidos. Maria reclamava do seu jeito calado e desanimado. Ela sequer percebera que o marido já apresentava uns tremores nas mãos e por isso isolava-se cada vez mais.

Aproximava-se a data de aniversário de Maria. E tal fato fez com que ela ligasse meio aflita para sua filha preferida. Ao telefone, ela afirmava que precisava urgentemente contar-lhe um segredo. A filha paciente  tentou convencê-la, pois um segredo não se diz por telefone e riu da tolice da mãe. Em seguida, imaginou que a mãe começava a caducar, correu para a casa dos pais.

Ao chegar, a filha deparou-se com o casal de velhos juntos na sala. A mãe em pé diante da televisão com as mãos na cintura. O pai sentado na poltrona com um olhar distante. Cumprimentou os dois com carinho, abraçou a mãe e disse-lhe:

– Você queria falar comigo, não? Vamos nos sentar na copa.

Maria parecia transtornada, arregalou os olhos e começou a gritar.

– Quero revelar um segredo e não posso mais esperar, pois quero festejar os meus 80 anos com meus filhos, netos, bisnetos.

A filha ficou aturdida com a revelação, que imaginou ser uma alucinação da mãe. Tentou acalmá-la, afirmando-lhe com paciência que ela e o pai tinham se casado com a mesma idade, com diferença apenas de meses. Mas, Maria foi taxativa.

– Não seja teimosa,  menina! Você quer saber mais do que eu? Meu pai era dono de cartório e falsificou a data do meu nascimento. Portanto, eu nasci no início da primeira guerra, em 1914 e não no seu fim, em 1918.

A revelação foi um baque tão grande especialmente para João que o tremor se espalhou pelo corpo todo. Completamente transtornado, ele falou:

_ Você me enganou esses anos todos, Maria! Bem que meu irmão dizia que você parecia bem mais velha do que eu. Mas você, sua irmã e toda a sua família… Quer saber? Eu já desconfiava.

A filha tentou dizer ao pai que tudo era apenas convenção,  vaidade, pois a mãe não aparentava a idade que tinha. Mas, João não esmoreceu.

_ Eu quero o divórcio imediatamente. Chame o advogado.

Norita

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O dia em que descobri o Vasco

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 12:40 pm

Como todo português de verdade, ainda que seja um quase de mentirinha, quando a gente nasce no Brasil, se torna vascaíno. Você não sabe seu nome todo direito, não conhece todos os parentes dos seus pais, não sabe o CEP de casa e ainda come massinha na sala de aula. Mas basta alguém perguntar “qual o seu time?” pra resposta sair de pronto. Vasco da Gama, eu dizia rápido.

Futebol sempre foi coisa importante em casa. Somos uma casa de portugueses e vascaínos. Pra mim, como pra muita gente, as primeiras memórias mais claras da infância estão relacionadas ao futebol. Ganhar uma camisa do Vasco com “Coca-Cola” escrito na frente e perguntar se não tinha uma do Guaraná Brahma é, e imagino que sempre será, história pra contar no almoço de família.

Acontece que são tempos difíceis pro povo da cruz de malta. Os últimos anos, uma década inteira, talvez mais, não têm sido nada fáceis. Mas nesses momentos também, creio, se constrói uma paixão.

É sempre bom lembrar das vitórias, dos grandes jogos, é maravilhoso, claro, mas é bom lembrar também das batalhas em campo, dos dramas, das tragédias, dos momentos mais tensos, como se o futebol fosse um fado. E será que não é também?

Quando penso na minha primeira lembrança do Vasco, gostaria de dizer que foi o gol do Sorato contra o São Paulo, no Morumbi, e a conquista do bicampeonato brasileiro, em 1989. Mas eu só tinha quatro anos e, se fosse lembrar de alguma coisa, provavelmente seria do nome dos meus bonecos do Comandos em Ação.

Meu pai, este sim, gostava de colar o ouvido no rádio e reclamar de todos os jogadores. O velho nem tão velho assim, talvez um velho de mentirinha, vibrava com as jogadas e os gols xingava metade do time; eu achava graça. E, no quintal, era apenas uma criança. Uma criança vascaína, claro. Mesmo que não entendesse exatamente o que significava aquilo ainda.

Mas, com o tempo, mesmo as crianças começam a entender um pouco aquele mundo dos adultos. A paixão começa a fazer sentido, mesmo que, de fato, ele não exista nela. Todos os palavrões, todas as declarações de amor e ódio eternos, tudo, tudo passa a fazer sentido. Até passar duas horas em frente a TV.

Revisitando tudo isso, a verdade é que o primeiro jogo que me lembro de torcer foi um Vasco e Flamengo. O ano era 1992, eu já tinha completado meus sete anos, já sabia ler e escrever, escalava tranquilamente o time e, pela primeira vez, parei para acompanhar um jogo com prazer.

O jogo era o último do campeonato carioca, disputado em São Januário, o Maracanã estava fechado depois da queda da arquibancada no Brasileiro. O Vasco já era campeão antecipado, vencera a Taça Guanabara e a Taça Rio. Eram bons aqueles tempos.

Em jogo, a invencibilidade. O campeonato estava decidido, mas, se ao Flamengo cabia o papel de carrasco, impedindo o título invicto de seu grande rival, ao Vasco surgia a possibilidade de ser campeão invicto sobre o rival, humilhando os rubro-negros e esfregando a faixa na cara deles.

Desculpe, me exaltei um pouco. Mas era essa, afinal, a tônica do jogo.

Ouvindo pelo rádio, minha memória não se construiu em imagens, mas nos gritos do narrador e da torcida. Obviamente vi as imagens depois, algumas carrego até hoje vivas, como o Luisinho baixando a porrada em qualquer jogador de vermelho e preto no meio-campo, o Júnior descontrolado e o Edmundo voando no ataque.

Mas a lembrança marcante foi a sonora, a da torcida gritando, dos trepidantes descrevendo o jogo, do grito de gol, do Animal, da tensão no empate, aquela tensão, nunca me abandonou. O Vasco empatou, foi um a um o jogo, e foi campeão carioca invicto. Era um Vasco com pregos nas chuteiras.

Naquele dia, em dezembro de 1992, há 22 anos, o Vasco da Gama chegou à minha alma. Isso deve ser um clichê enorme, desculpe outra vez, mas aquela criança correndo enlouquecida pela rua com a bandeira amarrada como capa pode confirmar minha história. Ela existe até hoje, apesar dos problemas. E aparece toda vez que um certo time carioca entra em campo com a cruz de malta no peito.

Manolo Neto

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