Oficina da Crônica

novembro 28, 2014

Crônica da despedida

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 1:04 pm

Ainda que atrasado, vou fazer uma despedida. Portanto, serei breve. Nossos grandes escritores estão morrendo. Todos. E todos de uma vez. Como dizia um colega meu, sergipano, “Deus, quando manda, manda de ruma”.  Comecei a tomar consciência disso quando perdemos o Chico Anysio. Não sei se os críticos literários o consideram grande escritor ou apenas um humorista mas, para mim, ele era ambas as coisas. Assisti a alguns espetáculos dele, inclusive um em Manaus, imaginem, onde a plateia delirou. Por que em Manaus? Porque ele estava lá e eu também.

Depois veio o… – veio, não, foi-se – o Millôr Fernandes que  não só  foi  grande escritor mas também teatrólogo, poeta, caricaturista e, sobretudo, um grande filósofo. O meu primeiro encontro com Millôr foi uma piada. Eu estava em Natal, para a inauguração de uma fábrica. Amparados pela  sombra de cajueiros, os convidados tomavam aperitivo enquanto aguardavam a hora do almoço. Eu me aproximei de uma mesa onde estavam sentados alguns colegas de trabalho. Um deles não me pareceu muito familiar, mas me lembrava  alguém. Despejei-lhe um tapão nas costas e disse:  “Nossa! Como você é parecido com o Millor”.

Ele apontou o dedo indicador da mão direita para o meu nariz, enquanto afagava, com a mão esquerda, a parte dolorida do ombro, e disse:  “Eu sou o Millor” !

Seguiu-se o João Ubaldo, prematuramente. Foi difícil de acreditar. Eu me acordava cedo, todos os domingos, só para ler suas crônicas. Ficou a saudade da Ilha de Itaparica e seus personagens folclóricos.

Agora, Ariano Suassuna. Quem poderia imaginar! Eu o ouvia, extasiado, quando contava suas histórias de Taperoá  ou quando citava  Inocêncio Bico Doce para alguma tirada cômica. Para não falar de suas presepadas do tempo de estudante,  como quando foi preso porque estava tomando banho nu no Rio Capibaribe. Levado à presença do delegado, este passou-lhe  uma reprimenda: “Então, o senhor estava tomando banho nu, não é, seu moleque?”  E Ariano, impávido: “Por que, seu Delegado, o senhor toma banho vestido, é? Uma vez, quando acabava de lançar seu Movimento Armoral,  Ariano mandou chamar três de seus amigos para uma reunião, talvez a mais curta da história: Francisco Brennand,  José Laurênio  de Melo e Gastão de Holanda, que participava, junto com Ariano e Laurênio, do “Gráfico Amador`”, a valorosa gráfica-editora artesanal: – “Chamei vocês aqui pra dizer pra vocês que vocês estão proibidos de morrer”. E despachou-os.

Sempre achei que os grandes escritores não morreriam nunca.  Descobri que estava enganado, e me conformo. E só não digo que serei o próximo da fila porque não quero parecer presunçoso.

Ernesto Feliz

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novembro 27, 2014

SAIR PARA DANÇAR

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 7:20 pm

– E aí Paulo? Vamos sair para dançar?

Não consegui disfarçar a sensação de estranhamento diante da pergunta que acabava de ouvir, vinda do outro lado da linha. Jamais pensei que um dia receberia esse tipo de proposta. O inusitado se encontrava não no seu teor, mas de quem partia: o meu amigo dos tempos de colégio, Luís.

Considerei, no mínimo, incomum um amigo me ligar para chamar para dançar. Era a primeira vez que ouvia essa pergunta vinda de um homem. Ora, pensei, quando homens chamam outros homens para sair é para tomar uma gelada, para ir para a night, para zoar, para azarar, mas jamais para dançar. Afinal, que história era essa?

Entre mulheres é comum esse tipo de convite. Ainda está para nascer uma mulher que não curta sacudir o esqueleto em algum bar, boate ou casa de samba. Basta olhar para as aulas de dança de salão: são infestadas de mulheres. A presença masculina é tão rara, mas tão rara, que mulheres são obrigadas a fazer par umas com as outras. O homem que se matricula nessas aulas segue uma estratégia pré-determinada. Seu interesse não está na dança como atividade lúdica e sim nas habilidades que pode adquirir. Dedica um tempo para aprender uns passinhos. Para que? Para abordar as mulheres, claro, sem esquecer de que já pode se dar bem com uma colega de turma. Cara que dança bem sai na frente no jogo da sedução. Goza de alguns privilégios, especialmente no momento da aproximação. É por isso que o homem que se dispõe a fazer aula de dança não deixa de ser um visionário.

Mas dança pela dança? Como assim? Para o homem, dança é meio e não fim! É mulher quem curte sair para dançar! Os Carlinhos de Jesus da vida são exceções que confirmam a regra: homem não gosta de dançar, só finge que gosta. Ele sabe que para poder se aproximar de uma mulher na noite é preciso, geralmente, pegar uma bebida, ir para a pista e fingir que está curtindo dançar, mexendo levemente o corpo para lá e para cá em movimentos contínuos e minimamente perceptíveis do quadril, ostentando um ar blasé. Ao lado daquelas rodinhas cheias de mulheres, é preciso transmitir a impressão de que você é um cara de espírito elevado e de que está ali com o único propósito de se divertir, além de estar super ligado na música. A “cara de paisagem”, contudo, não pode ser muito exagerada e é preciso mostrar empatia pelas gatas em olhares furtivos intervalados. Quando alguma corresponde, está aberto o caminho para o ataque. Por vezes acontece de engatar um namoro com uma que valha muito a pena. Só que aí a prioridade passa a ser fugir de quaisquer boates e afins. Ou seja, a relação do homem com a dança tende a ser fugaz, mera forma de se alcançar a Terra Prometida. Quando um homem resolve sair da guerra, o que mais deseja é ficar longe do campo de batalha. Ironia são as namoradas querendo nos arrastar para as boates quando não enxergamos mais propósito nesse tipo de incursão.

Luis ainda aguardava a resposta:

– Paulo? Você está aí? E então?

“Vamos”, respondi laconicamente.

– Passo aí às 22h.

Decidi que minhas reservas com o convite do Luís não poderiam atravancar a possibilidade de uma noite de sábado que prometia muito. Ele passou em casa e rumamos para a Lapa.

No bar em que entramos, boa música, chopp gelado e cremoso e uma pista abarrotada de mulheres. Não havia lugar melhor para estar num sábado à noite. Enquanto eu mapeava o terreno, Luis desfilava uma curiosa aura de irresponsabilidade e despretensão que quase me convenceu. Parecia mesmo se divertir em evoluções irregulares e até caricatas pela pista. Eu procurava não perder o foco: copo de cerveja à mão, quadril em leve movimento, ar blasé e olhares furtivos. Mas só levava foras.

Perdi o Luís de vista. Após mais negativas femininas e muitos chopps depois, achei melhor me mandar. Consegui localizar o desgraçado no momento em que, já na rua, entrava eufórico em um carrão de luxo com chofer, com uma loura e uma morena, espetaculares.

– Leva meu carro para casa Paulo? Bebi um pouco! Tá aqui a chave. Se não puder, venho buscá-lo amanhã. A noite promete! Valeu!

Despediu-se de mim com uma piscadela. Resolvi arriscar e peguei o carro, sem documento. Quando passava pela Glória, a lei seca me parou. “Dancei”, foi só o que consegui pensar.

Pietro Tortona

O pseudônimo – A despedida

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:34 pm

Na primeira , não tive assunto; na segunda, falei do futuro com Tono Neto e agora , por que não falar na crônica derradeira  sobre meu pseudômino, que deixando-me anônimo(a) ao longo desse mês de Oficina, me fez navegar por histórias  tão fantásticas  dos colegas .

Alguns dirão:”Sem assunto de novo!” Acho que não,pois a história é boa e garanto que valerá a pena perder seu tempo comigo.

“Tono do Ave ? Quem é esse cara ? Que pseudômino esquisito !”

Tinha nascido em Vila do Conde ,Portugal.Um lugarejo próximo ao Porto.Na época uma pequena aldeia , hoje já povoam por lá prédios e tecnologias .

Vila do Conde tem um Aqueduto similar ao “Arcos da Lapa”(criado pelos portugueses como os de lá), só que muito mais  comprido que o daqui.

A alguns metros dele corta a região um rio de margens largas e correnteza perigosa: o Rio Ave.

Antônio ,um rapazola de família pobre e como filho mais velho,ajudava os pais no que podia : cuidava das galinhas ,da videira , vendia mudas de flores na feira,  tomava conta das irmãs  pequenas ,mas sobrava um tempinho pra estudar na escola da vila.

Vez ou outra , na ida à feira ou na volta da escola , desviava do seu caminho, seguia de encontro ao Ave.

Mergulhava , mergulhava , nadava, nadava, pernada , braçada …pertencia aquele rio como  peixe criado ali.

Chegava em casa meio escondido  , corria pra se secar no banheiro e pendurar a roupa na janela do quarto. Pronto ! Estava ali de volta Tono a sua casa .

A mãe, D. Úrsula , o argüia :

-Tono. Demoraste muito ? Onde estiveste ?

-Ah, encontrei o Manolo , dos Oliveiras  e fiquei um pouco mais por lá  a trocar  ideia com o gajo- respondeu sem olhar nos olhos da mãe.

-Não quero saber que tens ido ao Ave! Sabes que toda gente diz cá no povoado que esse  Ave engole  gente …- tentou assustá-lo.

-Estou a sabere ,Sra. D. Celina!-Tono falou andando e saindo de perto dela .

O nome era Úrsula ,mas não suportava  esse nome e todos em Vila da Conde conheciam a mãe de Tono por D. Celina.

No dia seguinte foi aniversário dele .Com muito sacrifício Seu Chico e D. Celina  deram um par de botas de presente a ele, pois suas sandálias de ir a escola já estavam no “caco”. Tono vibrou de alegria  e de tão  emocionado deixou salientar aquelas” aguinhas” nos olhos, que macho não podia ter. Abraçou os pais e as irmãs e com um pão-de-ló comemoraram. Luxos de aniversário daquela pobre família portuguesa ,numa Europa em plena guerra.Era 1945 ,ele fazia 9 anos.

Feliz da vida , na manhã seguinte seguia  para a escola com as botas novas .Sentia-se um “doutor”. Na volta , a tentação foi mais forte e desviou do caminho de casa  , mais uma vez,para ter com o Rio Ave.

Sentou-se à beirinha , contemplou o verde das margens ,as ondas apressadas do rio , ventava .Os pássaros saltitavam pelas poucas árvores que testemunhavam Tono . Olhou para o céu azul  sem manchas brancas , era primavera.O sol dourava mais ainda seu corpo e o brilho do olhar por estar ali , renovava sua energia .Seu mundo , sua paz. Lembrou da mãe e de suas palavras .

Mas o Rio também o contemplava e insistia :”Venha , Tono!” “Venha mergulhar!…” ”Estou aqui , pra você nadar…”

Tono não resistiu. Apenas colocou as botas sobre uma rocha e mergulhou. No início tudo parecia  como sempre ,mas aos poucos ele percebeu a correnteza e quando se deu conta  , só via ao longe um ponto preto sobre a rocha  . Braçada e mais braçada e nada , passava árvore , passava pássaro  ele se distanciava . Lembrou das palavras da mãe  , mas agora era tarde demais  :”Inês é morta” e talvez ele  .

Em  casa ,as horas passavam mais rápido, e nada  de Tono aparecer. D. Celina já estava beirando um colapso, as irmãs nada sabiam, Seu Chico , que operava uma galinha no quintal , estava quase degolando a pobre coitada de tão nervoso , sua mãos tremiam (Tono sempre contava essa história  que o pai operava galinhas, fazia-lhes cirurgias no papo ) .

A noite já batia a porta e o dia se despedia , quando Oliveira  o encontrou desmaiado  numa das margens pendurado  num tronco  pela camisa  e trouxe-lhe para casa.

A mãe desesperada avançando para ele , gritava :”Não sei se te mato ou se te abraço , seu puto!”

Acalmados os ânimos , perguntou:

-Onde foram para as botas ?

-As perdi no Ave- respondeu muito sem graça.

Venha pra cá , seu puto mais que puto …e dá-lhe cintada …Apanhou muito .

Em Vila do Conde , todos o conheciam como Tono do Ave e assim ficou.

Há uns 46 anos , conheci Tono…Frequentadores do bar “Bom Amigo” de Bento Ribeiro, depois de muito traçado DuDu(conhaque +quinado Dubar) em 1995 , foi vítima de uma cirrose ( não poderia ser diferente)e foi-se como veio. Como no Rio Ave, sob forte correnteza o rio da vida o levou … Suas histórias ficaram.

Como cantava Nelson Gonçalves:”Naquela mesa ta faltando ele e a saudade dele faz doer  em mim…”,vou seguindo no meu rio, quem sabe um dia encontrar o dele.

E você , caro colega-leitor, seu pseudônimo quer dizer o quê?

 Afonso (amigo do TONO DO AVE)

Baile de máscaras

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:32 pm

O convite sobre a mesa da sala não deixava dúvidas, seria um baile de máscaras. Um encontro de totais desconhecidos, que não iriam de fato se conhecer, mas tentar encontrar a si mesmos entre os véus reveladores do anonimato.

No quarto, uma barafunda danada: Roupas, sapatos e bolsas espalhados por todos os lados na inquieta expectativa de quais seriam escolhidos para aquela noite memorável. De certeza, somente uma máscara, a rainha absoluta da festa, repousando tranqüila sobre a cômoda. Sem esse ela não haveria o momento, com ela tudo seria permitido, sigilo completo, a não ser para Sherlock.

Um olhar mais pensativo no espelho se perguntava que estilo deveria usar. Seguir o caminho já conhecido ou se aventurar numa trilha imaginada? Optou pela aventura e começou a pensar num batom de cor marcante, pois a maquiagem dos olhos, essencial no dia a dia para mascarar a ditadura do tempo, hoje se faria desnecessária.

Era meia noite, quando um vulto num vestido vermelho esvoaçante fez sua entrada triunfal num salão abarrotado de outras máscaras. Algumas dançavam animadamente com parceiros desconhecidos e pareciam conversar com certa intimidade. Sobre o que estariam falando se não podiam se deixar identificar? Pelos cantos, em duplas ou em pequenos grupos, outras bebericavam drinques em animadas conversas, apesar da música estridente. Estariam ouvindo uns aos outros ou apenas fazendo charme, fingindo interesse nas histórias fantasiosas?

Seu coração, um tambor, reverberava as mesmas frases dentro do peito:

_ Vale recriar seu mundo, ninguém vai saber quem é você.

Tais pensamentos deram sabor à primeira de muitas taças de champanhe, que como flores iam sendo colhidas das bandejas apressadas, aos poucos, libertando a alma cativa de uma rotina repetitiva, carente de inspiração.

Logo, logo, um mascarado se aproximou com um discurso do dito e não dito, que tinha tudo a ver com a ocasião.

_ É melhor morrer entalado com o que se disse do que morrer engasgado com tudo aquilo que se deixou de dizer.

Antes que ela lhe respondesse, uma figura esquálida a abraçou por trás e lhe ofereceu um brigadeiro, pois não queria ela mesma comer algo tão engordativo. Sem entender o porquê de tanta preocupação, aceitou a guloseima de bom grado e ficaram as duas a falar de prazeres proibidos.

Teve início, então, uma rodada de músicas românticas dos anos 70 e 80 e outro mascarado, que se dizia um não saudosista, a tirou para dançar. Diante de tamanho entusiasmo, ousou lhe perguntar se aquelas notas musicais o levavam para algum lugar no passado, mas sua resposta foi taxativa:

_ Tudo na vida é tão passageiro que não deixa marcas. Sou uma pessoa de lugar nenhum, de nenhum lugar e lá se foi para não sei onde.

No bufe agora estavam sendo servidos alguns pratos quentes, todos, especialidades da cozinha Árabe. Não muita afeita a novidades, ela hesitava em se servir do quibe cru, do charuto de folha de uva ou do Michui De Carneiro, até que uma voz feminina lhe falou ao pé do ouvido:

_ Viver é experimentar, errar, acertar e aprender. Um método sofrido, mas quase sempre eficaz.

No salão, era a vez das trilhas sonoras motivarem todos a dançar e comentar sobre o poder que têm os filmes de levar as pessoas a lugares desconhecidos, principalmente através de si mesmas. Um sotaque diferente, então, enalteceu o cinema como um antídoto para a solidão das grandes cidades. Uma das máscaras que a acompanhava no momento aproveitou o ensejo e comentou:

_ As pessoas estão tão solitárias que estão procurando terapeutas até nos consultórios dos dentistas.

Alguém, no meio do grupo, aproveitou para jogar no ar uma pergunta:

_ Por que será que as pessoas insistem em encontrar a felicidade absoluta, se ela não existe?

_ Certamente uma tarefa impossível. Resolvi, por isso, tirar um ano sabático. Não quero ser mais um refém da profissão- uma outra voz confidenciou. Roteiros de viagens de redescobertas foram logo sugeridos e o bla bla bla continuou até que o evento se deu por encerrado. Assim, aqueles anônimos sob seus curiosos pseudônimos foram se despedindo, já com saudades de sua própria ficção: Ernesto Feliz, Passarinho Pluminha, João Kruger, Pietro Tortona, Tono Do Ave, Vidaviva, Nayla, Sininha, Adelaide, Jujuba e outros mais.

No salão, apenas admirando os convidados em retirada, sorria com satisfação o mestre de cerimônias. O único, todo o tempo, a não usar máscara e cujo nome realmente é Felipe. Pena que a festa das crônicas terminou, porém o ano que vem tem mais.

Adriel Romanno

Os santos em cima da geladeira

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:32 pm

Os santos fizeram sentido de coisa boa quando, na fazenda, bem pequeno, os vi em cima da geladeira na casa pobre dos empregados. Era quase como se a áureola sobre o rosto de Jesus mostrasse luz num mundo que parecia muito sem sentido, incompreensível. Os santos, cultuados, pareciam extrair e condensar o que havia de bom em mim, como se , um dia, eu também pudesse estar em cima da geladeira. Na verdade, eu só queria o chão que eles me davam quando eu olhava pra cima, eles eram um chamamento à alguma coisa boa. Os empregados e principalmente seus filhos eram os meus pares, mas eu me sentia descasado deles, porque não via luz, nem em mim, nem neles. Era uma vida sem esperança, e era isso que os santos me davam.

O lá fora me interessava, mas não nessa hora. Eu sabia brincar, gostava de brincar, mas durante o dia, quando havia sol, porque aí, não sei, a vida se completava em si mesma, respondia a si própria. Mas havia perguntas, e elas não viam resposta nenhuma. E também não viam companheirismo, ou um aplacamento da sensação de solidão, algo que dissesse assim : “Eu estou aqui “. Os  santos diziam isso , e isso me intrigava e acalmava. Era gozado, porque eles eram sem cor…os anúncios tem cor, a  coca-cola tem cor, mas os santos vinham envoltos em muita pobreza material, e suas imagens não eram exatamente um brinquedo, de modo que não havia cor nelas, não havia um atrativo que não fosse uma esperança, um “eu estou aqui “, ou algo que que parecia limpar os pés daquele chão de terra transformando a sala da casa – pois é, a geladeira ficava ali – num lugar que transcendia a fazenda, a solidão, a pobreza.

Depois, esqueci tudo isso. Meus pais voltaram para o Rio. Meu pai ganhou dinheiro. E comecei a ambicionar as cores, como se fosse um garotinho que queria seus brinquedos, e isso está bem, aos dez anos é favorável gostar de cores – e aos noventa também – mas ao longo da vida esqueci daquela que foi minha primeira luz,  esqueci da pobreza que foi minha primeira realidade, esqueci da solidão à qual não bastava gente, empregados, seus filhos, primos, tios, pai e mãe, e nem minha irmã, que era, por assim dizer, minha companheira de ignorancias. Meu irmão tinha acabado de nascer.

Era exatamente como se todos tivessem os pés de barro, e os santos também, muito em função da pobreza que havia ao redor, mas isso não era ruim, era muito bom, porque lhes dava um caráter humano, de proximidade, e não de algo que não falava comigo. Acho que a sensação que mais  marcou  esses tempos era essa, a dos pés de barro, como se no meio daquela pobreza os empregados da fazenda não fossem só pobres, porque em suas casas havia luz, e eles falavam, riam, brincavam, e a única explicação para essa felicidade que eu conseguia ter era, para mim mesmo, uma paz oriunda da luz e das figuras dos santos. Era isso que fazia sentido. Eles, os santos no alto da geladeira, me permitiam olhar para cima e receber de volta algo que tinha os pés no chão de terra, de barro, e como uma flor que está ligada à terra e por isso vive, não senti que isso fosse impedimento para  o que vinha de luz deles.

Assim, olhando pra isso hoje, sou grato à infância que tive, porque, vejo, ela moldou uma paz, uma busca de paz, uma busca daquele mesmo chão que eu tinha quando olhava pra cima e via os santos no alto da geladeira. Hoje busco chão, paz, harmonia, tudo o que eu sentia quando olhava  para o santo, e o santo me via.

Velloso

Conversa entre amigos

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:31 pm

– Sérgio, preciso te contar uma coisa.

–  Fala, meu amigo, que bons ares trazem seu raríssimo telefonema?

– Você leu o jornal hoje?! Sabe o tal cara do “assédio moral”?

– Hum.

– Esse cara sou eu.

(surpreso)

– Não… 

– Deixa eu te contar como foi, você não vai acreditar…

Estava na biblioteca principal, aquela loirinha atendente gostosa, sempre a mesma, sabe?

– Nunca vou lá.

– Ah, sim. Tinha esquecido que é das finanças, essa coisa de estudar é do amigão aqui…

mas então, aquele lugar vive vazio, e aquela mina vive dando na minha… vinte e poucos anos, eu vou lá desde moleque e desde que aquela gostosa entrou ela faz sempre a mesma coisa. Passa de lado bem quando eu to lá, com a cara enfiada em algum livro, numa daquelas mesinhas laterais de estudos. Ela vem limpando os livros, ou contando, sei lá, parece que cada hora inventa alguma coisa pra passar do meu lado com aquele shortinho curto e aquela bundinha empinada aparecendo. Dessa vez ela tava de jeans completo, bem justinho, dava pra ver o formato, saka?!

Tava só a gente, cara, eu juro que tava. Ela passou do meu lado, e dessa vez eu resolvi atacar de vez. Meu pau já tava duro e não me aguentei. Fazia dias que estava para terminar essa pesquisa, que só hoje terminei, e dessa vez ela veio tão perto que, tão perto, que não resisti… 

Sentado, mirei o ziper do seu jeans e dei um beijo. Não é que a danada retribuiu? Devia estar já toda molhada. Não deu outra! Afastei a cadeira da mesa e abrindo sua calça dei-lhe uma bocada em fiz um sexo oral ali na mesa mesmo. Ai, que pecado, que delícia, que tesão… tudo gostoso e perfeito até que aparece a porra de uma velha. 

Caralho, aquele lugar vive às moscas. Desculpa mano, os palavrões são pura indignação dessa injustiça humana.

– Caramba, Carlão, você vive aprontando alguma, cara. Mas e aí?! Como você virou capa de jornal?

– Tivemos que parar tudo na hora. A velhinha horrorizada, ficou bem parada nos olhando como se fosse um general boquiaberta. Deve ser uma daquelas historiadoras mal comidas que vivem buscando bibliotecas “exóticas” em lugares ocultos. Por que aqui?! Justo aqui?! E aquela hora da manhã?! Não deu outra, chamou o segurança, que chamou a polícia, que chamou a família da menina… iii, foi mó auê depois… tive que assumir, a mina ia perder o emprego. Fiquei com pena, família simples…

– Que merda hein… mas e aí. O que você vai fazer?!

– Então, Sérgio, você sabe que sou professor pesquisador…

– hum…

– Salário merreca… nem décimo terceiro, nem porra nenhuma…

– hum… (cada vez mais desanimado e atento, sabia o que poderia esperar)

– Po, camarada, alivia essa pra mim. Eu sei que seu irmão é advogado e pode me ajudar, ainda se você me emprestar uns trocados…

– Carlos Roberto, somos amigos a quarenta anos. Quantas eu não tive que aliviar pro seu lado?! Aí já é pedir demais. Seu nome está até nos jornais. Quer meter o da minha família junto, é?! (bufou) Quando você vai aprender a fazer as coisas direito, sem se meter em encrenca e sem levar os amigos junto? (falou em tom ríspido, quase gritando ao telefone)

– Calma ai, cara. Somos amigos a 40 anos, você sabe como sou bonzinho, incapaz de cometer um ataque a um mosquito. Só parti pra cima da loirinha pois ela já estava completamente no esquema. Não esperava a velha nem nada. E aquela biblioteca vive esvaziada. Isso foi a droga de um azar… Por favor, meu camarada… essa é a última vez que te peço algo desse tipo. 

(mal terminava a frase e o amigo já impaciente atropelou ansioso para desligar logo o telefone)

– Assim eu espero! Não me venha com chororos nem nada. Passa aqui depois das seis, aí a gente conversa. Assédio moral, comer loirinha na biblioteca… ora, tenha me dó… (falou pra si mesmo desligando o telefone, encurtando mesmo o tempo de agradecimento do amigo).

 

 Nayla

novembro 24, 2014

Sensação, sufocamento, cor e cheiro

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 3:17 pm

Cinema sem bate-papo, algumas vezes, entrando pela madrugada,  não tem sentido, para mim; sou da geração Paissandu, das sessões à meia-noite. Bons tempos! “papo cabeça” até altas horas.  Bergman, Fellini, Antonioni, Godard e por aí vai, cineastas todos nossos amigos; o Rio feliz.

Combinamos com a turma, para ver o filme dirigido e roteirizado pelo professor.  Assim que chegamos fomos surpreendidos pelo lauto café da manhã; serviço impecável, bolinhos, broas artesanais, café sanduíches os mais variados, melhor do que qualquer almoço. Custava a acreditar!  Aquela   hora da manhã, o serviço impecável.

A sessão iria começar, mas o papo com os colegas me fez recordar a geração Paissandu. Difícil sair do café na ante sala   para assistir ao filme, deixando a conversa  rolar para   mais tarde, ou mesmo, quem sabe, na sala de aula.

Assim que a luz apagou, o impacto da primeira cena: nunca mais vou me esquecer: parecia que  estávamos   assistindo aos conflitos do oriente médio; mulheres apavoradas gritando, homens indo e vindo, sem saber o que fazer, crianças brincando sentadas no chão,  esperando o almoço, enquanto, “os homens da lei”, pouco se importavam com a vida vivida naquela comunidade. Tinham que cumprir a lei, eram pagos para isso. O que importava: o bom serviço, mesmo que sacrificassem seres humanos que tinham como projeto de vida terminarem os dias ali naquela Vila, muitos deles já avós, ajudavam os pais no dia a dia das crianças.

Os “homens da lei”, cientes de suas responsabilidades, com passos apressados, determinados, entravam rápido nos cômodos desocupando tudo, jogando os últimos “ cacos” para fora, com tamanha agressividade no olhar, pareciam mesmo estar descontando a suas não realizações no cumprimento do dever. Os moradores sufocados pela presença estranha, sentiam a destruição do pouco dos sonhos que ainda restavam, daquela existência simples e digna, ali vivida. Cumprir a lei, mesmo que vidas fossem sacrificadas. Crianças sem entender, tamanha   agressão olhavam assustadas, seriam marcadas com aquela cena brutal, sufocante, para   o resto de suas vidas. Antes de tudo, cumprir a lei. O prefeito mandou desocupar, ordem de despejo; ali seria    construído o mais importante monumento Olímpico do país, Precisamos exibir ao mundo, aos estrangeiros que vierem assistir às Olimpíadas a nossa “grandeza”, escondendo, e até jogando debaixo   do   tapete; a nossa pobreza mental, as nossas mazelas, as nossas fraquezas, a custa de destruir sonhos, vidas acomodadas mas conformadas, com a simplicidade  vivida naquela comunidade, cujo o maior bem eram os amigos que tinham feito durante aquela existência.

.        Convidei meu filho para assistir ao filme comigo, procurei convencê-lo  a ver um filme sobre a nossa realidade, e não um filme de ação. A princípio, ele relutou, mas acabou cedendo; meia  hora depois já estávamos  os dois na ante-sala do cinema, desfrutando das mordomias e do delicioso café oferecido, antes do sessão começar. A campainha tocou anunciando o início da sessão. Entramos meu filho e eu juntos com outros convidados.

Silêncio total, as luzes se apagaram, e na tela o horror narrado em forma de filme. Crianças chorando, carregando seus últimos “cacos” de brinquedos; meninas segurando bonecas pelas pernas, muitas já estavam mutiladas, meninos brincando de atirar com espingardas despedaçadas, imitando os homens da lei, que interditavam a área.

O horror estampado nos rostos das pessoas. Os personagens reais, estavam ali na ante-sala, para contar essa e outras histórias da vida ali narrada. A princípio um lugar calmo, até que um dia os homens da lei apareceram para botar ordem, no que já estava ordenado. Na verdade o que eles queriam era desocupar o prédio, botar abaixo, para fazer a Vila Olímpica para mostrar aos gringos, como tudo era bonito e novo.

O impacto, o contraste lá fora, um outro mundo, lá dentro, cenas de  horror,  o cheiro da fumaça contagiava a todos, as crianças horrorizadas, sentiam o cheiro das bombas de lacrimogênio, afastando as pessoas que ainda restavam naquele recinto, através do cordão de isolamento, sufocadas  assistiam as explosões, esmagadas, anestesiadas com o cheiro da fumaça, ocorrido após as detonações, na tentativa de encontrar uma saída, sabe lá para onde.

A finitude da vida mostrada na tela, a desgraça, a vida miserável das crianças na esperança de salvar algum brinquedo que porventura tivessem esquecido; mulheres carregando apressadas seus já enferrujados e gastos utensílios de cozinha; trabalharam toda uma vida naquele local, cuidando da alimentação dos que dependiam dela. Os amigos da Vila assim falavam quando se dirigiam uns aos outros; tamanho  o carinho que envolvia aquela comunidade, amigos que podiam contar a qualquer hora. Faziam a terapia entre eles mesmos, a sensação de pertencimento, dava segurança para prosseguirem.

Agora, separados, como continuar a viver sem aquela gente. Tinham a certeza que da vida, só restaria os amigos que fizera, durante aquela existência. Tinham a segurança da moradia. Pouco importava para eles irem para um lugar melhor, como prometera o Sr. Prefeito, por ocasião de uma visita.

Ali fizeram os companheiros, amigos que podiam contar a qualquer hora. O desabafo, uns com os outros, fazia as vezes  de terapia. “Expulsos” do lugar que já consideravam seu, em prol da beleza da Vila Olímpica, construída para enfeitar o olhar aguçado dos gringos, que desconheciam a miséria  humana.

A denúncia na hora certa, o cheiro da fumaça ardendo nos olhos e no coração daquela gente humilde, a detonação dos prédios, nada  sobrara; a angustia, o sufocamento daqueles que resistiam em ficar, o horror estampado no rosto das crianças, o olhar aflito e embaçado pela fumaça, talvez nunca mais voltassem a ver o mundo com os olhos de criança, nunca mais se libertariam daquela cena de horror.

Do outro lado, a coragem do jornalista roteirista, filmando ao vivo as cenas de horror, sem medo de mostrar ao mundo a miséria da nossa sociedade, fez com que o público ali presente, se conscientizasse da importância do afeto, da segurança das crianças na mais tenra idade, para criar adultos ajustados, num mundo cada vez mais difícil, onde os valores são outros.

Saímos do cinema, ainda sentindo o cheiro das bombas, atordoados, sufocados com a fumaça e com o cheiro das bombas detonadas, destruindo sonhos projetados, em nome do cumprimento da lei; cada vez mais entristecidos com a flagrante realidade do cotidiano daquela comunidade, perseguidos pelas imagens tenebrosas, vivenciadas naquela sessão.

Meu filho me perguntou: papai esta é a nossa realidade?

Sim; você não precisa mais assistir aos enlatados, filme de ação  americano, pois a  nossa vivência  é a  prova assustadora que vivemos um contexto sub humano, onde os valores éticos e morais se perderam há muito tempo.

Saímos do cinema  pensativos, sufocados com a fumaça e o cheiro das bombas detonadas, destruindo sonhos projetados, em nome do cumprimento da lei; cada vez mais entristecidos com a flagrante realidade do cotidiano daquela comunidade.

Meu filho  esqueceu do café da manhã oferecido na ante sala de projeção. Uma lástima, o Rio da sua geração, agora tremendamente infeliz.

Sininha

SE ESSA VILA NÃO FOSSE MINHA” – A VISÃO DO CAOS

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:12 pm

Na sala escura do Cinema Itaú, em Botafogo,  assisto ao documentário “Se essa vila não fosse minha”, de Felipe Pena,  acompanhada de outras pessoas. As primeiras cenas revelam um cenário dramático, sufocante. Pisco os olhos, pois a imagem torna-se turbulenta e amarelada, incomodando a visão. A câmera registra uma sequência de imagens de destroços: lixo espalhado por todo lado, entulhos de tijolos, pedaços de  móveis, de portas, de janelas, de brinquedos. De repente, a objetiva foca uma bandeira brasileira ao lado de um tampo de vaso sanitário. Essa imagem parece dizer mais que qualquer palavra – é a visão do caos de uma comunidade. Corrobora esse cenário apocalíptico o som estridente de tratores com suas pás gigantescas a destruir tudo pela a frente, entoando um fundo musical aterrador. São máquinas dirigidas por homens com uniformes da Prefeitura do Rio e outros, com picaretas, quebram o que restou de uma parede de uma cozinha.

Imediatamente, penso na relação tênue entre ficção e realidade. Diariamente, a mídia informa sobre o crescimento da violência nas grandes cidades, enumerando crimes hediondos, estupros, assaltos e mortes de inocentes. Estarei anestesiada, ou acredito que a realidade é fictícia? Talvez por uma necessidade de sobrevivência, mergulho no meu mundinho particular e fico zapeando no celular e me esquecendo dos perigos à volta.

No entanto, o documentário de Felipe Pena retrata um massacre real de sonhos e de vidas na vila do Autódromo, bem próximo de onde será realizado um grande evento esportivo, as Olimpíadas de 2016. Chocam as imagens de rostos desesperados, figuras com olhos esbugalhados, jovens sem rumo, famílias destruídas, animais famintos e abandonados, pois os donos do poder invadiram e destruíram em quinze dias vidas, histórias, residências construídas há cerca de quarenta anos.

Metade dos moradores fugiu por medo das autoridades, aceitando viver em um conjunto habitacional oferecido pelo governo, mas que já apresentam infiltrações. Para estes seres sem vontade e cidadania, a nova habitação é o paraíso. Mas, a outra metade resiste bravamente, lutando pelos seus direitos de cidadãos, que pagam seus impostos e possuem documentação de propriedade através de diversos carnês de IPTU em dia. Outros afirmam que jamais receberam ajuda da prefeitura para qualquer tipo de obra de saneamento básico, até  o esgoto foi instalados pelos próprios moradores. Estes cidadãos brasileiros lutam e insistem em não deixar o local, não abandonar sua casa, a vida em família apenas para atender aos propósitos governamentais ligados aos projetos especulativos de empresas devido às Olimpíadas.

“Olimpíada pra quê?”, indaga um dos moradores. Será que os atletas sabem dessas manobras políticas descabidas? Mas afinal que política democrática é essa? A luta não deveria ser pelos  menos favorecidos?  Mal acabaram as eleições, quando se ouviu de tudo, desde impropérios, as mais deslavadas mentitas e promessas de moradias para todos, saúde, educação, saneamento básico, água, transportes etc…  Uma verdadeira “sacanagem!”, desabafa outro morador.

Indignação, covardia, dor, violência, crime contra a sociedade são  sentimentos que eclodem dessa comunidade e da qual compartilho, pois amanhã pode ser a minha vizinhança, o meu bairro. A cada relato de mortes de parentes, de vizinhos que não resistiram à violência e ao poder das autoridades, cresce o horror e, consequentemente, a vontade de participar dessa denúncia.

“O  meu lugar é cercado de luta”, diz um pobre homem diante de sua casa semidestruída. E convicto afirma: “vou reconstruí-la.”  A frase do morador da vila à beira da lagoa da barra, à beira do inferno, serve tanto como demonstração da realidade da situação dessa comunidade carioca, como serve de alerta, de apelo para toda a sociedade para se unir à dor do outro e a lutar contra os poderosos. Serve ainda para pensar: se essa vila fosse minha? O que eu faria? E você?

Julia Ben Norita

O dito e o não dito

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 2:11 pm

Em dado instante, a atriz no palco invade a cena e diz: “Eu acredito que é importante dizer coisas”. E prossegue falando da importância do que é dito e daquilo que ficou por dizer. Parece algo tão simples. Dizer coisas. Mas às vezes não, não é.

Quase sempre, aquilo que não é dito faz tanto mal, mais do que aquilo que se diz. Porque com o que se diz é possível lidar. Mas como lidar com silêncios, com vazios, com lacunas? Como lidar com aquilo que o outro não disse, já que ao interlocutor cabe apenas um balão cheio de interrogações?

E aí, tem que se lidar com suposições. Um trata o outro conforme aquilo que acha que o outro pensou, mas não disse. Quantas discussões são fruto da incapacidade de comunicar o que se sente? E de não entender o que o outro disse e o que não disse?

Certa vez li a seguinte frase: “Para compreender as pessoas, devo entender o que elas não dizem, o que elas talvez nunca venham a dizer”. Durante muitos anos, me especializei em entender as pessoas por trás do que elas diziam. Achava que asssim estaria sendo generoso, buscando entender o outro de fato.

Essa frase, porém, encerra uma suposição quase cruel: a de que alguém pode dar conta de algo que é do outro. Oh, meu deus! No mundo em que vivemos cada um mal dá conta de si mesmo! Como atribuir ao outro um pensamento, uma voz que não saiu de seu coração? Quanta tolice! Somente o outro tem o direito de dizer de si.

Na (infeliz) tentativa de entender, muitas vezes achando que o está acolhendo, alguém pode em vez disso calar – talvez para sempre – o outro. O outro que tem seus porquês, seus senões, sua voz, seu silêncio. O outro que não pode ser eu, o outro que é – e só pode ser – simplesmente o outro.

Voltei meus olhos para o palco e deixeu meus ouvidos atentos. E concordei com a atriz em cena. É muito importante dizer coisas. Revisitei meu passado e lembrei tantas palavras não ditas, sentimentos calados, tantas e tantas vezes. Lembrei de inúmeros momentos em que deixei de dizer algo porque achei que o outro isso ou o outro aquilo. Quanto pesar em função de conjecturas e impossíveis certezas.

Paulo Leminsky nos diz em uma de suas belas poesias: “O que quer dizer diz. Não fica fazendo o que, um dia, eu sempre fiz. Não fica só querendo, querendo, coisa que eu nunca quis. O que quer dizer, diz. Só se dizendo num outro o que, um dia, se disse, um dia, vai ser feliz.”

Dizer tudo que se quer? Não sei se podemos seguir à risca o conselho do poeta. Mas talvez seja melhor viver entalado com o que se disse, do que morrer engasgado com tudo aquilo que se deixou de dizer.

Oswaldo Buarque

novembro 21, 2014

Tragédia urbana

Filed under: 2014.02 Novembro — literarea @ 4:01 pm

Tosse, tosse, tosse, engasga e outra vez tosse, quem sabe um copo d’água faz melhorar essa secura da garganta, que machuca e resseca a alma aturdida por tanto barulho? Impossível sobreviver em paz com essas máquinas barulhentas para lá e para cá, de lá para cá, o tempo todo, sem trégua, o dia inteiro, deixando tudo em pé de guerra. Água, um banho, até que agora, seria bom, não fosse um cano estourado, não por engano ou acaso, que há três dias deixou as torneiras sem serventia nenhuma. Alguém diz para ligar a televisão, quem sabe não tem um programa para distrair e manter as crianças chorosas entre quatro paredes? Lá fora, não dá, não tem condição de deixá-las livres e soltas brincando como antigamente. No quintal, sozinho, só mesmo um abacateiro, carregado, não de abacates, mas de poeira, seus frutos, antes tão desejáveis, estão imundos e murchos, vivendo apenas da esperança de outras estações, que dificilmente virão.

A noite chega, mas o sono tranqüilo não vem. Impossível dormir com o uivar tão sentido de cachorros abandonados, que perplexos vagueiam pelas ruas empoeiradas, à procura de lares que não existem mais. Seus donos insensibilizados pelo massacre de tantas perdas, simplesmente deixaram todos para trás. Os ‘apertamentos’ novinhos em folha, dados como moeda de troca na realocação, não têm quintal, só cimentado, gramado e piscina, o que em nada combina com animais. Daqui a pouco amanhece e a mente cansada não se permite relaxar, pois com o sol, também vêm de novo as máquinas para derrubar mais uma casa de alguém que não resistiu e fraquejou. Mais um dia, mais escombros, nos quais, se não eu tiver atenção, irei tropeçar no caminho para o trabalho. Fossem apenas simples escombros de uma construção qualquer não seria tão ruim, porém meu coração grita de dor pelas histórias rasgadas de pessoas que eu conheço. É com pesar que me deparo com pedaços de suas vidas, das quais também fiz parte. Foram tantos os momentos compartilhados com parentes, amigos, vizinhos e conhecidos aqui na Vila Autódromo. Histórias, que uma vez realocadas, ficaram órfãs de seu início ou de um esperado ou merecido final.

Numa rua mais ali adiante, ainda sem muitos escombros, uma casa parece imune ao clima de total destruição. Na frente, algumas roupas brancas penduradas num varal. Na sala, uma senhora simpática, em seus setenta anos, sugere em voz branda e suave, que se faça um macarrão com o molho de carne de cheirinho tão gostoso que vem vindo da cozinha. Aos poucos, no entanto, dá para perceber que essa atitude sábia e aparentemente tão serena traduz apenas um grande desânimo, uma tristeza profunda de quem perdeu alguém bem íntimo e precisa se adaptar a essa falta. Se eu pudesse colocar em palavras o seu pensamento diria que seus olhos me dizem: De que adianta chorar por quem se foi e nos deixou aqui? Choro calada por mim, por tudo que perdi a cada despedida, pois sei que a qualquer hora, se nada de bom acontecer, quem sabe serei eu a me despedir desse lugar e principalmente de mim mesma?

Longe dali, as autoridades, ditas competentes, pessoas como eu, parecem que se esqueceram de que gente tem valores, tem direitos, tem raízes, que não podem ser arrancados como um capim que vai e se replanta em outro canteiro, em nome de uma Olimpíada que em nenhum momento fez por exigir  isso, mas tão somente a especulação imobiliária. Uma catástrofe urbana em plena luz do dia, parcamente registrada pela mídia, quase sempre omissa nessas horas.  Sei que hoje sou eu, todavia amanhã pode ser você da opinião pública, que hoje, por mim, não fala, finge que não sabe ou que não vê.

Incrível mesmo essa nossa sociedade Capitalista, insensível, muitas vezes, ao insistir em uniformizar o diferente, tentando igualar, a seu jeito, abacateiro, bicho, gente e construção. Ao mesmo tempo, que é a mesma a fazer questão absoluta de diferenciar, sem cerimônia, o direito à liberdade e à moradia, que para todos deveria ser igual.

Adriel Romanno

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