Oficina da Crônica

dezembro 1, 2014

O dia em que descobri o Vasco

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 12:40 pm

Como todo português de verdade, ainda que seja um quase de mentirinha, quando a gente nasce no Brasil, se torna vascaíno. Você não sabe seu nome todo direito, não conhece todos os parentes dos seus pais, não sabe o CEP de casa e ainda come massinha na sala de aula. Mas basta alguém perguntar “qual o seu time?” pra resposta sair de pronto. Vasco da Gama, eu dizia rápido.

Futebol sempre foi coisa importante em casa. Somos uma casa de portugueses e vascaínos. Pra mim, como pra muita gente, as primeiras memórias mais claras da infância estão relacionadas ao futebol. Ganhar uma camisa do Vasco com “Coca-Cola” escrito na frente e perguntar se não tinha uma do Guaraná Brahma é, e imagino que sempre será, história pra contar no almoço de família.

Acontece que são tempos difíceis pro povo da cruz de malta. Os últimos anos, uma década inteira, talvez mais, não têm sido nada fáceis. Mas nesses momentos também, creio, se constrói uma paixão.

É sempre bom lembrar das vitórias, dos grandes jogos, é maravilhoso, claro, mas é bom lembrar também das batalhas em campo, dos dramas, das tragédias, dos momentos mais tensos, como se o futebol fosse um fado. E será que não é também?

Quando penso na minha primeira lembrança do Vasco, gostaria de dizer que foi o gol do Sorato contra o São Paulo, no Morumbi, e a conquista do bicampeonato brasileiro, em 1989. Mas eu só tinha quatro anos e, se fosse lembrar de alguma coisa, provavelmente seria do nome dos meus bonecos do Comandos em Ação.

Meu pai, este sim, gostava de colar o ouvido no rádio e reclamar de todos os jogadores. O velho nem tão velho assim, talvez um velho de mentirinha, vibrava com as jogadas e os gols xingava metade do time; eu achava graça. E, no quintal, era apenas uma criança. Uma criança vascaína, claro. Mesmo que não entendesse exatamente o que significava aquilo ainda.

Mas, com o tempo, mesmo as crianças começam a entender um pouco aquele mundo dos adultos. A paixão começa a fazer sentido, mesmo que, de fato, ele não exista nela. Todos os palavrões, todas as declarações de amor e ódio eternos, tudo, tudo passa a fazer sentido. Até passar duas horas em frente a TV.

Revisitando tudo isso, a verdade é que o primeiro jogo que me lembro de torcer foi um Vasco e Flamengo. O ano era 1992, eu já tinha completado meus sete anos, já sabia ler e escrever, escalava tranquilamente o time e, pela primeira vez, parei para acompanhar um jogo com prazer.

O jogo era o último do campeonato carioca, disputado em São Januário, o Maracanã estava fechado depois da queda da arquibancada no Brasileiro. O Vasco já era campeão antecipado, vencera a Taça Guanabara e a Taça Rio. Eram bons aqueles tempos.

Em jogo, a invencibilidade. O campeonato estava decidido, mas, se ao Flamengo cabia o papel de carrasco, impedindo o título invicto de seu grande rival, ao Vasco surgia a possibilidade de ser campeão invicto sobre o rival, humilhando os rubro-negros e esfregando a faixa na cara deles.

Desculpe, me exaltei um pouco. Mas era essa, afinal, a tônica do jogo.

Ouvindo pelo rádio, minha memória não se construiu em imagens, mas nos gritos do narrador e da torcida. Obviamente vi as imagens depois, algumas carrego até hoje vivas, como o Luisinho baixando a porrada em qualquer jogador de vermelho e preto no meio-campo, o Júnior descontrolado e o Edmundo voando no ataque.

Mas a lembrança marcante foi a sonora, a da torcida gritando, dos trepidantes descrevendo o jogo, do grito de gol, do Animal, da tensão no empate, aquela tensão, nunca me abandonou. O Vasco empatou, foi um a um o jogo, e foi campeão carioca invicto. Era um Vasco com pregos nas chuteiras.

Naquele dia, em dezembro de 1992, há 22 anos, o Vasco da Gama chegou à minha alma. Isso deve ser um clichê enorme, desculpe outra vez, mas aquela criança correndo enlouquecida pela rua com a bandeira amarrada como capa pode confirmar minha história. Ela existe até hoje, apesar dos problemas. E aparece toda vez que um certo time carioca entra em campo com a cruz de malta no peito.

Manolo Neto

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6 Comentários »

  1. Ótimo seu texto, Manolo, com todos os elementos que uma boa crônica deve ter. De uma maneira leve, sensível e despretensiosa você apresentou muito bem como se desenvolveu a sua paixão, primeiramente, pelo Vasco e depois pelo futebol. Linda a imagem do menino correndo pela rua como um super-herói com a bandeira amarrada nas costas. Parabéns! E olha que sou Flamengo!

    Adriel

    Comentário por Adriel Romanno — dezembro 1, 2014 @ 1:54 pm | Resposta

  2. Adriel, que flamenguista é este, dando parabéns a vascaíno? Manolo tem razão, a lembrança é forte, ganhei minha camisa do Mengao lá pelos 7 anos, inesquecível. Só não havia tanta torcida em casa, por isso sou Mengao calmo, sem arroubos de corridas maravilhosas como a do Manolo, muito boa história, parabéns,haha.

    Comentário por Vidaviva — dezembro 1, 2014 @ 2:12 pm | Resposta

  3. No meu caso, minha primeira reminiscência é do título carioca do meu Flu em cima do seu Vasco Manolo! Em 1980, com gol de Edinho em cima do Mazaropi, de falta! Mas meu ídolo mesmo foi Assis, o carrasco do Flamengo em finais!! Quanto à crônica, capta muito bem esse espírito da infância e a memória afetiva capaz de congelar no tempo e no espaço nossos ídolos e suas grandes jogadas! Sugiro só não repetir a palavra “mesmo” neste trecho: “Mas, com o tempo, mesmo as crianças começam a entender um pouco aquele mundo dos adultos. A paixão começa a fazer sentido, mesmo que, de fato, ele não exista nela. “

    Comentário por Pietro Tortona — dezembro 1, 2014 @ 2:22 pm | Resposta

  4. Vasco de raiz…
    Flamengo de alma …
    Flu de coração …
    Sou tudo e muito mais … Minha filha diz que sou o maior “vira-casacas”que já viu.
    Aqui em casa tem de tudo …
    Dia de jogo é uma bagunça … gritos de uns , choro de outros … mas vou confessar … não tem Botafogo não , tá gente ?…
    Adorei a crônica do “Patrício” Manolo …
    A cena do menino no final do texto me arrebatou de vez .
    Parabéns e agora é série A !
    Dá-lhe Vasco !
    Até mais tarde .
    Um forte abraço do Afonso , amigo do Tono e do Tono , onde quer que esteja .

    Comentário por Anônimo — dezembro 1, 2014 @ 4:15 pm | Resposta

  5. O texto está mesmo muito bom. Mas está difícil de comentar pq o meu Fogão acaba de ser rebaixado. Sei q o vascaíno me compreende…rs

    Comentário por João Kruger — dezembro 1, 2014 @ 5:01 pm | Resposta

  6. Dureza ler tamanha emoção sendo rubro-negra…rsrsrs
    Mas gostei bastante. Principalmente de ter sido feita atraves da perspectiva de um menino.
    Abs

    Comentário por Elena — dezembro 1, 2014 @ 8:02 pm | Resposta


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